Zeca Ruço – Parte 2 final

Johannesburg

Para se ter uma ideia da atmosfera desta cidade, basta lembrar que além de importar as modas e estilos provenientes do Estados Unidos, de um dia para outro, traziam também a reboque os vícios e violência desse país. Recordo-me da época dos “duck-tails” que esgotavam a lotação do Cinema Coliseu e onde, ao verem os filmes do “Elvis Presley” com os seus típicos meneios de ancas, entravam em autêntico frenesim e gritaria, rebentando com as cadeiras. Outra cópia importada foram os “hell angels” com os seus blusões de cabedal e correntes ao pescoço, prontos para uma briga por onde quer que andassem.

José Daniel dos Santos Rocha

José Daniel dos Santos Rocha

Sem exagero algum, Johannesburg era considerada uma das cidades mais perigosas da África Austral, à semelhança de Chicago no tempo dos tiroteios da máfia. Recordando certa estatística publicada nos jornais, num raio de 1,5 kms do centro desta enorme urbe, todas as semanas morriam 20 pessoas de um modo violento, apesar das execuções legais que ocorriam semanalmente na cadeia de Pretória, a mesma de onde o Zeca Ruço fugiu para retornar a Moçambique.

Por força da minha actividade como gerente da “Lusafrica Agency (Pty.) Ltd” lidei com muitos clientes, organizei Excursões, transportei passageiros ao aeroporto “Jan Smuts”, tendo um conhecimento alargado da cidade, arredores e inclusivamente o Soweto, que percorri várias vezes. Uma coisa é certo, não era ingénuo e anichado no sovaco trazia sempre a minha artilharia, um revólver calibre .38 que, acredite-se ou não, fui obrigado a puxar por ele um par de vezes, sem contudo nunca o ter disparado.

Como exemplo da facilidade como poderíamos transformarmo-nos numa vítima das estatísticas, descrevo o seguinte episódio. Certa tarde, estava no Café Donnay com o meu contabilista Costa que penso ainda andar por aí, ambos de pé, preparados para sair, quando entrou um velhote a correr, tentando esconder-se no meio dos clientes. Mas deve ter-se apercebido que estava encurralado porque a porta de entrada era única. Entrou em pânico e aproveitou para sair connosco, no exacto momento em que um carro chiou e travou mesmo defronte do Café e um matulão saiu dele, empunhando um faca de estilo “Rambo”, mas sem a serradura, que retirara do blusão de cabedal.

Ora, a entrada de esquina, era um patamar de um degrau com mais ou menos um metro por um metro e o velho, pôs-se por trás de mim e abraçou-me, imobilizando-me, tal o terror que se apossara dele. O Costa, que saíra primeiro, apesar da perna engessada devido a uma queda de motorizada que dera no Lobito, fracturando-a numa dúzia de sítios, puxou da sua pistola e apontou para o tal matulão que caminhava na minha direcção. O olhar de ódio faiscante que o animava era a de um drogado e pensei momentaneamente que para atingir a sua presa, iria atravessar-me com o facalhão. O movimento súbito do Costa, ao saltar do patamar, alterara tudo, o velho escapuliu-se de para dentro do Café, e o energúmeno focara agora a sua atenção no Costa: “You want to shoot…? Shoot…!”

Nesta altura, já empunhava o meu revólver, apontando-o para baixo e disse ao Costa para fazer o mesmo, fazendo-me ouvir: “C’mon, man… you don’t stand a chance… you better go…! O fulano parecia desorientado e recuou até porque outros dentro do carro chamavam por ele e desapareceram numa aceleração brusca. O Costa estava excitado e fui admoestando-o no sentido que apontar uma arma, nestas situações, é um convite quase certo para se premir o gatilho. Histórias destas tinha algumas, há que ficar por aqui.

Mas voltemos ao Zeca Ruço. A última vez que o vi, caminhava eu pela “Pritchard St.” a caminho do “Bank of Lisbon & South Africa” quando parei numa esquina no mesmo instante em que uma viatura estacava ao meu lado dado que o semáforo estava vermelho. Ouço uma voz já conhecida a exclamar; – “Hi, Velasco…!”. Olhei, e ali estava o Zeca Ruço, no banco detrás, entre dois policias, a inclinar-se com um sorriso e estendendo para fora da janela os pulsos algemados. Fiquei sem palavras e, numa fracção de segundo, dei conta que ele estava com correntes a volta do corpo, que levara um puxão para dentro e que os quatro guardas olhavam para mim com ar ameaçador e desconfiado. Felizmente o sinal mudou para verde e a viatura arrancou, deixando-me a meditar na sina de cada um.

Acho que o Zeca Ruço vinha do Supremo Tribunal e soube depois que o encarceraram na prisão de máxima segurança de Pretória, (a tal onde eram enforcados semana sim, semana não, os criminosos condenados à pena capital), que apostou umas garrafas de “whiskey” com um major, seu carcereiro, que haveria de fugir. O que é um facto é que ganhou essa aposta, pois apareceu em Lourenço Marques, onde cometeu vários crimes, acabando por ser preso e condenado a 15 anos de prisão, se não estou em erro. Vem-me à memória a revista “Tempo’ que li, onde se descrevia o julgamento mediático em que foi tratado como um actor de cinema, com direito a dezenas de “fans” que acorreram para o saudar.

A partir desta altura, outros, melhor que eu, poderão descrever a carreira do prisioneiro que não saiu da prisão quando em 1974 a Frelimo abriu as suas portas e que acabou como inspector da “Snasp”, Serviço Nacional de Segurança Pública e mais tarde da “Pic”, Polícia de Investigação Criminal. Pelo que me contaram posteriormente, nessa posição de poder, entrou pela via da extorsão, nuns casos violenta e ilegal que de uma forma irónica, levaram ao seu assassinato em Johannesburg.

Edifício Tygerberg, de 25 andares, em Primrose Terrace

Edifício Tygerberg, em Primrose Terrace.

Dez anos tinham passado desde o nosso primeiro encontro no “Café Florian” e muita água tinha corrido por baixo da ponte. Em 1977, trabalhava para uma firma de arquitectos em Braamfontein quando foi anunciada a morte de Zeca Ruço num apartamento a escassos duzentos, trezentos metros do edifício Tygerberg onde na altura vivia. Segui os contornos do acontecimento pelos jornais. Entretanto por estranha coincidência, quando saía da empresa onde trabalhava, fui abordado por um familiar, não sei se um irmão, parente ou conhecido que me revelou ter ido à morgue reconhecer a pessoa em causa. (Soube ontem, dia 14 de Março de 2016, que o familiar era o irmão do Zeca, de nome Edmundo).

Com grande emoção, descreveu-me que o Zeca Russo encontrava-se em estado de “rigor mortis”, dado o tempo que levou a ser descoberto. Estava numa posição fetal, com uma mão por baixo da face, como se estivesse a dormir no momento em que lhe deram um tiro na testa. Lastimo não me recordar do nome desta pessoa ( se estiver por aí, um comentário seria importante ) que ainda me deu a informação que o Zeca Ruço já teria mandado a companheira para Portugal e que contava ir ter com ela brevemente.

Esta história torna-se rocambolesca, quando é noticiado nos jornais que o assassino tinha sido apreendido quando caminhava num troço da estrada que o levaria a Moçambique. A parte insólita e questionável é que, mais tarde, foi noticiada a expulsão deste indivíduo da África do Sul e toda esta tragédia esfumou-se com o tempo e o assunto ficou encerrado.

Contudo, proponho uma tese especulativa que à falta de melhor, serve para decifrar toda a trama:

  1. Zeca Ruço pretendia ir para Portugal ou Europa para onde já tinha enviado a companheira, de acordo com a fonte mencionada acima.
  2. Necessitava de obter um passaporte e veio carregado de uma fortuna em divisas e jóias produto das extorsões confirmadas que realizou quando tinha rédea solta.
  3. O passaporte, que neste caso teria de ser obviamente forjado, custa uma pipa de massa mas consegue-se.
  4. Deve ter vindo a pé para Johannesburg, por caminhos que só ele conhecia e asilou no apartamento de um amigo que teria de ser de sua confiança. Não podia ser apanhado pelas autoridades sul africanas pois seguramente que o condenariam a pesada pena por se tratar de um criminoso foragido.
  5. Não se soube quando entrou no apartamento. Provavelmente revelou ao amigo os seus planos e este, dominado pela cobiça, aproveitou para lhe dar um tiro enquanto dormia, apossando-se do que presumo ser uma maleta razoável.
  6. Este assassino, se calhar acreditando no ditado que “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão”, deve ter guardado a maleta nalgum cacifo da estação dos caminhos de ferro para vir buscar no futuro. De seguida palmilhou troços em boleia ou a pé, tendo sido interceptado a andar na direcção de Moçambique.
  7. As autoridades sul africanas, que acompanhavam a carreira de Zeca Ruço, intrigadas por ele vir meter-se na boca do lobo, facilmente deduziram que viera de passagem e que transportaria com ele uma boa fortuna e vá de apertar com o matador.
  8. Acredito que eventualmente chegaram a um acordo: – “Diz-nos onde está o dinheiro, não vais a tribunal e expulsamos-te do país”

Tanto quanto eu possa especular, em face das notícias publicadas, foi isto o que aparenta ter sucedido. Ponto final.

 

 

 

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6 Responses to Zeca Ruço – Parte 2 final

  1. FHDR says:

    Histórias reais incriveis !!! 🙂

  2. José Manuel Andrade says:

    Boa noite! A história sobre o Zeca afinal é longa e tem caminhos mais ou menos desconhecidos da grande maioria das pessoas. E quem o diz,sou eu : primo direito do Zeca. A mãe dele(já falecida em Arruda dos Vinhos)era irmã do meu pai. A vida ás vezes não é aquilo ” que parece ” e as razões que despoletam um sem número de situações,por vezes são verdadeiramente desconhecidas do grande público. Não estou aqui a desculpar toda a ” carreira ” do meu primo. Obrigado

  3. Velasco says:

    Caro José Andrade. De acordo com a afirmação que a vida do Zeca é longa, tal como a dos demais, com contornos desconhecidos da maioria das pessoas. Os artigos que escrevi sobre ele não buscava antecedentes ou explicações sobre o que levara o Zeca Ruço a trilhar o caminho que percorreu, e neste caso a vida foi exactamente aquilo “que parecia”. Acho que o José Andrade pode esclarecer-me se o seu primo tinha um irmão em Johannesburg, pois a memória está esfumada em relação ao familiar que foi identificar o Zeca. Abraço.

  4. José Manuel Andrade says:

    Boa tarde caro Velasco

    Muito obrigado pela sua simpática resposta. Sim,o Zeca tinha 2 irmãos que tinham mudado as suas vidas para a África do Sul ( mais concretamente um irmão e uma irmã ).
    O nome do meu primo é Edmundo. Ambos mudaram-se para o País vizinho de Moçambique fruto das graves desavenças entre eles e o meu tio. Pena que o Zeca,quando miúdo e moço não tivesse tido a oportunidade também de “fugir” das desavenças que tão mal fizeram a toda a família. Passados… Mais uma vez,obrigado pelas suas amáveis palavras. Abraço

  5. Velasco says:

    Caro José Andrade

    Grato pela informação que corrobora o meu relato dos eventos. Foi então ele, o Edmundo, que me contou ter identificado o irmão na morgue. Chorou ao descrever-me o acto. Na verdade, para alguns mais sensíveis, desavenças familiares na juventude trazem consequências trágicas no futuro. Terá sido o caso, o que foi de lamentar. Todavia, que “reste em paz” agora que passou à história. Um, abraço sentido.

  6. DOMINGOS LARIO says:

    O ZECA COMO ERA CONHECIDO EM 1957 FOI MEU AMIGO DURANTE 2 ANOS. ÉRAMOS UM GRUPO DE CERCA DE 10 RAPAZES QUE SE REUNIAM NUM JARDIM, SE NÃO ME ENGANO JARDIM 28 DE SETEMBRO, QUE FICAVA PERTO DA ESCOLA PAIVA MANSO. ERA MUITO INTELIGENTE, RAZÃO PORQUE ERA O NOSSO CHEFE. ZECA RUSSO PORQUE TINHA CABELO RUSSO E SARDAS NA CARA. FAZÍAMOS CORRIDAS (ATLETISMO) Á VOLTA DO QUARTEIRÃO DO JARDIM E ATÉ A ESTRADA CONHECIDA POR ESTRADA DO SABÃO. ELE ERA UM ATLETA FORA DE SÉRIE, CHEGAVA SEMPRE EM PRIMEIRO LUGAR. lembro-ME DE ELE TRAZER UMA FISGA E COM ELA MATAVA OS POMBOS DAS CASAS DOS MONHÉS. FAZIA-SE UMA FOGUEIRA E UM BOM CHURRASCO. OUTRAS DIABRURAS FAZÍAMOS PRÓPRIOS DAS CRIANÇAS DA ALTURA. CONHECÍAMOS OS CANTOS DE LM COMO NENHUM, PENA FOI TER SEGUIDO UM DESTINO DIFERENTE DO MEU, MAS OS CULPADOS ERAM A COMUNICAÇÃO SOCIAL E MAIORIA DA POPULAÇÃO QUE O ELOGIAVAM PELOS FEITOS COMO DE UM ROBIN DOS BOSQUES SE TRATASSE O QUE LEVOU A QUE CONTINUASSE A PRATICAR CRIMES E SE CONSIDERASSE UM HERÓI. PENA FOI NÃO TER APROVEITADO O FACTO DE SER POLÍCIA E LEVAR UMA VIDA HONESTA. EM 1959 FUI VIVER PARA VILA PERY E TIVE SORTE DE CONHECER OUTRAS PESSOAS, ONDE ESTIVE INTERNADO NUM COLÉGIO DE FREIRAS. FUI PARA-QUEDISTA E EM 1974 INGRESSEI NA PSP E REFORMEI-ME EM 2002 COM O POSTO DE CHEFE DA PSP. É A PRIMEIRA VEZ QUE VEJO A FOTO DELE, PAZ A SUA ALMA.

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