Lourenço Marques

Vista da Catembe

Capital da Província de Moçambique, antiga colónia na África Oriental Portuguesa, território hoje independente, era sem dúvida uma das mais bonitas cidades costeiras daquela região, por mérito próprio considerada como a pérola do Oceano Índico. Está situada na baía do mesmo nome onde, vindos de sul e leste, desaguam os rios Matola, Umbeluzi e Tembe que formam um estuário relativamente apertado entre a cidade, na margem esquerda e a Catembe na margem oposta. Esta prossegue até à foz do rio Maputo, proveniente do sul, muito à beira das ilhas Inhaca e dos Portugueses. A norte, o rio Incomati despeja o seu enorme caudal, somente minimizado pelas ilhas Xefina Pequena, do Meio e Grande.

A Catedral

Toda esta balizagem pretende enquadrar uma cidade “su generis”, com um traçado urbano moderno, de avenidas e ruas traçadas a esquadro, numa quadrícula perfeita que na altura era abraçada por uma curva, a estrada da Circunvalação que ia duma ponta a outra da cidade. Avenidas largas, bem como as ruas, ladeadas por fiadas de enormes e coloridas acácias cujas sombras ainda hoje protegem os pedestres das temperaturas peculiares daquelas latitudes. Como centro fulcral das várias direcções, norte-sul, este-oeste, situava-se a rotunda onde fora erguida a estátua de Mouzinho de Albuquerque, rodeada pelo Edifício da Câmara Municipal, a Catedral e o Prédio Funchal.

Num círculo de 1 km e meio: 1-Teatro Varietá, primeiro recinto de patinagem inaugurado em 1912, 2-SNECI, 3-Ferroviário (junto à Sede), 4-Desportivo, inaugurado em 1949 pela Sel. Nac. Portuguesa, 5-Sporting, pavilhão moderno, 6-Liceu antigo, 7-Parque José Cabral, 8- Malhangalene, coberto, onde foi derrotada a Sel. Espanhola em 1957, 9- Desportivo, novo, inaugurado pelo Sport Lisboa e Benfica em 1953, 10 e 11-Liceu novo, 12- Maristas e 13-Ferroviário, novo, ao longo do campo de futebol.

Foi nesta cidade pacata que cresci e, ao mesmo tempo, a vi crescer. Mais tarde, depois de ter visitado a Metrópole, praticamente de norte a sul. tive de reconhecer que em todo o País não havia outra que se pudesse comparar a Lourenço Marques no que se refere a equipamentos desportivos existentes nos Clubes, nos bairros, nos liceus e nos parques, se tivermos em linha de conta o tamanho da urbe e da sua população.

E como todos estes equipamentos estavam contidos num raio de 1,5km, os moradores dos diferentes bairros, que dum modo geral eram conhecidos uns dos outros, deslocavam-se facilmente aos jogos que ocorriam todas as terças e sexta-feiras, para apoiar as suas equipas favoritas.

O Clube Naval

E, como se pode ver, a Marginal que partia da baixa da cidade, acompanhava as inúmeras praias até à Costa do Sol, passando pelo Clube Naval, pelo Pavilhão da Polana e pelo restaurante Peters, num percurso de mais de uma dezena de quilómetros, locais apetecidos e muito frequentados pela população, aos fins-de-semana.

Neste espaço coexistiam o SNECI, no bairro Maxaquene, com o seu pequeno estádio exclusivamente para a prática da patinagem e hóquei em Patins, quatro courts de ténis, um campo de basquetebol, dois de Voleibol, uma carreira de tiro, um ginásio ao ar livre, o Clube Desportivo da Malhangalene, com o seu Pavilhão coberto, no bairro do mesmo nome. O Clube Ferroviário de LM, além do rinque onde se praticava hóquei e basquetebol, possuía um salão Ginásio e um campo de Futebol nas imediações. No Ginásio praticava-se Ténis de mesa e Badmington.

Equipa de Badmington: - Da esq. de pé: António Pereira Leite, Ivone Costa, Abrileta Velasco, Delminda Maltezinho e Helder Maltezinho. Agachados: Adão Ribeiro, Guilherme Soares ???

O Grupo Desportivo de LM, dispunha de dois rinques, um a céu aberto e outro que mais tarde levou uma cobertura simples, um conjunto que incluía uma Piscina olímpica com torre de saltos de 10 metros de altura e, na parte de trás, junto às barreiras, um campo de futebol. O Sporting Clube de LM, mesmo encostado ao Desportivo, também com um campo de futebol, partira do antigo rinque para a construção dum magnífico Pavilhão com uma cobertura geodésica moderna, para cerca de 6 mil pessoas, uma autêntica jóia da coroa, orgulho dos seus mentores e aficionados e que não encontrava igual em nenhum clube de Portugal. Estes três últimos situavam-se na baixa da cidade e os outros dois na parte alta.

Uma das praias...

Além destes, os dois rinques do novo Liceu Salazar, com piscina interior, na Ponta Vermelha e o Parque José Cabral, na Polana, com outro rinque e uma pista de atletismo muito frequentada e onde se realizavam os jogos inter-escolares. Campos de futebol de bairro, organizados pela juventude que neles residiam, grassavam por todo a lado, em terrenos devolutos. O Internacional, do Miranda, Francisco Ferreira e do mais tarde famoso Perdigão que acabou no Futebol Clube do Porto, foi onde eles deram os primeiros pontapés.  Se bem me lembro, tinham uma direcção de miúdos, emitiam cotas que colectavam pela vizinhança e equipavam-se à maneira.

Clube de Bairro. O futuro famoso Perdigão, de pé, à esquerda.

Não resisto a contar um episódio que se passou na altura. A nossa equipa do SNECI foi desafiada pelo Internacional para um jogo a realizar num domingo de manhã, que até assistência teve. Como éramos todos mais vocacionados para a patinagem, sabíamos que estávamos à beira duma cabazada, mas fomos e a sorte esteve connosco. Logo no primeiro minuto, um balão atirado da nossa defesa, electrizou-nos e corremos a monte atrás da bola que descrevia uma parábola e marcámos um golo. Foi tal a alegria, que entrámos todos pela baliza dentro, em fila indiana, (não havia rede), pegando nas nossas bicicletas e pedalando-as em direcção à praia, a gritar, “ganhámos… ganhámos”! Lembro-me que, ao desaparecer na primeira curva, olhei de esguelha para trás e vi os nossos potenciais adversários, de mãos nas ancas, num qualquer 4x3x3, a olhar para nós completamente siderados.

Inauguração do recinto dos Maristas

Outro campo, o dos BIG BOYS, formado por mim e os meus primos Teixeira, o Manuel (Manecas), o Ramiro, o Orlando, no nosso bairro, era também popular, para não falar do Olimpia dos Wilson mesmo defronte do Hospital Miguel Bombarda, no mesmo terreno onde mais tarde o Colégio dos Maristas de L.M. construiu o seu rinque, que foi inaugurado em 1954, com participação das melhores equipas da cidade e que o SNECI venceu.

Clube de bairro, os "BIG BOYS". Da esq, de pé: Danilo Barreto, Túlio Faria, Telmo, (?), Redondo, Amadeu Bouçós, Fernando Fernandes, Mário Jorge. Agachados: Manuel (Manecas) Teixeira, Juza, Carlos Bernardo, Galinha, Alberto Moreira, Sérgio Albasini, Orlando Teixeira e Zito. Sentado, com a bola (?).

Outrossim, não posso deixar de mencionar o Instituto Mouzinho de Albuquerque, na vila da Namaacha, junto da fronteira com a Swazilandia, acerca de 80kms da capital, que se tornou num autêntico viveiro de jogadores de hóquei em patins, de alta qualidade, que inundaram os clubes de Lourenço Marques e que se pode considerar como um dos mais valiosos contributos dados ao hóquei moçambicano pelo estimado Padre Miguel Barros, cuja magnífica obra prosseguiu mais tarde nos Salesianos do Estoril.

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