Tácticas

O que penso das Tácticas Individual e de Grupo

Selecção Nacional Portuguesa – Da esq. de pé: José Vaz Guedes, Carlos Bernardino, Fernando Adrião e Francisco Velasco. – Agachados: Domingos Perdigão, Alberto Moreira, António Matos e Amadeu Bouçós.

Descrevo um único exemplo, que pode parecer descabido, mas que serve para expressar o modo como vejo este tema.

Imaginemos o tempo dos mamutes e a orla duma floresta. Um grupo de homens, cheios de fome, observam a quantidade de carne que poderão obter, se abaterem um dos bichos à sua frente. Já tinham chegado à conclusão, após inúmeras tentativas, que deviam aproximar-se com o vento a dar-lhes na cara, visto que, de outro modo, os animais pressentiam-nos e agrupavam-se à volta das crias, afastando-se. Mas a fome aguça o apetite e quando conseguiram chegar-se a um deles, lançaram-se ao ataque, a monte, sem resultados positivos pois o mamute defendeu-se com a tromba e os dentes encurvados, matando um par deles, ferindo gravemente outros tantos e acabando por fugir subitamente, arrastando consigo vários paus espetados no corpo.

A Táctica dos Paus Aguçados

Este deve ter sido o cenário geral em que as persistentes tentativas, por vezes, culminavam no abate dum animal. Era a táctica dos paus aguçados, dos métodos improvisados, de fraco rendimento e grande dispêndio de vidas que se transformou numa táctica universal que se generalizou por todos os territórios de caça e durou séculos. Durante esse tempo foi sempre a mesma, talvez escolhendo paus mais longos e fortes, afiando-os e besuntando-os com gorduras, (avanço tecnológico para a época) ou variando o método de aproximação do animal, que em vez de frontal passou a ser lateral e, seguramente, com fintas para enganar o bicho.

Entretanto, houve um dia, num outro local, que por mera casualidade, um mamute acossado e em fuga, caiu por uma ribanceira abaixo e morreu estatelado. Durante o festim que se seguiu, um dos homens deve ter raciocinado sobre o acontecimento e terá concluído que seria melhor, numa próxima expedição, assustar os animais para um penhasco onde os mesmos se despenhariam.

E assim o fizeram, iniciando uma nova era, a da táctica dos penhascos, de elevadíssimo rendimento e quase nenhumas baixas, que se converteu numa nova táctica universal que, tal como a primeira, se foi apurando ao longo doutros tantos milénios. O número de pessoas envolvidas na caçada aumentou, aproximando-se da manada de forma organizada, formando um arco, enxotando-a aos gritos, usando tambores, cornetas ou archotes, (mais avanços tecnológicos), na direcção do abismo e da inevitável queda fatal, hoje documentada pela enorme quantidade de ossadas junto de falésias e ribanceiras em certos locais do planeta.

O que levou a este salto de patamar?

Foi seguramente a mudança das regras de jogo. No primeiro caso, o “Livro das Regras” estabelecia que a caçada, (disputa), se realizaria numa planície e os equipamentos eram paus aguçados; no segundo, houve uma alteração “muito significativa” das regras, quando à planície e aos paus aguçados foi adicionado um penhasco. Á primeira fase correspondeu a táctica individual, (improvisação) e à que se seguiu, a táctica de grupo, (organização). Em face do exposto e dadas as evidências paleontológicas do exemplo antes descrito, posso concluir que para determinadas regras e equipamentos, só existe uma solução óptima que se cristaliza numa táctica universal e que só uma alteração “muito significativa” dessas regras e equipamentos, requererá, obviamente, uma nova abordagem do problema.

O Hóquei em Patins, bem como o Futebol tradicional, vivem ainda na era dos paus aguçados, a esgotarem-se com denodo para derrubar os seus mamutes. Por ora, estas modalidades não passaram da táctica individual, (Improvisação), apesar de frequentemente classificadas como de alta competição. Reparo também que a seguinte frase, tão solenemente proferida, abusada e desgastada, de que em “alta competição os erros pagam-se caro”, não explica absolutamente nada, mais parece um lamento, pois não leva em linha de conta que em baixa competição, juvenis, juniores, feminina e outras, os erros também se pagam caro. Até ao martelar um prego, um erro se paga dolorosamente. Sinceramente, acho que a banalização desta frase, em especial nas duas modalidades referidas, visa a todo o custo elevá-las a um pedestal onde ainda não merecem estar. Podem constituir espectáculos excitantes que todos adoram ir ver, mas para darem o salto qualitativo e entrarem na era da táctica colectiva, haverá que raciocinar como fez o homem das cavernas.

É  fácil intuir que a táctica é a solução mais inteligente que utilizamos para resolver determinado problema, seja desportivo ou qualquer outro, o do prego por exemplo, tendo sempre em mente as asserções que devem governar as acções humanas que visem um objectivo: – “agir com a máxima eficácia em regime de economia de esforços” ou, por outras palavras, “atingir o maior rendimento com o menor dispêndio de energia”. Estas asserções aplicam-se tanto á táctica individual como á táctica do grupo, sendo a primeira produto da inteligência do Atleta e a segunda, do Treinador. Ambas terão de responder às seguintes questões: – Quando, Onde e Como?

Todas as acções individuais tais como desmarcar, conduzir a bola, fintar, passar e seticar, bem como todas as acções colectivas, atacar, contra-atacar ou defender, pressionar, requerem a consciência do (QOC): Quando, Onde e Como.

Antes de entrar no desenvolvimento das técnicas que são peculiares desta modalidade e cujo aprofundamento é essencial para definirmos a táctica individual do atleta, e da exposição de soluções geométricas espaciais e temporais que constituem o suporte da Táctica Colectiva, tive de caracterizar os desportos e os atletas, bem como analisar o recinto da competição, isto é, o “campo de batalha” onde se confrontam os oponentes e inserir nele as Linhas dum Sistema.

As linhas do sistema

Os desportos colectivos só podem ser praticados a um nível elevado de duas maneiras:

Por meio de acções tácticas individuais, ao sabor do talento das estrelas, das suas capacidades de improvisação e domínio das técnicas, dos seus estilos próprios, apurados como resultado da sua dedicação à modalidade e dos treinos intensos em que se empenharam no decorrer da sua formação como praticantes, ou por meio de acções tácticas de grupo, controladas pela imposição de soluções inteligentes e lógicas dos problemas concretos enfrentados em competição, estudadas e feitas treinar exaustivamente pelo Treinador. As Tácticas de Grupo constituem evidentemente o patamar mais alto da prática do desporto, até porque podem conter as primeiras e nunca o inverso.

Em tempos, mais precisamente em 1982, quando cheguei a Portugal, depois dum acidente de trabalho em que perdi a mão direita e a pensar que no futuro teria de agir com a esquerda, ao praticar, acabei por manuscrever uma modesta obra, intitulada Hóquei em Patins, da qual transcrevo o seguinte, com poucas alterações e alguns aditamentos:

«Tal como sucede com todas as coisas animadas de uma dinâmica própria, o Hóquei em Patins teve o seu “nascimento”, seguido duma “adolescência” e procura hoje atingir a sua “maturidade”. Numa perspectiva simplificada, ao seu nascimento e sobrevivência imediata correspondem os anos que precederam a II Guerra Mundial, isto é, de 1912/1926 a 1939, em que a Inglaterra era virtualmente imbatível. De 1946 a 1964 foi o período da descoberta do potencial da modalidade, quando uma mais intensa prática correspondente ao natural aumento das competições nacionais e internacionais, permitiu o desenvolvimento das capacidades técnico/tácticas individuais. Essa evolução beneficiou de pequenas melhorias tecnológicas, patins de rolamentos, setiques prensados e equipamentos defensivos mais adequados, máscaras e caneleiras e atingiu um pico de virtuosidade com os jogadores Portugueses que, neste período de “adolescência”, dominaram este desporto.

Foi o hóquei de improvisação que durou até 1964. Entretanto, já se vinha verificando uma sobreposição de tendências e o Hóquei em Patins entrara no caminho da “maturidade”, quando o raciocínio frio e calculista procurava controlar no campo, as acções simples e emocionais. Em 1964, a Espanha que ainda só tinha ganho títulos em 1951, 1954 e 1955, apareceu em força e recapturou o Campeonato do Mundo, denotando uma organização de grupo, em que algumas acções já eram passíveis de serem interpretadas como hóquei táctico.

 

Hóquei de Improvisação

Selecção Nacional Espanhola – Da esq. de pé: Olivero de la Rivas, Pedro Gallén, Parellá, D. Francisco Platón, Juan Orpinell, Francisco Boronat, ??. Agachados: Manuel Puigbó, Juan Zabalia, Carlos Largo e Enrique Roca.

Quer o seu nível seja alto ou baixo, este tipo de hóquei é um produto da mente dos seus praticantes que tentam resolver os problemas de um modo individual, de acordo com a sua própria imaginação ou ideia que possuem das suas capacidades de execução. É um hóquei onde não existem soluções antecipadas e previamente treinadas dos problemas.

Os acontecimentos na pista, são erráticos e somente por intuição os jogadores sabem o que cada um vai fazer. Os atletas, se bem que encurralados num espaço de 40×20 metros, vivem cada um nos seus pequenos mundos, separados pelo seu individualismo. Generalizando, podemos descrever as suas características:

– actuam primeiro e pensam depois,

– perseguem a bola obcecados, onde quer que ela esteja,

– só passam a bola quando “apertados” e às vezes nem isso,

– aguardam junto da tabela e só se movem depois de receber a bola,

– patinam sem eira nem beira, pelos sítios mais fáceis,

– seticam por seticar , na maior parte das vezes sem olhar, de locais incorrectos e quase sempre contra o adversário postado à sua frente,

– a única noção que possuem de posições no terreno, é a do “quadrado”, logo assumido assim que perdem a bola,

– deslocam-se de cabeça baixa, olhos colados no terreno, diminuindo desse modo o cone de visão.

De olhos no chão…

Contudo, todas estas características se esfumam assim que esse tipo de hóquei é praticado por super-executantes, muito rápidos e que seticam com grande precisão, mesmo de ângulos restritos. Eles driblam meio mundo se lhes derem essa oportunidade. Também fazem maus passes quando apertados, mas imediatamente aparece um colega, também uma “estrela”, que compõe tudo com o seu poder de antecipação e execução. O aspecto geral é que tudo vai bem e até parece que existe um grupo. As “estrelas” lá vão ganhando os desafios e as competições, umas brilhando mais que as outras e os técnicos, que nem sequer falam de hóquei com eles, restringem-se aos seus monólogos para uma audiência que de hóquei só compreende aquilo que vê.

Claro que este tipo de hóquei de improvisação tem os seus treinadores. Não há equipa sem um e de facto ele lá está na pista, a ministrar aos seus atletas a preparação física e técnica necessária. Fazem os exercícios tradicionais, de patinagem à volta da pista, de sprints, de travagens e treinam os guarda-redes, tudo sem imaginação, tal como viram os antecessores fazerem.

Seguidamente, de um modo solene, distribuem as camisolas brancas e amarelas, com ar de quem está a testar formações e iniciam uma peladinha que todos adoram, soltando gritos que ninguém entende, especialmente quando estão carolas na bancada.

Treinos intensivos de soluções imaginadas para resolverem os vários problemas com que se defrontam nos jogos, não são realizados. Treinos de sincronização de movimentos e acções quer ofensivas, quer defensivas, também são raros. Quando afirmo que não são efectuados, pretendo significar que não ocorrem com a regularidade, persistência e intensidade que seriam necessárias.

Finalmente, se este tipo de hóquei é praticado por jogadores vulgares, é simplesmente tão mau que nem vale a pena fazer mais comentários.

Hóquei Táctico

O hóquei táctico, em quase tudo oposto ao de improvisação, é o aproveitamento inteligente, organizado e sistemático de todos os movimentos (circulação) e acções dos jogadores duma equipa, com o fim de neutralizar e superar os movimentos e acções que o adversário executa como oposição.

Quer o nível seja elevado ou baixo, os jogadores deste tipo de hóquei procuram resolver os problemas em conjunto, conscientes das suas capacidades e força e, em especial, da necessidade de união. É um hóquei que possui soluções antecipadas de todos os problemas que podem verificar-se dentro do campo, soluções essas que são treinadas com afinco e conhecimento de causa. Os acontecimentos durante os jogos são previsíveis e nada acontece por acaso.

Os atletas deslizam pela pista e actuam como um só corpo, detectando as várias situações de jogo e reagindo sempre com a segurança que os treinos lhes proporcionaram.

São atletas que,

pensam primeiro e agem depois,

perseguem os jogadores e não a bola,

passam bem a bola aos companheiros, com um objectivo,

mantêm-se em movimento mesmo sem a bola,

patinam com uma finalidade, deslocando adversários com eles,

fazem girar a bola com a intenção declarada de criar pressões sobre o adversário e levá-los para posições vantajosas,

olham primeiro e seticam sempre perigosamente,

possuem todas as noções tácticas que puderam estudar e praticar, quer ofensivas quer defensivas. Não formam quadrados por hábito, mas sim as figuras mais adequadas às circunstâncias de momento,

conduzem a bola de cabeça levantada, sempre que necessário, aumentando assim o cone de visão.

De cabeça levantada!

O hóquei táctico resulta da criatividade do treinador, que deve analisar os problemas e estudar as necessárias soluções que o grupo aceitará sempre, se forem racionais e lógicas e que treinará intensamente a fim de aumentar a sua eficiência. É um hóquei com uma força global concreta, em permanente evolução, a adaptar-se continuamente às variáveis da competição, controlando-as em seu benefício.

É também um hóquei em plena maturidade, de características totais, que destruirá os conceitos estabelecidos de “avançado direito” ou de “defesa esquerdo”, dando lugar a um atleta altamente versátil que actuará de acordo com a situação no terreno, defendendo ou atacando nos momentos exactos, com a eficácia que devemos esperar num campo de tão reduzidas dimensões, onde posições rígidas de jogadores não são justificadas.

Este tipo de hóquei naturalmente requer profundas alterações dos velhos hábitos e só poderá resultar, mais tarde, ao nível de jogadores seniores, se uma preparação progressiva tiver ocorrido desde a sua iniciação até à idade adulta. É nestes primeiros anos de vida que as sementes deverão ser lançadas com coragem e determinação de maneira a condicionar reflexos e permitir que o enquadramento, num novo sistema mental de atitudes e acções, se torne mais fácil.»

Assim, e só assim, seremos capazes de elevar a prática de hóquei em patins para patamares de excelência, com a Improvisação do Grupo, quiçá muito mais espectaculares do que a proporcionada pela Improvisação Individual.

Convém recordar que a improvisação do grupo não liquida a improvisação individual, antes pelo contrário, torná-la-á mais fácil, disciplinada e eficiente. Da mesma obra Hóquei em Patins, nova transcrição com poucas alterações e alguns aditamentos:

«Táctica como solução óbvia e inevitável.

A fraseologia utilizada antes e depois dos jogos, varia conforme as pessoas, dum modo indiscriminado:

– O treinador usou uma táctica que deu resultado…

– O sistema por eles empregue fez com que perdêssemos…

– O sistema táctico da equipa esteve na base da vitória…

– A táctica do quadrado

É importante neste momento procurar definir o significados dessas expressões que aparecem amiúde no contexto militar. No campo de batalha, a táctica é a movimentação planeada de unidades, tais como pelotões, companhias, regimentos, divisões, exércitos, etc., cujas movimentos e acções procuram criar determinado efeito.

No campo desportivo sucede o mesmo. As unidades são os jogadores e, quando estes se movem e agem, procurando um efeito, verifica-se uma jogada táctica.

Existe portanto uma certa analogia entre a prática desportiva e a arte militar, com a diferença que na primeira perde-se e na outra, morre-se. Mas se analisarmos bem os fenómenos, ambos requerem movimentos e acções, levadas a cabo por unidades, num espaço limitado, durante um certo período de tempo, condicionados por regras estabelecidas.

A utilização dessas unidades, duma forma inteligente e sincronizada, tendente a iludir o adversário é, em termos simplificados a minha ideia de táctica.

Quando atacamos, a táctica é, acima de tudo, uma simulação consciente de intenções que visa levar o oponente a pensar que vai suceder algo num lado quando afinal o golpe decisivo vai ser desferido do lado oposto, ou no ponto menos esperado.

Quando defendemos, a táctica é essencialmente, a blocagem inteligente das tentativas do adversário em nos dominar, assumindo posições conscientes no terreno que variam de acordo com os ataques a que estão sujeitos e que, no mínimo procuram reduzir a equação à sua expressão mais simples, um contra um, em que a vantagem é de quem defende. O quadrado, por exemplo, não é um sistema táctico. Não passa de uma posição no terreno que até hoje se assume por hábito ou tradição.

Prosseguindo, o conjunto dos movimentos e acções, isto é, das jogadas tácticas que são soluções específicas para problemas específicos, constituem por seu turno um sistema táctico que engloba de modo sequencial todas as situações repetitivas, desde o 1×1 até ao 4×4. E ele será universal se contiver no reverso da medalha, as respectivas soluções defensivas.

Sendo a táctica, por outro lado, resultado de uma atitude mental, calculista e fria, ela variará de acordo com as circunstâncias e necessidades de momento.

Assim, uma equipa tendo de enfrentar outra mais forte, reconhecendo que não se pode bater em pé de igualdade, deverá assumir uma postura defensiva e reagir por meio de contra-ataques rápidos e eficientes (à memória vêem as acções de guerrilha contra exércitos poderosos). Se o adversário é mais fraco, todo um sistema táctico ofensivo deverá ser imposto de modo a destroçá-o por completo, enquanto o relógio não parar. A displicência é por vezes fatal.

O comportamento táctico de um grupo exige uma ligação mental contínua entre os jogadores que o formam e, para atingir o mais alto grau de rendimento, obrigará obviamente a que todos os movimentos e acções que constituem as diversas jogadas tácticas, sejam exaustivamente treinadas até se atingir a maior perfeição e sincronização.

No decorrer dos jogos, uma vez identificados os problemas, a aplicação das soluções já ensaiadas, torna-se simultânea e fácil, dada a sintonia entre todos os jogadores.

Todavia, se o diagnóstico pode ser feito, a cura não será tão simples.

O hóquei táctico só poderá ser praticado por atletas que reflectiram ou foram ajudados a reflectir sobre as questões de jogo, mas se passaram a vida sem o fazer, não mudarão com facilidade.

A mudança tem de começar a ser feita em grupos etários mais baixos, metodicamente, introduzindo soluções correctas de problemas simples e acumulando-as gradualmente à medida que evoluem para escalões superiores. Nessas idades é mais fácil subordinar os movimentos e acções à mente e disciplinar esta em conjunção com a dos colegas de equipa.

Não temos dúvida que o futuro do hóquei reside na táctica colectiva e, apesar de se afirmar que nesta modalidade não existe táctica, repudiando-a como inaceitável, continuo a pensar que ela é inevitável e a solução mais óbvia. É-me impossível aceitar que passemos um século com o hóquei de improvisação, em que os movimentos e acções dos jogadores permanecem ocultos no cérebro de cada um. Este tipo de hóquei pagará uma penalização muito pesada, no futuro.

Verifico que está hoje generalizada a marcação “homem a homem” na prática corrente. Não se aperceberam que esse é o patamar mais elevado da prática do hóquei em patins, a que não se deve aceder, saltando estágios intermediários. Não se passa da tribo para uma cidade cosmopolita sem consequências. Neste caso concreto, a imposição da marcação “ao homem” é a mais fácil de concretizar. Só utilizei esse método quando as equipas que treinei se desorientavam, acordando-os com uma ordem tão simples de aceder, sempre cumprida, com treinos ou sem eles.

A meu ver, neste momento que a modalidade atravessa, o objectivo imediato será conciliar rapidamente os expoentes máximos da capacidade de improvisação com as soluções tácticas globais que possamos conceber.»

Em tempo… condição sine qua non!

O hóquei táctico que antecipo e cujo patamar ainda não alcançámos, só poderá ser praticado se, de entre os vários requisitos, os dois seguintes forem satisfeitos:

1 – Existência de treinadores estudiosos, metódicos, psicologicamente preparados e corajosos, para imporem de forma determinada e pedagógica, as soluções a que chegaram. Tudo que não seja inteligente, coerente e lógico, não será retido pelos atletas que também são seres pensantes, os quais, detectando banalidades, tratá-las-ão com total indiferença.

Aparecer de pasta na mão nos jogos, e fazer riscos num suporte com uma pista desenhada, imitando os treinadores de basquete, é resultado dum mimetismo que podemos dispensar. Já observei pela televisão, cujas lentes se movem sobre os ombros do treinador, procurando dar uma imagem das suas instruções aos jogadores, junto do corrimão, durante os time-outs e, francamente, o cenário é quase sempre o mesmo: rabiscos rápidos e incompreensíveis para o par de atletas que se debruçaram para o ouvir e o resto da equipa, alheados, uns a olhar para a plateia, outros a beberem água ou a conversar.

Instruções dadas a um devem ser ouvidas por todos com a devida atenção. Gritar para os atletas dentro da pista, tentando teleguiá-los, é outro defeito de alguns treinadores, em especial os das camadas jovens que só serve para desconcentrar os visados. Suspeito que isso não passa dum show para a audiência. “Aqui estou eu a fazer o meu papel!

Treinador que grita no jogo, não falou como devia ser nos treinos. Não quero dizer que não se possa ou não se deva intervir, para acordar uma equipa sonolenta ou um jogador mais distraído, mas fazê-lo por sistema é um desastre.

A propósito, em determinada competição, fui convidado por um treinador amigo a permanecer no banco, como mascote da equipa que era candidata ao título. Durante o jogo, não parou de gritar instruções lá para dentro e de tal maneira que cheguei a pensar em afastar-me, só não o fazendo devido à nossa amizade. Numa fase da partida, estavam os quatro elementos do grupo a olhar para ele e um adversário esgueirou-se e marcou golo. Virou-se para mim, enfadado, e disse: Que grandes nabos! Soltei uma gargalhada, tendo pensado na altura, que se fosse eu um dos jogadores naquela pista, seguramente que teria saido e lhe teria dito, agora vais tu lá para dentro que eu fico aqui a gritar…

2 – Existência duma arbitragem séria e criteriosa, que aplique rigorosamente as regras de jogo, pois sem ela não teremos o tão badalado hóquei táctico:

a – Que saiba distinguir a diferença entre uma obstrução e um bloqueio. Todo o jogador está livre de se imobilizar em qualquer ponto do recinto, com excepção do semi-círculo do guarda/redes, e não pode ser forçado a sair desse ponto. Quem for contra ele, pressionando-o ou empurrando-o com o corpo, estará a cometer uma falta.

b – Que penalize imediatamente os atletas que chocam contra outros, em especial nos cantos, empurrando-os com a mão nas costas, de encontro à tabelas, bem como os que agarram, ou que esgrimam os setiques entre as pernas dos adversários, fazendo-os tropeçar.

c – Que penalize imediatamente os jogadores que, frustrados com falta de soluções, tropeçam à mínima confusão, atirando-se e caindo dentro da área à procura da marcação de grande penalidade, copiando o que se passa no futebol.

d – Que penalize severamente os atletas que, ao serem-lhes assinalados cartões, não se aproximam quando são chamados pelo árbitro, virando-lhe as costas com toda a falta de respeito que esses actos significam.

A meu ver, o acto de arbitrar não será tão difícil como fazem querer e se os seus agentes estiverem bem preparados fisicamente, uniformizarem critérios, forem imparciais e usarem o bom senso, não beneficiando os infractores, teremos caminho aberto para trilharmos o caminho almejado.

9 Responses to Tácticas

  1. Luís Cardoso says:

    Estimado senhor:
    Felicito-o, como atleta excepcional que foi, como pessoa de bem e por este labor.
    Contudo, não me leve a mal que lamente a ausência dos nomes daqueles que aparecem nas fotografias.
    Cumprimentos
    LC

  2. Velasco says:

    Caro Luís Cardoso
    Tem toda a razão. Gostaria de esclarecer o que se passa: – Dum modo geral, quando lancei este trabalho em Agosto do ano passado, procurei colocar sempre os nomes das pessoas ou atletas que aparecem nas fotos. Sucede porém que, em Dezembro, o servidor do meu Site cometeu um erro crasso que o apagou por completo. Felizmente conseguiram recuperar os textos e tive de repescar as fotos dos meus ficheiros (o que foi uma trabalheira colossal) e colocá-las de novo. Daí estas falhas. Agradeço a chamada de atenção e amanhã tratarei de legendar as fotos acima.
    Um abraço

  3. Luís Cardoso says:

    Estimado Francisco Velasco:
    Obrigado por nomear as pessoas que aparecem nas fotografias.
    Este pormenor, permite-me identificar os atletas que fizeram parte, segundo me consta, de umas das selecções mais famosas da Espanha.
    Dado que nunca vi actuar essa representação, seria muito atrevimento da minha parte, solicitar-lhe o grande favor de me descrever tecnicamente e como jogavam Orpinell, Puigbó, Boronat, Roca e Zabalia?
    Estes jogadores defrontaram, frequentemente, uma das selecções portuguesas mais famosas de sempre:
    Emídio Pinto, Edgar, Raio, Jesus Correia e Correia dos Santos; que, – se não estou equivocado -, foi um goleador ainda mais profícuo do que o seu famoso primo: Jesus Correia.
    Antecipadamente grato, despeço-me com um abraço cordial
    LC

  4. Luís Cardoso says:

    Queira desculpar-me a insistência e o esquecimento:
    No último jogo do campeonato do mundo de hóquei em patins efectuado na Argentina, o guarda-redes da selecção moçambicana fez, na minha opinião de leigo nesta matéria, no jogo com Portugal, uma exibição digna de se ver!
    Um guarda-redes, como deve ser, proporciona ao hóquei em patins beleza, emoção e espectaculosidade inigualáveis.
    LC
    Tudo estava certo nele: até a compleição.

  5. Velasco says:

    Caro Luís Cardoso
    Prazer em ter legendado as fotos, até porque levou-me a uma viagem pelo passado. Os atletas Orpinell, Puigbó e e Zabalía defrontaram de facto os jogadores portugueses que mencionou e confirmo que Correia dos Santos foi o goleador da equipa, excedendo o primo Jesus Correia dada a sua capacidade de desmarcações na área, sentido de oportunidade e eficácia das suas fintas. No que diz respeito às gerações que se seguiram, no XXIII Europeu de 1957, a Espanha de Zabalía, Orpinell, Boronat, Puigbó e Roca, mais os suplentes Largo, Parellá e Trias empataram a 1 bola com Portugal de Matos, Edgar, Cruzeiro, Perdigão e Mário Lopes sendo suplentes Acúrcio Carrelo, Correia dos Santos e Raposo. Ganhou a Espanha porque Portugal já tinha perdido contra a Itália por 1 a 4.
    A Espanha sagrada Campeã da Europa de 1957, visitou Lourenço Marques neste mesmo ano e foi derrotada por um Misto e pela Selecção de Lourenço Marques, praticamente os mesmos jogadores, por 4 a 3 e 5 a 1, respectivamente. O hóquei moçambicano projectou-se e quatro dos seus atletas integraram durante seis anos a Selecção Nacional, como efectivos e, ocasionalmente, outros três.
    Terminando, confesso com toda a sinceridade que a Espanha era uma Selecção fortíssima, e todos os seus elementos possuíam características técnicas elevadas e um conjunto muito entrosado. Eram eles o Largo, Zabalía, Orpinell, Boronat, Puigbó, Parellá, Gállen, Roca (este um jovem brilhante que vingou a alto nível) e o capitão veterano Serra. Orpinell era a meu ver o melhor médio da Europa, bem acompanhado por Boronat e, no ataque Puigbó, a estrela da companhia, apoiado ora pelo Gállen ora pelo Roca. Largo foi o Guarda-redes que mais impressionou, pelo posicionamento que mantinha entre os postes, menos saltador, contrariando a tradição dos Guarda-redes muito mexidos. O hóquei táctico de grupo deles foi surpreendido pelo o hóquei de improvisação moçambicano. De um lado, uma equipa e de outro, jogadores. Só que estaríamos melhor “artilhados” em termos de capacidade técnica, bem como de tácticas individuais, propulsionadas por uma certa audácia nas nossas acções que os desconcertou. Essa Selecção Espanhola foi uma das melhores equipas que os nossos “hermanos” produziram, independentemente de terem perdido regularmente contra nós ao longo da minha carreira. Esta é a minha visão dessa equipa e dos jogos que realizámos.
    Um abraço

  6. Velasco says:

    Caro Luís Cardoso.
    De acordo. Esse elemento demonstrou a qualidade que dum modo geral é apanágio dos guarda-redes portugueses. Acho que deu tudo que podia dar e o resultado pesado não o diminui. A Selecção Moçambicana estava esgotada nesse jogo e desfecho era previsível. Todavia alcançaram um posição honrosa no Mundial.

  7. Luís Cardoso says:

    Estimado Francisco Velasco:
    Muito obrigado pelas seus esclarecimentos sabedores.
    Lembrar algum passado, por vezes, areja e tonifica.
    Para não contrariar a minha consciência, senhora minha que tanto respeito e cuido, não poderei deixar de lhe dizer o que ouvi, há anos, da boca de outras pessoas:

    “ Os jogadores moçambicanos tinham desenvolvido uma técnica de patinar muito mais apurada, evoluída e rápida do que aquela que era usada pelos seus colegas da Metrópole ou de qualquer outro país.
    Travavam apenas com o recurso das rodas dos patins, e não como se fazia habitualmente por cá, utilizando os tacos da frente dos patins e arrastando, simultaneamente, o stick. Isso, tinha como consequência, travagens menos eficientes, que obrigavam a percorrer muito rinque até se conseguir a imobilização.
    A duração dos sticks diminuía, aumentando a quantidade de riscos nos pavimentos dos rinques provenientes dessa maneira de parar.
    Melhoraram o hóquei em patins em todos os seus aspectos, sem imitarem ou terem outras referências.
    Todos os jogadores da selecção moçambicana eram superiores, hoquisticamente falando, aos da metrópole ou do estrangeiro.
    Da primeira vez que vieram à Metrópole, golearam, mais ou menos copiosamente, todas as equipas que defrontaram.
    Dizia um jogador de uma equipa de Braga:
    Passavam por nós como setas; até paravamos para os vermos a jogar…”

    Notável!

    Um abraço cordial
    LC

  8. Velasco says:

    Caro Luís Cardoso
    Façamos um pouco de justiça. Os jogadores moçambicanos a que se refere, possuíam todos uma patinagem exemplar, fruto da sua paixão pela patinagem. O que, “há anos, ouviu da boca das outras pessoas”, só em parte é verdade mas refere-se aos pioneiros da modalidade, dos anos 1930 e picos até talvez a 1939, começo da II Guerra Mundial que terminou em 1945. Neste interim, os jogadores portugueses evoluíram exponencialmente. Eu tinha 14 anos quando os vi em Lourenço Marques, já campeões do mundo e todos eles eram não só exímios patinadores como elegantes, lembrando-me em especial do Raio, Edgar, Jesus Correia, Correia dos Santos, Joaquim Miguel e do Vasco Velez. Não posso deixar de recordar o Fernando Cruzeiro, Lisboa, Perdigão e Mário Lopes, excelentes patinadores também. A grande diferença entre a minha geração, a dos moçambicanos e a metropolitana, era que nós éramos dotados de técnicas e tácticas individuais desconcertantes que aplicávamos com audácia, pelo gozo que nos dava. Essa criatividade distinguia-nos.
    A questão das travagens sobre tacos ou de lado, é parte da bagagem de todos os jogadores de hóquei, utilizada de acordo com as circunstâncias. Essa de os hoquistas travarem com o setique, foi no tempo da Velha Guarda. Podemos ver um, numa fotografia publicada no artigo com o mesmo nome, na categoria “Da Cartola” que, para tirar uma fotografia, se apoiou no aléu.
    Cumprimentos

  9. Luís Cardoso says:

    Estimado Francisco Velasco:
    Reitero os meus agradecimentos:
    a) Por me ter aturado.
    b) Por me esclarecer.
    Ainda bem, uma vez que estava convencido que um pequeno excerto de um jogo da selecção nacional exibido pela RTP, como efeméride, nos finais, salvo o erro, de 1970, onde se via nitidamente a forma como todos rodavam 180 graus para travarem com a parte dianteira dos patins, ao mesmo tempo que fincavam o stick no pavimento para ajudar a paragem.
    Era bem visível o desgaste provocado nos sticks por esta manobra.
    Estava falsamente convencido de que era a selecção nacional, onde pontificavam o Jesus Correia, o primo, Raio, Edgar e o extraordinário Emídio Pinto.
    Obrigado, uma vez mais.
    Um abraço cordial
    LC

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