Pontuação no Desporto 1

 

Paulo Borges

Há um par de anos atrás, deixei arquivada uma reflexão sobre o tema abaixo descrito, que fui repescar dado que se tornou matéria de discussão ao almoço, entre este amigo Paulo Armando Sousa Jardim Alves Borges, pessoa afável que sabe ouvir, e a minha intolerável pessoa que fala pelos cotovelos. Sendo uma matéria que mexeu com ambos, extravasámo-nos numa correspondência que achei interessante publicar no meu Site, na esperança que suscite comentários ou um conhecimento mais esclarecedor que arbitrasse estes nossos pontos de vista tão opostos.

A PONTUAÇÃO NO HÓQUEI EM PATINS.

«Nunca compreendi a lógica de certas alterações que por vezes são introduzidas no desporto. É o caso das vitórias terem passado a ser pontuadas com 3 pontos (3-1-0) ao invés dos 2 (2-1-0) inicialmente em vigor. Uma cópia chapada do que se passou no futebol foi transferida para a nossa modalidade. O argumento que isso iria incentivar a busca dessas mesmas vitórias não colhe, porque se tivesse colhido devíamos passar a 5 ou 7 pontos por vitória. Na verdade, temos de reconhecer que esta mudança não altera sensivelmente nada. Os atletas das equipas querem simplesmente ganhar, os pontos não lhes interessavam e durante dezenas de anos viveram tranquilos com os 2 que lhes eram atribuídos.

Numa análise lógica vejamos como se chegou à pontuação antiga, partindo do princípio que em cada jogo se disputa 1 ponto. Não havendo vencedores, (caso de empate) só se pode atribuir zero pontos a cada um dos contendores. Se um vence recebendo 1 ponto, é óbvio que ao que perde só se pode atribuir -1. Vamos por passos:

Situação:………..vitória…………..empate…….….derrota

1º passo…………….+1…………………0………………..-1

Como as tabelas das classificações seriam complicadas e trabalhosas de se compilar com os (+) e (-), resolveu-se o problema algebricamente, suponho eu, criando-se uma igualdade, somando 1 a cada parcela.

2º passo……….…+1+1=2………… 0+1=1………. -1+1=0

Resultando:………..2……………….1………………0

Deste modo, temos que o número total de pontos a serem disputados numa prova com “n” equipas é exactamente igual à soma do número de jogos que essas equipas efectuam. Assim, se 10 equipas estão empenhadas e fazem 9 jogos cada, temos um total de 10×9=90 jogos, portanto 90 pontos em disputa. Assim é e assim devia manter-se pois é natural que se queira entrar numa prova sabendo, à partida, quantos pontos estão em causa.

Já analisei inúmeras tabelas classificativas, introduzindo uma coluna para 2 pontos e outra para 3. Comparando-as, verifiquei que só aqui e ali é que um ou outro clube muda de posição, sem consequências notáveis. Por outro lado, com a vitória pontuada a 3 pontos, temos a situação de não conseguirmos saber, à partida, qual o total de pontos que se vão disputar nos torneios, tendo de aguardar pelo último jogo para o saber, o que é absolutamente extravagante para não dizer aberrante.

Para já, o único efeito dos 3 pontos é que as equipas mais fortes se afastam das mais fracas logo nas primeiras jornadas, o que pode presumir um efeito psicológico positivo para as que se encontram no topo, mas em contrapartida as de baixo também vencem e ganham os mesmos 3 pontos, o que anula todo o exercício. Criou-se uma ilusão de afastamento que, diga-se de passagem, não altera sensivelmente a classificação geral nem traz nenhum proveito de monta.»

Este foi o documento arquivado. No prosseguimento da minha argumentação anexei ao original acima mencionado, o seguinte:

Para reflexão, (exemplo fabricado):

Nº de jogos……….J………V……..E…….. D…… pontos (2)…..pontos (3)

Equipa “A”………….9………8………0………1…………..16……………….24

Equipa “B”………….9………7……….2……..0…………..16……………….23

Concluindo: Se em competição, procuramos acima de tudo vitórias, isso será tão valioso como não sofrer derrotas. No exemplo anterior verifica-se que a equipa ”B” que conseguiu esse desiderato, acaba por ficar pior classificada no sistema de 3 pontos. Claro que a equipa “A” teve mais uma vitória que a “B” e a dificuldade de valoração só pode ser resolvida equitativamente pela pontuação do 2 pontos, colocando-as em igualdade e relegando a classificação final para os resultados entre si, ou entre os demais, devendo beneficiar quem tiver marcado mais golos. No caso de terem marcado o mesmo número de golos, beneficiaria quem tivesse sofrido menos. Se porventura terminarem em igualdade nos golos marcados e sofridos, atira-se uma moeda ao ar ou vão ambas jogar o “Euro milhões”, pois acertaram numa probabilidade fora de vulgar!”

A análise e comentários de Paulo Borges

Premissas:  (para vitória valer 3 pontos)

i) “Premiar” quem tiver mais vitórias, ou seja, quem praticar um hóquei/futebol “positivo”

ii) Ao invés, não “premiar” o estilo de jogo tipo “autocarro”, isto é, quem procura o tal mísero pontinho (1 ponto pelo empate) e, por associação, pratica um hóquei/futebol “negativo”

iii) Não haver prejuízo para os chamados “mais pequenos” pois quando ganham também lhe são creditados os 3 pontos da vitória (confirmado por ti no 6º parágrafo da tua 1ª. folha: “Para já, o único efeito dos 3 pontos . . . . .”

iv) Logo no início da prova todos saberem que as regras são estas (julgo que é o que acontece em todas as provas realizadas em Países minimamente organizados)

Dando como válidas estas premissas (e aproveitando o teu exemplo das equipas A e B):***

Equipa A………………………………………………………Equipa B

Jogos = 9                                                                        Jogos = 9

Vitórias = 8                                                                      Vitórias = 7

Empates = 0                                                                    Empates = 2

Derrotas = 1                                                                    Derrotas = 0

Pontos (2) = 16                                                               Pontos (2) = 16

Pontos (3) = 24                                                               Pontos (3) = 23

*** “Premiada” a Equipa A (na regra dos 3 pontos) por praticar o tal hóquei/futebol “positivo” (nomeadamente com mais vitórias), “castigando-se” a Equipa B que andou a “engonhar” e empatou mais vezes (utilizou mais vezes o jogo tipo “autocarro”, logo o chamado hóquei/futebol “negativo”).

Os autocarros

O mérito deve ser sempre “premiado” (sempre) – quem “arrisca” mais em querer vencer tem que ser mais “açucarado” do que quem se limita a não querer sofrer derrotas (dito de outra forma, a querer empatar)

Campeão, nas tua “alegações” quanto ao desfecho deste exemplo da Equipa A vs. Equipa B fazes a seguinte introdução:

“Concluindo. Se em competição, procuramos acima de tudo vitórias, isso será tão valioso como não sofrer derrotas, . . . . . . . “ ii)

ii) “Contestação” minha:

O último pressuposto – não sofrer derrotas «(“Se em competição, procuramos acima de tudo vitórias ….. tão valioso como não sofrer derrotas”)» nem parece de um campeão do Mundo e de um campeão do Mundo que foi e que continua a ser um “atacante”, doutro modo, um “avançado” (o pressuposto é de cariz defensivo e não ofensivo – e desde sempre temos a premissa que o futebol ofensivo deve ser “premiado” e não o inverso);

Não sofrer derrotas não pode ser (até pela natureza das coisas) tão valioso como ter vitórias dado que não sofrer derrotas não é sinónimo de vencer antes de não perder (e, no “saco” do não perder, em sentido estrito cabem os empates e em sentido muito, muito lato podem caber vitórias e empates – mas essencialmente não ter derrotas significa tão-só empatar (donde modo vitória e empate não podem estar no mesmo “patamar”)**

** isto porque, quer na tua pontuação primitiva (vitória = +1 / empate = 0 / derrota = -1) quer na tua pontuação valorada (vitória = 2 / empate = 1 / derrota = 0) tens que observar que não sofrer derrotas – que temos que considerar como empatar, uma vez que ganhar traduz vitória (quando ganhas um jogo não vais dizer que não sofreste uma derrota antes vais afirmar que tiveste uma vitória) e perder (que nem deve entrar na equação dado que perder nunca é não sofrer derrotas) traduz, como é óbvio, que se levou uma “tareia” – só te dá, ou 0 ou 1, enquanto que a vitória te dá ou +1 ou 2.

Em suma: não se deve “premiar” os “autocarros” = não ter derrotas (ter empates), em detrimento do futebol mais ofensivo = busca de mais vitórias.

A razão, julgo eu, para que os empates sejam (na “nova” versão dos 3 pontos) “penalizados”, assenta no facto de a maioria das equipas (nomeadamente por falta de recursos financeiros para terem “activos” / jogadores de melhor qualidade) jogarem, em regra (principalmente quando defrontavam adversários de maior “quilate”), para o tal “pontinho” (1 ponto) da ordem, utilizando os tais “autocarros” e, com isso, não valorizando o espectáculo (não procurando o tal jogo “positivo”)**

** e jogavam para o tal “pontinho” não para empatarem, p e, por 3 – 3 (onde haveria golos e logo espectáculo) mas antes para empatarem 0 – 0 (uma “seca” e zero de espectáculo) e, portanto, dar-se a estes “gajos” apenas menos 1 ponto (na pontuação 2, 1 e 0) do que se dava aos que procuravam ter vitórias e jogar um futebol “positivo” dava azo a dizer-se que o “crime” compensava ii).

ii) dessa forma, seria justificado dar um “bónus” (quem mais “arrisca mais petisca”) a quem praticava o futebol “positivo” e, em vez de se lhes dar apenas mais 1 mísero ponto (por relação ao que se dava aos “partidários” do “autocarro”), passou a dar-se mais 2 pontos (passando, desta forma a valer 3 pontos – e não apenas os “curtos” 2 – a vitória)**

** nada de “escandaloso” porque a todos (princípio da igualdade a funcionar em pleno), quer os do futebol “positivo quer os do futebol de tipo “autocarro” quando vencem têm seguros os tais 3 pontos

É claro que concordo com o modelo de desempate:

1º Validar resultados havidos entre (e só) os dois oponentes – não sendo isso suficiente, i)

2º. Quem, entre os dois, tiver marcado mais golos – não sendo ainda suficiente, i)

3º Quem, entre os dois, sofreu menos golos i)

i) sendo que tal modelo tanto vigorou para a “moda” antiga dos 2 pontos por vitória como vigora agora para a “moda” nova dos 3 pontos – pelo que, com a entrada em vigor da “moda” nova nada se alterou nos procedimentos**

** se, p e, Benfica e Braga (actualmente – na tal “moda” dos 3 pontos por vitória) terminassem o campeonato com os mesmos pontos, o Braga seria campeão porque em Braga ganhou por 2-0 e na Luz só perdeu por 1-0, sendo portanto accionado o ponto 1º e dando-se o título ao Braga.

Pelo que ficou dito, a tua “indignação” face ao sucedido ao Nafarros afigura-se que não colhe dado que, “premiando” o tal futebol (no caso vertente, hóquei) “positivo” (aquele que procura mais a vitória – e não o que não quer sofrer derrotas, vulgarmente designado como “empata”) ficou “por cima” o Infante de Sagres pois procurou mais a vitória do que o fez o Nafarros (estou a analisar dados objectivos, tais como: Infante de Sagres = 4 vitórias vs. Nafarros = 3 vitórias – donde, ganha o Infante**).

** o tal “prémio” para quem foi atrás de (mais) vitórias e não se ficou pelo jogo tipo “autocarro” ***

*** ainda a considerar que o Nafarros (como todos os outros participantes) sabia, logo à partida, que as regras eram as de dar maior valoração das vitórias em contraponto com uma desvalorização dos empates ii)

ii) quando falo em jogo tipo “autocarro” deves saber ao que me refiro: todos “lá atrás” a ver se fazemos o “pontinho” da ordem (1/um ponto) do empate (é o que fazem os que procuram não perder, já não os que procuram vitórias / ganhar)

Ainda sobre a questão do porquê de não se atribuir (pela vitória) 4 ou 5 pontos (em vez de 3) julgo que tal é uma não questão porque:

O cerne não está no que se atribui a mais pela vitória mas antes (e estando a repetir-me) o que se deixa de valorar no “novo” modelo dos 3 pontos: deixa-se de valorar a vertente “não sofrer derrotas”, dito doutro modo, não valorar os empates – como desincentivo (“castigo”) ao tal futebol tipo “autocarro”

A atribuição de 3, 4 ou 5 pontos pela vitória é irrelevante dado que todos (quer os “grandes” quer os “pequenos”) terão esse incentivo (“prémio”) quando buscam o hóquei/futebol “positivo” (as vitórias)

Havendo lugar a contra-argumentação, força, dado que eu apenas fiz esta “análise” puramente “amadora” do tema (sem bases sustentáveis e com pouco tempo) – como “curioso” do fenómeno, esperando não ter dito nenhuma barbaridade – mas, se o fiz, foi pelos motivos já invocados (falta de bases e de tempo – e, claro, de estudo). Abraço.

 

Com o decorrer do debate anexei este quadro da 25ª jornada do Nacional de hóquei em patins para uma melhor interpretação do assunto e o gráfico em baixo, relativo ao afastamento ilusório provocado pelas duas pontuações P1 e P2

Afastamento ilusório!

Olá Campeão

Eu julgo que já antes da “era” dos 3 pontos por vitória (e não apenas 2) o critério para desempatar já era:
1º. Critério: nos jogos entre os dois (que terminaram o campeonato com os mesmos pontos) e apenas nesses dois jogos quem tem a vantagem
2º. Critério: não havendo essa vantagem (os 2 resultados entre os dois foram iguais), quem no geral (em todo o campeonato) marcou mais golos 

3º. Critério: não sendo ainda superada a questão (os 2 marcaram precisamente o mesmo número de golos durante o campeonato), quem no geral sofreu menos golos

A serem estes os critérios, sabendo todos os participantes no início da prova que V = 3, E = 1, D = 0 não me comove nada a “choradeira” do Nafarros.

Ambos (I Sagres e Nafarros) acabaram ou não a prova com o mesmo número de pontos? Acabaram (dados objectivos)

* Desconhecendo que tenha havido diferenças nos jogos disputados directamente um com o outro (nada foi por ti informado) temos que ir para o 2º. Critério:

O I Sagres no geral (em todo o campeonato) marcou ou não mais golos que o Nafarros ? Marcou (dados objectivos)

Então, ponto final (temos dados objectivos + equipas sabiam ao que iam: V = 3, E = 1, D = 0)

No tempo dos 2 = V, 1 = E, 0 = D, o Nafarros foi ou não mais “empata” que o I Sagres? Foi – teve 3 empates / “autocarro” e o I Sagres teve 0 empates / não andando a “engonhar” (dados objectivos)

. . .

Caro Paulo Borges

Quanto a outros pontos abordados por ti (a Itálico negrito) vou responder à frente ou em baixo de cada um deles

Em primeiro lugar quero agradecer-te o trabalho e a paciência que tiveste em analisar o mérito ou demérito da questão avançada por mim, respeitante às pontuações “2-1-0” e “3-1-0”.

Acho que divergiste do ponto fulcral da questão por mim abordada, que não passa de um simples problema matemático, de como validar adequadamente vitórias, empates e derrotas desportivas, num quadro de classificação dos vários jogos de qualquer competição.

i) “Premiar” quem tiver mais vitórias, (é redundante na medida em que, quem tiver vitórias, premiado já está), ou seja, quem praticar um futebol “positivo”, (o que é um futebol positivo… o Inter que deu 75% do tempo de posse de bola ao Barcelona?)

Premiar quem tiver mais vitórias por oposição a quem procura apenas não sofrer derrotas (que, para ti, é tão valioso como ter vitórias – o que, de todo, não concordo); E não é redundante pois foi dado o estímulo de mais 1 para quem mais arriscava ao invés daqueles que apenas não queriam era sofrer derrotas (e volto a repetir-me: não sofrer derrotas = empatar; não igual a ganhar).

E estás a “misturar” coisas que o não devem: um Campeonato (prova de fundo, de regularidade) com Liga dos Campeões (jogos a eliminar); São realidades diversas; E o Inter já tinha feito o seu futebol “positivo” em Itália (em Espanha e face a ser uma realidade distinta de um campeonato só fez o que tinha a fazer – os totós foram os do Barça; Mourinho forever).

ii) Ao invés, não “premiar”… o “autocarro”… quem procura o tal mísero pontinho… que pratica um hóquei/ futebol “negativo”.

(É contra-natura procurar um empate, como escrevi no meu primeiro parágrafo, os atletas das equipas querem simplesmente ganhar… sendo um mero corolário, não quererem perder. Daí a minha ainda reiterada convicção que pesa tanto na balança querer ganhar como não querer perder. Põe uma moeda de 2 euros a rolar no tampo duma mesa, num caras ou coroa, e vais ver que o peso da satisfação do que ganha é exactamente o peso da tristeza do que perde. Se a moeda ficar de pé, julgo que ambos sentirão um certo alívio, dada a expectativa, pois não ainda foi nesse rolar que as coisas ficaram decididas).

Se a moeda ficar de pé só sente alívio o “que estacionou o autocarro” – e estás a entrar no âmbito subjectivo (alívio) e a nossa “discussão” deveria, pelo menos eu assim esperava, ter por referência dados objectivos.

Mas continuando o meu exercício de lógica.

1. Reportemo-nos a uma guerra na antiguidade, em que o exército derrotado era feito escravo. Imagina o que pensariam os milhares de homens de duas hordas que se enfrentam. Não é preciso grande esforço. Todos querem ganhar e nenhum quer perder. Não passaria pela cabeça de qualquer daquelas alminhas um empate pois isso só causaria uma mortandade parcial, sem efeitos no desfecho. (Lembro que os exércitos só se enfrentam quando o número de unidades e a força são sensivelmente iguais. Em caso de desigualdade, o mais fraco organiza-se defensivamente, pelo menos para não perder, o que para ti aparenta ser “engonhar”, e entra em contra-ataque, o que é mais inteligente e positivo do que atacar de qualquer modo. Cabe ao mais forte tentar resolver esse problema).

Isto é “andar à volta”(li em diagonal pois o meu tempo é “curto” e peço desde já desculpa se estou a ser pouco rigoroso – o mesmo para os pontos (seguintes) 2, 3, 4 e 5.

2. Ou isso, ou achas que os mais fracos devem sair do castelo e levar uma tareia dos mouros que os cercam? Sabes o que sucedeu aos polacos quando avançaram com os seus fracos recursos contra a máquina moderna e oleada do exército alemão?

3. Mas façamos uma disputa doutra maneira. Imagina que estamos a competir por uma daquelas lindas Taças orelhudas, colocada sobre uma mesa, cada um de nós a puxar pela respectiva orelha.

Hipótese a) – Nenhum fica com a Taça (ficam aliviados porque nenhum a perdeu), o que é equivalente a ficarem ambos com (0).

Hipótese b) – Fico sem a Taça e desato a chorar, que é o mesmo que ficar com (-1), na prateleira.

Hipótese c) – Ficas com a Taça (+1) e ainda queres ser premiado com outra?

4. É esta a lógica em que a génese da pontuação se baseia, um (uma taça) ponto por jogo que leva a um total por competição que se obtém multiplicando o número de jogos que cada equipa disputa pelo número de equipas participantes.

5. Claro que fazer contas com (+) e () é desaconselhável e não se comete injustiça nenhuma em introduzir uma igualdade em que se transforma (+1, 0, -1) em (2,1,0), dando uma unidade mais a cada parcela.

6. Por outro lado, com esta pontuação (2,1,0), temos um número previsível de pontos e podemos encomendar um número conhecido de “taças”. Outrossim, com a tal pontuação dos “prémios” e “açucarados” (3,1,0), temos um número de pontos variável numa competição, (ficas a não saber quantos são) e, o que é um absurdo, não vamos poder encomendar as “taças” porque temos de esperar pelo último jogo.

Na regra dos 3 pontos por V e para não se recuar muito (em termos de jornadas que faltavam para se “fechar” o campeonato) e tendo em atenção que entre Benfica e Braga havia uma diferença de 6 pontos a favor do Benfica (mas que na realidade eram só 5 pontos dado que nos resultados apenas entre ambos o Braga tinha vantagem) temos que:

Quando faltavam 5 jogos o Benfica precisava de fazer apenas mais 10 pontos para ser campeão / quando faltavam 4 jogos precisava de apenas mais 7 pontos / quando faltavam 3 jogos precisava de apenas mais 4 pontos / quando faltavam 2 jogos precisava de apenas mais 1 ponto* (mais uma vez, dados objectivos)

* donde, não estou a ver a razão de ter que esperar pelo último jogo para fazer “contas”.

7. Desporto não se faz por decreto. E na minha argumentação, não entrou em jogo o estado de espírito das equipas, as motivações, as cotoveladas e os pontapés nas canelas nem tampouco o apedrejamento de autocarros ou influências sobre árbitros e outros quejandos. Tentei tratar somente da pontuação, um assunto algébrico.

Estamos (base da nossa conversa) a falar tão-só de pontuação – assim, tudo o resto é folclore.

8. Ainda sobre a questão do porquê de não se atribuir (pela vitória) 4 ou 5 pontos (em vez de 3) julgo que tal é uma não questão porque: O cerne não está no que se atribui a mais pela vitória mas antes (e estando a repetir-me) o que se deixa de valorar no “novo” modelo dos 3 pontos: deixa-se de valorar a vertente “não sofrer derrotas”, dito doutro modo, não valorar os empates – como desincentivo (“castigo”) ao tal futebol tipo “autocarro”

A atribuição de 3, 4 ou 5 pontos pela vitória é irrelevante dado que todos (quer os grandes” quer os “pequenos”) terão esse incentivo (“prémio”) quando buscam o futebol “positivo” (as vitórias)

De todo o parágrafo anterior, por ti escrito, causa-me estranheza afirmares que “o cerne da questão não está no que se atribui a mais pela vitória… mas antes não valorar o não sofrer derrotas, dito doutro modo, não valorar os empates”. Eu olho para a classificação actual e vejo exactamente o contrário, não tocaram no empate nem na derrota que continuam (0) e (1) e ofereceram mais um ponto à vitória (3).

Sim. O cerne da questão está nos “autocarros”/ empates dado que estes não sofreram qualquer valoração (e bem) e não em dar pela vitória 3, 4 ou 5 pontos uma vez que todos levam o mesmo “prémio” (3, 4 ou 5 pontos) desde que as tenham – é o tal “incentivo” ao futebol “positivo” (leia-se, mais vitórias) e não aos “futebóis” dos Nafarros deste Mundo.

a) Se o cerne não está em… porque se atribuiu mais 1 ponto então?

Mas o cerne não é o ponto a mais – é sim o não “premiar” quem tinha na ideia que é tão valioso não sofrer derrotas como ter vitórias dado que afinal o “crime” compensava visto que quem se “esfolava” e tinha que ter mais engenho para “circular” o autocarro tinha (apenas) um prémio de mais 1 (2) do que quem se limitava a não sofrer derrotas (1).

b) E se isso é bom, então seria curial dar 10 pontos e ficávamos todos felizes porque as equipas iriam alegremente em busca do futebol “positivo” (as vitórias). Aí ninguém perdia ou empatava e ficávamos a coçar a cabeça para ver como sairíamos desta enrascada. (Brinco!)… Desgraçadamente, alguém tem de perder ou empatar ou ganhar!

Ninguém perder ou empatar é (praticamente) utopia – mas que se pode corrigir e incentivar quem faz mais “pela vida” pode-se e foi o que se fez: estimular-se ainda mais a vitória.

c) Mas tu próprio o dizes: «A atribuição de 3, 4 ou 5 pontos pela vitória é irrelevante dado que todos (quer os “grandes” quer os “pequenos”) terão esse incentivo (“prémio”) quando buscam o hóquei/futebol “positivo” (as vitórias)». Se é irrelevante porque é que se deu mais um ponto? O que é que se consegue com mais 1 ponto que não se consiga com 10 pontos. Digo-te, nada significativo!

Quando digo que é irrelevante é dando o sinal que a atribuição do bónus é para todos e sendo para todos é irrelevante uma vez que, desde que ganhem, “pequenos” ou “grandes” têm o mesmo tratamento.

d) Termino com o que antes escrevi: – Olha só, numa pontuação a 2, o Nafarros teria mais 1 ponto e então seria o penúltimo (não é que isso interesse neste caso), a pontuação a 3 igualou-os na tabela a 12 pontos, e funcionou o regulamento que diz que quem marcar mais golos é beneficiado. O I. Sagres marcou 67 e o Nafarros 64, todavia, este teve menos 2 derrotas que o outro, tendo sofrido 128 golos contra 148 do adversário… menos 20 golos!

Se todos sabiam, desde o início, que V = 3 e que mais golos marcados era o 1º. critério de desempate o Nafarros queixa-se de quê ? De que quando lhe interessasse o velho esquema de 2 pontos haveria a repristinação do mesmo? A ser assim é que se teria um campeão por decreto.

Não te merece reparo esta situação em que, neste caso, e provavelmente noutros, beneficiou quem mais golos sofreu e mais derrotas teve, contrariando os pressupostos que levaram à pontuação hoje em vigor?

Aqui, nomeadamente quando se elaborou os regulamentos, estamos no tal âmbito subjectivo – se tivesse sido valorado inversamente seria a vez de os I Sagres deste Mundo dizerem que o critério deveria ser outro. Porém, uma vez aprovado o regime que regula a competição (e julgo que será aprovado pelas associações em maioria) não se pode alegar factos “velhos” sempre que estes, afinal, eram-nos mais favoráveis.

Um abraço – e findo com esta minha intervenção neste assunto porque mesmo que esteja a ver mal o “filme” (o que não me parece) não vou, para já, alterar a minha posição (podes ficar com a taça)

Posfácio

O desporto oferece este tipo de polémicas intermináveis. Elas ocorrem durante os almoços, às mesas do café, onde se sentam amigos (inimigos figadais nas cores dos seus clubes), discutindo a grande penalidade que não foi, o golo que resultou dum fora de jogo, o árbitro que estava feito, etc. Tenho reparado que quando se sentam dois, conversam de modo sereno, mas basta haver três ou quatro para redundar numa discussão ruidosa que me faz lembrar as orquestras, antes de o pano subir, a ensaiar os seus instrumentos, numa chinfrineira ensurdecedora. Tal como sucede em vários debates televisivos.

Ora a polémica relatada nesta página não tem por onde se desdizer, foi pensada e escrita e pode ser analisada na sua argumentação. Deixo isso para quem tiver paciência de oferecer os seus préstimos e comentar, tal como o meu amigo Paulo Borges o fez.

Entretanto, fico com a tal Taça orelhuda.

 

 

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