Um hoquista em Timor – parte 7

Ilha do Atauro

Porto de Béloi

O relato do levantamento topo-hidrográfico deste porto vai dispensar a descrição dos registos diários de trabalho que em tudo se assemelham aos relatórios dos portos anteriores, para dar lugar a vários acontecimentos, uns inesperados e outros insólitos, que quebraram a monótona rotina a que nos habituáramos. Chegar ao local, dar uma olhadela pelas redondezas e erguer tendas.

Desolador… nenhuma povoação, nem viv’alma para nos receber e enfeitar os ombros com umas grinaldas. Olha-se para Sul e não se vê nada e a Norte, quando o levantamento topográfico chegou ao topo da carta, atravessei uma povoação com palhotas dispersas, habitadas por uma comunidade de leprosos. Mais tarde, li algures que uma instituição da ONU, ou Unesco, já tinha registado que no Atauro, a percentagem per capita desses doentes, era a mais elevada de toda a Indonésia.

A ilha de Atauro fica situada a cerca de 27/28 Kms a Norte de Díli.  Ao abicarmos a sua parte sul, contornamos a costa e rumamos sensivelmente para nor/nordeste e, navegando cerca de 12 Kms, chegamos ao Porto de Béloi que podemos pesquisar através do Google Earth, introduzindo as coordenadas geográficas, 8º 13′ 20,36″125º 36′ 37,80″.

No  mapa abaixo, as coordenadas arbitradas M, verticais, crescem para Oeste e as P, horizontais, crescem para Sul, sendo o ponto de partida o Marco I a que se atribuiu os valores M=5000P=5000. O local do acampamento encontra-se assinalado pelas coordenadas M=3740 e P=4780, onde são visíveis rectângulos, o maior representando uma tenda de campanha ampla, que servia de dormitório para o pessoal, de refeições e zona de trabalho em mesas articuladas. Os dois rectângulos menores, representam as tendas de campanha destinadas aos topógrafos. No mapa, a partir da coordenada P=4000 e em direção a Norte, vê-se o que parece ser uma estrada mas que não passa de um carreiro de areia.

O topógrafo-auxiliar Victor Godinho alojou-se numa tenda com a esposa e o seu filhote de um ou dois anos, cuja autorização foi dada pelo Engenheiro-Chefe da Brigada, a meu pedido, pois não vi inconveniente nisso.

Porto de Béloi - Ilha do Ataúro

Porto de Béloi – Ilha do Ataúro (clicar na imagem para detalhes)

Não encontro registos do dia em que zarpámos de Díli, na lancha Lacló, levando a reboque a Pancho, como era usual nas nossas deslocações para os levantamentos. Recordo-me sim que a viagem durou umas três horas e que almoçámos a bordo. De caminho, encostámos a um pontão existente na praia da Vila Atauro e observámos, por mera curiosidade, a meia dúzia de habitações de alvenaria que lá existiam. A nossa missão não incluía trabalhos na Vila, daí que largámos em direcção ao nosso destino, navegando cautelosamente junto da costa, por “mares nunca dantes navegados”, admirando o extenso eco-sistema de corais e a sua população de peixes de todas as cores e tamanhos, e outra fauna, bem visíveis nas águas límpidas que caracterizam essa ilha, um verdadeiro sonho para mergulhadores desportivos.

Entretanto, a nossa presença provocara o interesse de alguém, pois notei uma figura que caminhava apressadamente pela praia, no mesmo sentido que nós. Apesar de vê-la através dos binóculos, não distingui quem seria pois o reflexo proveniente de uma faixa de salitre onde caminhava e a nuvem de pó resultante, tal não permitia. Como quem quer que fosse não nos fazia sinais, deixou de ser uma preocupação e, posto isto, afastámo-nos da costa e acelerámos os motores.

Quando fundeámos em Béloi, iniciámos a descarga dos materiais e equipamentos, bem como a montagem do acampamento, erigindo as diversas tendas de campanha de acordo com a funcionalidade das mesmas, nos locais que eu, sentado numa cadeira articulada, ia sugerindo depois de uma escolha criteriosa.

O Comandante Militar

Estava todo o grupo de trabalho atarefado nas suas lides quando apareceu subitamente o indivíduo que vira a caminhar no faixa de salitre. Chegou ofegante, todo coberto de pó-sal, sentou-se na primeira cadeira vaga e ficou durante largos minutos a tentar recompor-se e nós, curiosos por saber quem seria. Finalmente, depois de ter sacudido a poeira que o envolvia, notando uma farda militar com umas divisas de 1º Cabo e perguntei-lhe ao que vinha.

Sou o Comandante Militar e Chefe da Polícia de Atauro… – Esclareceu o homem, já mais calmo – O problema é que tenho enviado rádios para Díli solicitando o envio de diesel para o meu Unimog, que está parado, e espero que o tenham enviado, aproveitando a sua vinda…

 – Na verdade, não fui incumbido disso – Respondi, a pensar no assunto.

 Estou tramado… – Foi o lamento que ouvi – Assim é impossível exercer funções!

– Olhe, vamos resolver isto…! – Decidi no momento – Cedo-lhe um bidão de 200 litros que me devolverá assim que receber o seu.

Imediatamente dei ordens para a lancha transportar o militar e descarregar o bidão junto ao pontão da Vila, o que foi cumprido sob a orientação do experiente marinheiro-patrão Bernardo e porta-miras chefe Filipe. Tenho a lembrança vaga que eu e o Victor Godinho permanecemos em terra a arrumar os nossos haveres pessoais nas respectivas barracas de campanha.

Lacló regressou passado menos de uma hora, ficando a marinhagem liberta para erigir a tenda maior onde, eventualmente, pelo entardecer, jantámos todos juntos em redor de um conjunto de mesas articuláveis alinhadas em fila. Finalmente, todos recolhemos “a penates” e o silêncio imperou no acampamento.

Febres intestinais.

No dia seguinte não consegui sair da maca onde adormecera. Tiritava de frio, vomitei e voltei a deitar-me, cheio de febre. Um dos falhanços logísticos foi a falta de remédios para este tipo de situações, possuindo contudo uma caixa de prontos socorros para ocorrências de solução local. A minha sorte foi que a esposa de Victor Godinho entregou a este uma embalagem de antibiótico “Terramycin” com que se acautelara e, durante os subsequentes três dias em que permaneci na maca, fui engolindo as pílulas com se fosse amendoim.

Quando por fim sai da tenda, sentia-me bastante enfraquecido e levei outros tantos dias a recuperar as forças, palmilhando distâncias na praia, de ida e volta, apanhando conchas lindíssimas, de todos feitios e tamanhos, que mais tarde enfeitaram a varanda de minha casa em Díli. Paralelamente estudava a costa e decidia mentalmente onde colocar os vértices principais e, quando me senti apto, dei inicio aos trabalhos, com a construção do Marcos I a V, que serviriam de apoio à poligonal de levantamento topográfico.

Uma vez levantada a escala para leitura das águas do mar, que foi lida ininterruptamente nos dias 22 e 23 de Agosto e determinado o plano do Zero Hidrográfico a partir do nível médio das mesmas, procedi ao nivelamento do Marco III, onde foi cravada uma chapa com a cota 5,97 m. Uma fez fechada a poligonal e durante o seu percurso, levantou-se topográficamente o terreno numa faixa junto ao mar, registando as suas peculiaridades, bem visíveis na carta. Para o levantamento hidrográfico foram calculados perfis paralelos, espaçados a 50 m, sendo o perfil principal projectado como uma normal à curva da costa junto ao Marco III como mandam as regras. O levantamento dos perfis foi efectuado com auxílio da sonda sonora e a localização das cotas por meio de sextantes e em pontos escolhidos, confirmados os seus valores por meio do fio de prumo.

De pé à esq: - Porta-miras, eu, Porta-miras chefe Filipe. Agachados: - Condutor Bosco, topógrafo auxiliar Victor Godinho e Marinheiro-patrão Bernardo.

De pé à esq: – Porta-miras, eu, Porta-miras chefe Filipe. Agachados: – Condutor Bosco, topógrafo auxiliar Victor Godinho e Marinheiro-patrão Bernardo.

A equipa funcionou como sempre, não regateando esforços e empenhada em terminarmos o levantamento afim de regressarmos a Díli e executarmos os trabalhos de gabinete que levariam ao fecho da missão dos Serviços Topo-Hidrográficos da Brigada de Estudos e Construção de Portos de Timor, libertando-me para poder regressar a Moçambique, o que sucedeu por volta de Novembro.

Quanto às febres que me deitaram abaixo, recordo que acabei por descobrir a origem desse surto. Uma tarde, sentado numa cadeira por baixo do toldo, mirava a lancha ‘Lacló” fundeada mais além e rebobinei o filme da nossa chegada a Béloi. Subitamente dei conta que tinha sido descarregado o bidão de diesel e nenhum dos de água fervida e filtrada que nos acompanhava por todos os lados. Todavia, quando jantámos, os pratos e talheres usados durante o almoço durante a viagem, estavam imaculadamente limpos. Saltei da cadeira e berrei pelo cozinheiro que imediatamente se aproximou, surpreendido.

No dia em que chegámos… onde é que lavaste os pratos e talheres, pois não vi rolar o bidão de água tratada que sempre usámos? – Perguntei com ar sério.

O cozinheiro com ar comprometido, informou-me que encontrara um poço na vizinhança e fora de lá que retirara água com um balde para proceder à lavagem.

Leva-me lá…! – Pedi e acompanhei-o até ao poço, recuando à beira dele, tal o cheiro a água estagnada que dele emanava.

Ok… está visto! – Lamentei-me e regressei ao meu posto sem recriminá-lo, dado que fora sempre um cozinheiro exemplar. Reconheci igualmente que de todos, era o único que não possuía defesas para quaisquer bactérias que entrassem no meu organismo.

Uma nota interessante foi a presença da esposa de Godinho e seu filhote, sempre sem  dar nas vistas, a pontos de não possuir imagens deles na minha mente. Talvez a caída de cama tenha bloqueado situações que não tinham a ver com o trabalho, na ânsia de recuperar o tempo perdido. Mas como foi narrado, acho que a “Terramycin” fez o seu efeito.

Segue-se Um hoquista em Timor parte 8 – O Rei do Atauro, o Chefe da Polícia e os Piratas.

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2 Responses to Um hoquista em Timor – parte 7

  1. victor godinho says:

    Li com interesse o capitulo 7 de um hoquista em Timor. E’ incrível como te lembras do 1* cabo . Eu penso que ele era na altura furriel miliciano se nao estou enganado. Ja me tinha esquecido deste episodio mas lembro-me do bidon de gasoleo que lhe emprestaste. A uns poucos Kms do nosso acampamento havia uma pequena vila aonde as mulheres pescavam com o isco pendurado num anzol em meia casca de coco. O peixe engolia o isco mas nao conseguia fugir pois a casca de coco esteja segura com um fio a um estaca espetada na praia. A paria de Be-loi tinha um coral lindissimo com peixes the muitas cores. Eu e minha es mulher ficamos encantados com bela do mar. Fiquei encantado com diarios que escrevestes de um hoquista em Timor. Parabéns Francisco e um abraço nosso

  2. Velasco says:

    Não dei conta dessa povoação cujas mulheres pescavam da maneira como descreves. Lembra-te que fiquei uns dias de maca devido àquele ataque súbito de febres intestinais que atrasou o trabalho e que tu terás aproveitado para andar pelas redondezas. Quando recuperei, só queria começar e terminar o levantamento, daí que muita coisa me escapou e nem sequer me lembro onde foi erigida a escala de leitura de marés. Mas recordo-me de ter ido à Vila onde conheci o Rei do Atauro, sobre o qual estou a escrever o último artigo desta série de Timor. Obrigado pelo comentário.

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