Escultores de Guarda-redes

 

Diogo Vieira, um garoto que pensa por si

Retirei dos Comentários a correspondência travada acerca dos atletas que escolhem a função de Guarda-redes, já por si demasiado exigente em termos mentais e de sacrifícios físicos, para vê-los agora a serem esculpidos em série, formatados em colunas distorcidas, por imposição estúpida, talvez para condizer com um Hóquei em Patins também ele pouco inteligente, é de facto desmoralizador. 

Trezentos, quatrocentos (?) treinadores, animados por um feixe de luz que varreu o País e iluminou as suas mentes, decidiram todos (?), apoiados na descoberta de uma nova constante universal, pegar no martelo e escopro e talhar o granito numa forma aberrante porque assim é que é

Diogo, aos 9 anos e já determinado!

Ora, um garoto de 9 anos, o Diogo Vieira, acha que não! Sente-se mais à vontade, mais seguro a jogar de outra forma. Mas o escultor insiste que assim é que é, ou então não jogas! Francamente, que pobreza de espírito! Liquidar-se à nascença um espírito jovem, corajoso e criativo!

O Hóquei em Patins é isso mesmo, jogado “em Patins” e o Guarda-redes não pode ser excepção. Agir de joelhos, torcido ou rastejando, é já em si uma imagem de um aflito… um derrotado!

Setiques séniores, botas e bolas pesadas

Os novos artistas plásticos e os velhos “engenheiros das regras” deviam olhar e… ver com olhos de reparar, a razão por que as balizas à guarda dos garotos, durante um período de 3/5 anos, têm aquele tamanho e não foram reduzidas proporcionalmente para as suas idades e estaturas? Têm de cogitar por que empunham eles setiques de séniores e bolas sem o peso diminuído, tendo a agravar o uso de botas números acima e portanto mais pesadas do que seria apropriado.

Se pensassem nesses pormenores mais que vitais para os escalões etários inferiores, em vez de olhar e não ver nada, como por exemplo, tentar criar um recinto amovível dentro das actuais pistas, também à proporção, talvez pudéssemos assistir a jogos mais vibrantes entre a miudagem e até dar-lhes mais tempo de jogo.

Não afastem aqueles que verdadeiramente gostam da modalidade. Seria uma lástima, para não dizer um crime, eliminar o espírito empreendedor de um jovem em plena idade formativa. Recuperem-no e deixem-no afirmar-se do modo que bem entende.

Haja sensatez! 

Fernando Rodrigues says: 30/04/2012 at 09:07

Caríssimo sr. Velasco :

Queira-me deixar partilhar este belíssimo artigo do seu Blog!…

Fernando Rodrigues, hoje veterano

Preza-me dizer-lhe estar totalmente de acordo no seu conteúdo, embora também seja apologista de alguma modernidade, com conta peso e medida. Se fizermos um pouco de análise ou olharmos um pouco para outras modalidades, julgo que a única a sofrer redondas alterações constantemente, foi o nosso querido “Hóquei Em Patins”, mas, verdade seja dita norma geral para PIOR. Por isso, fomos arredados dos títulos!

Fui praticante durante quase trinta anos, ou melhor numa geração de ouro (Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana, Livramento …, Garrancho, Casimiro, Cristiano, Picas, Piruças, Fernando e Manuel Pereira, Carvalho, José e Vitor Rosado, Salema, entre tantos outros para enumerar aqui. Felizmente, tive uma boa escola de hóquei e a felicidade de privar com esta gente ENORME.

A moda…

Quando agora vejo, estes novos curiosos do nosso hóquei, dizerem em relação à posição dos Guarda Redes, que é assim que se defende, porque é MODA, dá-me uma vontade enorme de lhes chamar simplesmente “IGNORANTES”!!!. Ainda por cima, alguns nem admitem serem diferentes, ou seja criarem um estilo próprio português, por exemplo:

– Aliando o estilo ao qual chamam antigo, com o tal moderno ou na Moda?

Resolveram fazer o tal “COPY and PASTE” dos nossos amigos Espanhóis, sejamos também originais e inovadores. Estive alguns anos afastado do mundo do hóquei, tendo voltado derivado aos Veteranos ainda em acção do qual faço parte. Devido a tal, inseri o gosto numa criança na modalidade e por conseguinte, escolheu esta valorosa posição de GUARDA REDES!

A posição clássica

– Acredita V. Exª., ser credível uns sábiozitos, terem feito chantagem com o miúdo, ao ponto de lhe dizerem só jogas se jogares de joelhos? – Estás proibido de jogar de cócoras? Só mesmo gente de mente básica. Ninguém pode ser diferente neste desporto, é tudo mecanizado! Até me dói a Alma, porque é o próprio atleta já a preferir jogar como no nosso tempo de ouro.

– E, porque será?

Ainda ninguém me conseguiu provar o contrário, aliás nem se dignam discutir ou argumentar o contrário, por falta de argumentos ou sabedoria para tal. Enfim, caminhamos para o afundamento das nossas vitórias.

Um bem-haja aos verdadeiros amantes da modalidade. FR

 

Velasco says: 01/05/2012 at 02:18

Caro Fernando Rodrigues

Ainda ontem enviei um escrito a propósito de um problema que afligia um pai, cujo filho faz parte do escalão Escolar, 9/10 anos. As observações que o Fernando fez demonstram bem o estado de cegueira em que os responsáveis pela formação de hoquistas chegaram. No seu caso, relativo a uma criança que escolheu ser Guarda-redes, deixei um alerta sobre essa posição, neste meu Site, na categoria Da Cartola, página Hóquei por Decreto, sugerindo que voltassem a pôr os guarda-redes a actuar como antes, de modo a recuperar a sua típica simetria.

Estou consciente que os tempos são outros, muita coisa mudou no hóquei, novas regras, alterações constantes, algumas absurdas, originando um novo paradigma. Mas este paradigma, só veio transformar o Vinho do Porto que era o nosso Hóquei em Patins, num Port Wine importado dos USA, uma espécie de hóquei em gelo sobre patins, que serve os interesses dos fabricantes de equipamentos.

Dito isto, por mais que se mexam nas regras, é todavia fácil verificar que o que valeu no meu tempo, ainda vale hoje, a ver:

– Capacidade atlética (que se adquire naturalmente com a prática intensa dos pontos que se seguem)
– Patinagem,
– Manuseio da bola com o aléu,
– Precisão de seticada e passes,
– Um “stock ” de simulações variadas,
– Defesa das balizas pelos guarda-redes.

Não há regra que obrigue um guarda-redes a defender do modo como todos eles actuam hoje. O treinador que force um garoto nesse hábito rastejante é um coitado, um copista cego, um medroso de destoar de outros copistas que por aí andam. É o mimetismo generalizado! Desculpem-me as palavras duras.

As técnicas peculiares da modalidade não podem ser ensinadas aos garotos nem tão pouco aos adultos. Estes terão de as descobrir por si próprios. Um treinador, mesmo que tenha sido praticante, só poderá aconselhar o que é óbvio, na verdade, pouca coisa. Dos 9 anos aos 18/19 vai uma década, em que cada um terá de ser livre para dar conta do seu potencial, aprimorá-lo e alcançar um estilo próprio.

Obrigar um jovem candidato a guarda-redes a actuar “contra-natura”, quando as regras não o obrigam a tal, repito, é uma violação do seu direito de expressar-se livremente, é como as tendências históricas de transformar um trabalhador num escravo. O resultado trágico é que se este se habitua… será escravo o resto da vida.

Moreira… já não se vê disto!

O meu companheiro, Alberto Moreira, também Campeão do Mundo, só nos pedia que lhe atirássemos bolas de todos os ângulos, com a força que desejássemos, que ele lá foi descobrindo não só o posicionamento correcto na baliza, cobertura de ângulos e os momentos de saída e de pontapés, como também fez descobertas que o levaram a encomendar caneleiras à medida das suas pernas. Merecidamente, adquiriu um lugar na galeria dos melhores guarda-redes de sempre.

Resumindo, é preferível não haver treinador do que andar por aí um a fingir que é…

Por curiosidade, do meu grupo de miúdos de 9 anos, que à partida não podiam prever o futuro, 5 deles sagraram-se Campeões do Mundo, e da Europa e, durante 10 anos, ganharam todos títulos internacionais disputados na altura. Eles eram diferentes, com estilos próprios, mas com uma característica comum: Dominavam, ao alto nível, todas as técnicas e tácticas individuais que ninguém lhes ensinou ou obrigou a executar, o que lhes deu confiança, permitindo-lhes acções audazes e inovadoras.

– Não tivemos um “sabe tudo” a chagar-nos os ouvidos, a pretender ensinar-nos o que nós, jovens atletas, só podíamos aprender por nós próprios. Não tivemos um fazedor de “robots”, todos iguais, todos a fazer o mesmo, a correr que nem baratas doidas, levados pelo tal novo paradigma, copiado do hóquei em gelo, em que correr para a frente e para trás, em alta velocidade, é que é bom e moderno. É o hóquei que temos, totalmente bastardo… que não permite o aparecimento de “galácticos”, com os seus estilos diferenciados, como aqueles hoquistas que o Fernando listou e que era um prazer observar.

Bem-haja o tal carola do apito que esteve sempre presente, mas que nunca gritou lá para dentro: – “passa a bola!”…setica!”…vem para trás!”… “não dribla” !!!

Fazia sempre uma festa, quer perdêssemos quer ganhássemos. Um homem tranquilo, que respeitou e se fez respeitar, dando-nos a liberdade de sermos criativos e de absorver as “nuances” que vão com a prática de uma modalidade complexa. Uma modalidade que se deseja espectacular, em que decisões e acções individuais e colectivas, têm de ser conscientes, instantâneas mas não estupidamente robotizadas ou teleguiadas de fora.

Um abraço. Velasco

Fernando Rodrigues says: 02/05/2012 at 13:56

Caríssimo sr. Francisco Velasco:

Gostaria de lhe agradecer o seu vasto comentário, pleno de visão, nem poderia ser doutro jeito, vindo de tão prestigiado praticante da nossa querida modalidade.

Para meditar… baliza de Andebol para o Diogo…!

Seria bom demais, muitos novos iluminados (ou frustrados), pudessem ter acesso às suas palavras escritas!

Podemos ser modernos, dentro de limites de sensatez … deve haver bom senso e admitir eventuais erros nas nossas concepções.

Acredita V. Exª, que o atleta em causa, apesar de menor é bem mais adulto, comparando com aqueles que o castigam, por teimosia e porque não chamar de burrice?

Pseudo-técnicos destes, está o hóquei repleto, infelizmente… Não seriam muito mais racionais, se ponderassem os porquês e os contras??? Só porque é MODA? Isto, é de bradar aos céus esta argumentação!

Não me vou alongar mais por agora, mas, deixa-me deveras triste os destinos do nosso hóquei a quem está entregue!…

Um bem-haja ao nosso hóquei dos tempos de campeões. FR

Velasco says: 02/05/2012 at 17:16

Caro Fernando Rodrigues

Não tem de me agradecer pois foi muito interessante esta troca de impressões. Os meus comentários ou certezas resultaram mais do curioso observador (mesmo enquanto jogador) do que do prestígio do praticante. Este, de um modo geral, limita-se hoje a agir de acordo com os modelos dominantes. Não questiona o que o impele, até porque não têm interlocutor para as suas dúvidas nem uma Escola de Hóquei, na verdadeira acepção da palavra, onde a matéria possa ser explicada com rigor e para além das usuais banalidades.

Fernando Rodrigues em acção…

Queira saber que convivi com “resmas” de treinadores e seleccionadores, como diria o Herman José, e nunca consegui, por mais subtilmente que tentasse, uma análise, uma troca ou uma comparação de conhecimentos. Medo de serem descobertos com a sua pobreza de conteúdos? Eu acho que sim… pois não se discute, nem tão pouco se partilham saberes e experiências, sabendo nós que é o seu conjunto que faz evoluir as coisas.

Voltando aos guarda-redes, o meu alerta de há anos não resultou, mas pelo que observo na televisão, está a ficar claro para mim que inúmeros golos ocorrem pelo facto de o guarda-redes estar a cair sobre um lado, sempre o da perna enjeitada, ou por já estar deitado! Imagine-se agora uma criança postada naquelas enormes balizas… até dá vontade de soltar uns impropérios…!

Posição correcta do Guarda-redes, setique pronto a interceptar o passe do nº 9

Voltar a pôr os guarda-redes agachados sobre os patins, não é saudosismo, é bom senso. Libertá-los-á, permitindo-lhes outras formas mais eficazes e espectaculares de defender a baliza à sua guarda. Infelizmente, mesmo que a sensatez retorne, será necessária uma década para o aparecimento de novos jogadores nessa posição, pois os actuais já estão irremediávelmente formatados.

As regras não obrigam os guarda-redes a defenderem como os “sabidos” andam a impor, devendo estes ser confrontados e levados a aceitar que cabe aos interessados decidir como melhor actuar entre os postes, de acordo com a sua morfologia, inteligência e instinto. Não existem razões técnicas válidas ou de treino que não possam ser ultrapassadas.

Um abraço.

Fernando Rodrigues says: 03/05/2012 at 09:01

Caro Velasco :

Permita-me tratá-lo assim, mas, com enorme respeito!…

Voltando ao assunto, que tanto me entristece. Estive afastado cerca de dezassete anos a partir do dia em que decidi arrumar os ditos patins (com tacões, claro). Portanto, nem me apercebi deste enorme atropelo à arte dos Guarda-Redes. Agora, passado este afastamento da modalidade voltei à prática em Veteranos nos quais, para além de internamente até internacionalmente temos participado.

Se tiver de cair… cai! Como sempre sucedeu!

Devido a este facto a criança em causa adquiriu um gosto especial pela maravilhosa modalidade, e por conseguinte, resolveu ser Guarda Redes. Desde o primeiro dia lhe incuti a posição de “Cócoras”, da qual ele neste momento já não prescinde, ao ponto de preferir deixar de praticar a modalidade (e … só tem dez anos). Ou seja, tenho-lhe demonstrado por A mais B, quais as vantagens de movimentação, posicionamento e deslocação em Patins.

Ainda há alguns dias num torneio, me disseram, que já não viam um miúdo daquela idade em tal posição à anos luz. Era uma maravilha, ele poder adquirir um “estilo” muito próprio! Qual o meu espanto, quando uns Crâneos o impedem de jogar, porque, não era um fantoche na baliza, um desiquílibrado, um assimétrico, enfim…

Era um jogo com os Escolares do Benfica, no qual foram goleados, por sinal! Sabe porquê sr. Velasco? Porque ele só sofreu um golo, durante os oito minutos obrigatórios em que tiveram de o colocar a jogar.

Resta-me perguntar onde estão os dirigentes daquele clube? Andará aquela instituição aos sabores dos caprichos de certas pessoas arrogantes, vaidosas e convencidas da razão?

Pois é verdade, que para voltarem à realidade desportiva desta modalidade, voltarmos a ver executantes e guarda-redes de elite, é necessário erradicar certos elementos menos evoluídos ou com mentes cegas…

Nunca pensei nesta fase da minha vida, estar a viver o hóquei desta forma, com tanta tristeza! Deixo-lhe aqui uma sugestão na qual gostaria de estar presente a assistir, porque não V.Exª., dar uma sessão de esclarecimento público a estes malogrados senhores?

Talvez, assim aprendam de uma vez por todas a não serem apenas uns simples e curiosos praticantes da modalidade.
Pelo nosso Hóquei em Patins ao mais alto nível, um bem- haja. FR

 

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