Época 1956/61 – Clube Ferroviário de Lourenço Marques

Evolução

Emblema do CFLM

Tendo ingressado no Clube Ferroviário de Lourenço Marques, fui encontrar uma crise que se arrastava há tempos e que levou à saída do então treinador. Ainda hoje não me lembro dos detalhes que me levaram a preencher esse cargo, tais como, quem teve a ideia, quem me convidou, como é que tudo teve início. Recordo-me, sim, que a partir de certa altura a situação se formalizou em reuniões da Direcção do clube, encabeçadas pelo seu Presidente que era simultaneamente Chefe da Divisão de Estudos e Construção de Portos, onde eu estava colocado.

Bem cedo, aos 22 anos de idade, iniciei-me seriamente como jogador/treinador, introduzindo regras que ia retirando do saco de ideias, começando por emitir um comunicado em que claramente especificava que as convocatórias para os jogos, estariam visíveis no quadro da Secção de Hóquei, e seriam sempre baseadas nos seguintes 2 pontos:

Assiduidade aos treinos e Empenhamento nos mesmos.

Devo registar e fazer justiça ao Clube Ferroviário pela iniciativa que teve em “importar” do Continente, em especial de Oeiras, atletas de grande nível que vieram dar um impulso extraordinário ao hóquei local. A fotografia que se insere abaixo, mostra o seu plantel, que abarca as  s, s e s categorias, nas épocas 1951 a 1954.

Agachados, da esq: Manuel Carrelo, António Candeias, Luciano Rodrigues, José Candeias, António Martins, (?), (?), Joaquim Miguel e Acúrcio Carrelo, os a negrito com curriculum internacional, campeões do Mundo e da Europa.

Todavia, o resultado da nova ordem de coisas, a partir de 1956, foi uma razia nos plantéis de 3ª, 2ª e 1ª categorias, pois certos atletas compraziam-se a jogar mas eram avessos aos treinos. Desse modo, o clube perdeu uns tantos jogadores, inclusive alguns internacionais, o que me obrigou a uma reformulação drástica dos plantéis existentes, fazendo subir em escadinha, jogadores Juniores e das Reservas, num total de 15 atletas para 3 categorias, quando antes existiam cerca de duas dezenas.

Equipa base do Ferroviário, durante 4 anos: Da esq. de pé: Brandão, Nogueira, vindos das Reservas, eu e Carrelo. Agachados: Agostinho e Fonseca, das Reservas, Moreira e Carneiro, este promovido dos Juniores.

Com o novo regime, o plantel de Honras solidificou-se com os seguintes atletas, além de mim: Raul Gonçalves, Fonseca, guarda-redes, (no ano seguinte reforçado com Alberto Moreira), Labistour, Nogueira, Manuel Carrelo, António Brandão, Amílcar Passos, Agostinho, e Júlio Carneiro. Este plantel, até à minha partida para Timor, em 1961, vigorou com ligeiras alterações na sua composição, ao longo de 4 anos e meio, sem sobressaltos e em perfeita harmonia,. (A única excepção feita, verificou-se contra a Espanha, com a inclusão do valioso jogador Joaquim Miguel, convidado especial).

Logo de seguida, preocupações de outra ordem tinham de ser sanadas. Perguntava-me frequentemente como estimular os meus companheiros de equipa, uma vez que, no meu caso concreto, já competira na Europa, tendo ficado consciente que isso fora benéfico para a minha evolução. O facto de estar em contacto com o Presidente, na Divisão de Estudos, levou-me a aproveitar todos os momentos em que trocávamos impressões, para literalmente “chagá-lo”, como treinador, a fim de levar o Clube a organizar um torneio com a presença de uma equipa de fora, o que para mim seria um objectivo claro a proporcionar aos atletas.

Direcção do CFLM: – Da esq. de pé: Heitor de Sousa, Manuel Vila Maior, Candido Pinhal, Gilberto Morais, Vicente Souto e Silva, Engº Eduardo Dias Barbosa, Engº Albano Sousa Dias, Engº Palla de Lima, Manuel Brum e Alfredo Ferreira. Agachados: Moasir Azevedo, Fernando de Almeida, Carlos Mesquita, Helder Maltezinho, José Ilídio Vasconcelos, Joaquim Rodrigues e Albino Dias dos Santos.

A minha insistência surtiu efeito e, com mais rapidez do que pensava, participei numa reunião da Direcção em que ficou assente um festival com a participação da Selecção da Catalunha, nesse ano, Campeã da Europa. O meu regozijo foi imenso e, como é natural, o entusiasmo dos jogadores cresceu na mesma medida. Os treinos foram intensificados, a assiduidade e empenhamento eram totais e os dias foram passando.

Ao aproximarem-se as datas críticas, os faltosos apareceram no Clube, em dias e horários diferentes, preparando-se com o treinador de Juniores, Eduardo Morais. Quando nos cruzávamos, revelava-me que alguns deles estavam a readquirir as suas formas. Fui-lhe dizendo que o Clube precisava de todos os atletas e que era bom que se treinassem. Esta situação não passou despercebida, daí que um certo desânimo se apoderou dos que compareciam regularmente. Rumores foram-se espalhando, “que era sempre a mesma coisa”, “que uns esforçavam-se e cumpriam”, “para no fim serem outros a jogar”.

Tive de reunir os atletas e, sem garantir absolutamente nada, enfatizei o facto de eles não me conhecerem, mas que eu era uma pessoa que mantinha total confiança nos jogadores, meus colegas de equipa e o mínimo que esperava era reciprocidade por parte deles. Assunto encerrado. Mas tinham razão pois situações dessas verificavam-se amiúde.

No último treino, antes de partirmos para um estágio de poucos dias, programado para incutir uma maior coesão no seio da equipa, fiquei espantado com a vintena e tal de jogadores que encontrei no rinque. Assíduos e faltosos (internacionais e outros), percorriam a pista, passando ou brincando com as bolas. Fleumaticamente, iniciei o treino, fazendo várias combinações que pus a jogar umas ou contra as outras, em partidas de 20 minutos, surpreendentemente animadas e bem disputadas. Duas horas depois, dando por finda a sessão, os atletas reuniram-se à minha volta e informei-os que os convocados para seguirem para o estágio seriam estes e aqueles… ficando de fora, todos os elementos que não tinham levado a sério a regra da Assiduidade.

A minha convocatória, caiu como uma bomba e chegou aos ouvidos do Presidente do Clube que veio abordar-me, alarmado, quando me aprontava para sair das instalações. (Seguiu-se o seguinte diálogo, que sintetizo, com a liberdade que a memória me permite).

Então, Fulano não joga?…Não!…E o Cicrano e o Beltrano?…

Também não!

Já pensaste bem…Já!… – Não achas que… – Não!

Mas se o sr. Presidente quer fazer a equipa, assuma o controlo, conte comigo como jogador, mas terá de ir ao balneário dizer quem são os convocados… os atletas ainda estão lá!

Vai-te lixar, a responsabilidade é tua! – E afastámo-nos os dois, em direcção à saída, numa amena cavaqueira, como bons amigos que sempre fomos.

O resultado foi que a equipa entrou em estágio tranquilamente e descansou um par de dias, pois os treinos a que fora submetida tinham sido exigentes. Como anfitriões, coube-nos enfrentar a Selecção da Catalunha, no jogo inaugural, e essa magnífica equipa teve de suar para nos vencer por 4-3, galvanizando a assistência e as demais equipas locais que iam participar no torneio.

Abertura do Festival – Espanha x Ferroviário, realizado no Pavilhão do Malhangalene – Da esq: Largo, Parellá, Roca, Boronat, Puigbó, Soteras, Orpinell, Mas, António Martins, Joaquim Miguel, Raul Gonçalves, Júlio Carneiro encoberto, José Candeias, Eu, Manuel Carrelo e Agostinho. Formação: Raul, Miguel, Carrelo, eu e Carneiro.

Descobri agora, ao elaborar as páginas do Site, na categoria, Os Famosos, o seguinte registo feito pelo meu companheiro de equipa e de selecções, Manuel Carrelo, que me calou bem fundo, não só por vir de quem vem, mas porque representa a única intervenção pública que reconhece o meu menor contributo para esses eventos:

«Para nós a coisa teve o gosto duma vitória, senão veja: uma simples equipa dum clube perder por 4 a 3 com os Campeões do Mundo! Foi quase como se tivéssemos ganho… Nesse tempo, na nossa equipa, já jogava esse extraordinário jogador que se chama Velasco, e que foi, por assim dizer, o obreiro desse sucesso»

Em retrospectiva, acho que não me saí mal, caloiro que era nestas andanças de apito e cronómetro pendurados no peito. Os quatro anos e meio seguintes transformaram a equipa do Ferroviário numa das mais fortes de Lourenço Marques, que melhor hóquei apresentava, a qual, em 1962, foi à Metrópole conquistar o primeiro Campeonato Nacional, para júbilo do Clube e do Desporto Moçambicano.

Notícia animadora…

Devo acrescentar que durante esta fase, como treinador, lia todas as obras relativas ao desporto a que pudesse deitar mão, qualquer que fosse a modalidade. Observava atentamente os treinos de basquetebol da equipa do Ferroviário, sempre que calhava, apreciando os conhecimentos tácticos dos seus treinadores, muito mais avançados que os do hóquei, com quem gostava de trocar impressões.

Desenvolvi neste período os primeiros impressos de controlo das incidências de jogo, dos tempos de posse de bola, número de seticadas e destinos delas, afim de poder basear-me em números concretos para determinar as cargas de treino adequadas. A primeira silhueta linear dum guarda-redes, de madeira, foi colocada numa baliza, para apuramento da precisão das seticadas e o treino de conjunto, desenrolava-se em redor de cadeiras, sobre as linhas do sistema, visando a sincronização da circulação dos jogadores e, de vez em quando, uma peladinha para não desapontar os meus companheiros.

Em termos do comportamento em campo, os atletas assumiram de modo definitivo as seguintes recomendações, que para mim, eram primordiais: 1. Não criticar a actuação dos árbitros, por gestos ou palavras, (cabendo ao capitão intervir como mandam as regras); 2. Não reagir às provocações, agressões ou insultos dos adversários, (deixando qualquer ajuste de contas para as redondezas ); 3. Não pedir a bola ao companheiro; 4. Não recuar a apontar o dedo para os espaços vazios; 5. Não afagar a cabeça do seu guarda-redes que acabou de sofrer um golo, no jeito de moralização, (o que pode ser interpretado como um desvio de culpas, sabendo nós que alguém falhou lá à frente). Parecem miudezas, mas a sua interiorização contribuiu para uma prática de jogo mais serena e eficaz, com consequências positivas nos resultados dos jogos.

Paralelamente, por esta altura, já me compenetrara que as “cargas dos treinos” eram valiosas mas que as “cargas de jogos” eram muito mais importantes. Felizmente que as provas oficiais em Lourenço Marques, Torneio de Abertura, Torneio de Preparação e Campeonato (estes a duas voltas), Festivais dos Clubes e de Torneio de Encerramento, obrigavam à disputa de 2 jogos semanais, praticamente todas as terças e sextas-feiras.

Entretanto, a preocupação pelo que se passava dentro do campo nunca me largou e, neste período, apesar de ter obtido determinados valores, a compilação dos elementos estatísticos foi muito irregular, dado que nem sempre era possível ter os meios humanos requeridos para o efeito. Essas anotações foram feitas, socorrendo-me dos atletas de outras categorias que não jogavam. Além disso, esta foi a época mais intensa da minha carreira na Selecção Nacional, levando-me a ausências que provocavam lacunas nessa busca de dados estatísticos. Contudo, no decorrer desses anos, fui apurando a metodologia e os impressos a preencher, a par dos acessórios para treinos, que esperava utilizar um dia, se houvesse condições para tal. Tive de aguardar 20 anos por essa oportunidade!

This entry was posted in Eu, o treinador. Bookmark the permalink.

14 Responses to Época 1956/61 – Clube Ferroviário de Lourenço Marques

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.