Um hoquista em Timor – parte 2

1961

A abordagem do Cessna que nos trouxe do apelidado “aeroporto internacional” de Baucau, (assim constava nos manuais da IATA), não nos permitiu perceber quão desfasada, em termos de modernidade, se encontrava a capital da Província de Timor Leste. A espiral de aterragem foi rápida, acabando por estacionar defronte de um edifício apropriado. Mais tarde referi-me a essa situação de um modo jocoso, comentando que aquela terra era a única que conhecia em que a pista se encontrava no planalto de Baucau e o edifício do Aeroporto a uma centena de kms, em Díli.

Só posteriormente, quando navegava em trabalho é que dei conta que a linha de costa da capital, nada tinha a assinalar, a não ser o conspícuo Farol da baía, a Igreja de Motael e o edifício da Intendência. Tudo o mais não se descortinava facilmente.

Vista do mar e do norte, pouco de relevante se notava.

Vista do mar e do norte, pouco de relevante se notava.

 

Farol do porto de Díli, à esquerda e Bairro do Farol, à direita, onde se vê a enorme e frondosa árvore que ainda existe.

Farol do porto de Díli, à esquerda e Bairro do Farol, à direita, onde se vê a enorme e frondosa árvore que ainda existe.

 

Igreja de Motael, onde o meu filho Rui Paulo foi baptizado.

Igreja de Motael, onde o meu filho Rui Paulo foi baptizado.

Foi fácil verificar que muito pouco, tínhamos feito por este país tantas vezes martirizado, durante os nossos séculos de colonização. Existia o liceu Dr. Francisco Machado construído na ano anterior, talvez houvesse um par de escolas tipo primária, mas nenhuma Técnica Comercial e Industrial. Acho que pelo interior, a alfabetização estava entregue aos missionários, especialmente nas zonas rurais, espalhadas pelos diversos “Sucos”. Não encontrei 15 famílias europeias enraizadas, tais como as que assentaram arraiais em Angola e Moçambique, às centenas de milhares. Os funcionários que vinham da Metrópole, em comissões de serviço, preocupavam-se em gastar pouco, nada contribuindo para a economia local, a fim de retornarem com umas economias que justificassem a sua ida para este fim do mundo. Outros aparentavam fazer um estágio de modo a regressarem com um novo estatuto de Chefes de qualquer coisa.

Timor Leste, com uma história de permanente lutas e desassossego, dividido em pequenos Reinos e Sucos chefiados por Liurais, chefes incontestados de povoações, que brigavam com os seus vizinhos por questões de propriedade, roubo de animais, pequenas questiúnculas que redundavam em confrontos sérios, só sanados após reuniões para regular as disputas. Ora muitos desses Liurais, dispersos pela Ilha, foram promovidos pela nossa administração, a Tenentes-Coronéis, Majores, Capitães e Sargentos, liderando um Exército de Segunda Linha, que exclusivamente regiam os Sucos e Reinos. Este exército foi formado como recompensa pela resistência dos Timorenses à ocupação Japonesa e ao apoio que deram aos metropolitanos que lá se encontravam. Nesta altura, esse Exército não passava de uma reminiscência desse passado mas que ainda servia os interesses das nossas Autoridades Coloniais, a braços com falta de militares e polícias.

Não admira que as populações vivessem num regime de economia de subsistência

Uma vez instalados na cidade, começámos por adaptar-nos às novas circunstâncias, investigando especialmente a zona comercial, os vários armazéns e lojas, todas elas pertencentes à comunidade chinesa, destacando-se o Sang Tai Hoo, onde a esposa se deslocava cortando caminho por terrenos bravios até à estrada de areia que a levava directamente às compras.

A esposa a caminho da zona comercial

A esposa a caminho da zona comercial

 

A chegada ao Sang Tai Hoo que com o Lai Saying, eram os mais importantes comerciantes da cidade.

A chegada ao Sang Tai Hoo que com o Lai Sai Ing, eram os mais importantes comerciantes da cidade.

Por meu lado, aparte a adaptação e integração nos serviços da Brigada de Portos, tive de resolver o problema da falta de água, mantendo o pessoal a bombear a mesma do subsolo para um tanque elevado, a uns metros da parte traseira da moradia. Esta água, imprópria para consumo directo, era fervida e posteriormente passada por dois filtros, acabando armazenada em bidões de diesel de 200 litros após o que era então utilizada para confeccionar a comida, lavagem de louças, lençóis, toalhas, roupas e fraldas. Estes cuidados permaneceram até deixar Timor e, inclusivamente, durante os levantamentos dos Pequenos Portos da costa norte, fiz-me acompanhar sempre por essa água tratada.

Outro problema era a falta de electricidade, suprida por candeiros petromax e lamparinas que atraíam os sempre aborrecidos insectos. Outra adaptação relacionava-se com o horário de trabalho na Ilha, que era da 7h00 da manhã à 13h00 da tarde, uma vez que na época das chuvas, Novembro a Março seguinte, a partir das 14h00, chovia a cântaros, com uma regularidade de relógio, tornando lamacentas e intransitáveis todas as estradas e ruas, não só da capital como as do interior. As águas das ribeiras atingiam níveis elevados descarregando furiosamente o seu caudal.

Tal como esta viatura, uma vez atravessei a Ribeira de Lacló, em Manatuto.

Tal como esta viatura, uma vez atravessei a Ribeira de Lacló, em Manatuto.

Esse horário único era vantajoso por permitir outros lazeres caseiros e inclusivamente acompanhar de certo modo os primeiros passos do nosso rebento, Rui Paulo. Todavia, o meu trabalho e estudos ocupavam-me grande parte da tarde como se poderá aperceber destes relatos. Para já, convém recordar que chegámos a Timor em Julho de 1961 e que, dois anos antes verificara-se, em Viqueque, uma autêntica rebelião contra o Governo da altura, reprimida violentamente pelas nossas autoridades o que causou várias centenas de mortos, dos quais só tive conhecimento “à posteriori”.

Em 1963, ao fazer a difícil travessia da Ribeira de Lacló, cruzei-me com o director da Empresa de Café, sediada na capital, e que ia a caminho desta. A tragédia ocorreu dias depois, durante o seu regresso pois despenhou-se num dos montes Subão, de uma altura de mais de 150 metros tendo tido morte instantânea. Soube dessa notícia através das comunicações rádio que fazia pelas 20h00 com a Capitania de Díli, que me solicitou a tarefa de recolher o corpo, indicando o sítio da queda.

Bastante incomodado com essa ideia, contactei pela rádio o topógrafo Conceição, das Obras Públicas, bom amigo, que sabia estar a operar na área, em estudo de traçado de estradas. Felizmente que se prontificou de imediato. Informei-o do local do acidente, combinando que eu iria com a lancha hidrográfica e iluminaria a falésia com o meu holofote de bordo. Foi uma tarefa complexa, pois realizou-se às escuras, tendo de aproximar a embarcação de uma linha de costa desconhecida, trabalhando com os motores, sempre atento para evitar que abalroasse contra alguma massa submersa.

Uma vez localizada a viatura, cuja capota despontava sobre um patamar rochoso, mantive o potente feixe de luz e fiquei a observar o percurso descendente do Conceição. Devidamente artilhado com o seu equipamento alpinista e uma maca, passou algum tempo a organizar-se após o que iniciou a tarefa penosa de subir com um peso extra, apoiado de cima por mais alguém. Fizemos marcha à ré assim que tudo terminou e rumámos para o nosso acampamento em Manatuto.

No dia seguinte, de madrugada, o Conceição apareceu e passou o dia comigo, a descrever emocionado os pormenores da tragédia e recolha. Emborcámos (emborcou) uma garrafa de whiskey para afogar o triste acontecimento e lá foi para o seu local de trabalho.

Recordo que em Outubro/Novembro deste ano de 1961, maus ventos tinham soprado da União Indiana, que exigia o retorno de Goa, Damão e Diu e que, ante a obstinação de Salazar, acabou por invadir e extinguir o antigo Estado da Índia, tal como aparece no meu B.I. vitalício, pois nasci em Ribandar, Goa. Mas nesse interim, todas os fins de tarde, deslocava-me à Messe dos Oficiais, situada a curta a distância da minha moradia, onde gerei grandes amigos, para ouvir a Emissora Nacional.

Mesmo ao virar da esquina de minha casa, vê-se a Messe dos Oficiais, no centro

Mesmo ao virar da esquina de minha casa, vê-se a Messe dos Oficiais, no centro

Claro que a atmosfera com que me deparei era de apreensão. Uma vez que a falta de notícias muito contribuía para uma certa ansiedade. Em conversa com o Major Dória, do Estado-Maior, prontifiquei-me em vasculhar as emissoras nacionais em língua inglesa que pudesse sintonizar e dactilografar curtos resumos, que logo de manhã eram recolhidos por um militar. Deste modo, com o meu rádio e mais outro, sintonizava diariamente várias estações tais como a Voz da America, Rádios Jacarta, Nova Delhi, Hong Kong e Darwin.

A invasão do nosso Estado da Índia deu-se em 18 de Dezembro de 1961. Passei a noite a varrer as bandas de rádios das redondezas e quando os noticiários revelaram, passados dias, que tudo tinha acabado e que as armas haviam silenciado, entreguei o resumo ao militar que aguardava num “jeep”, pois acabara de o dactilografar. Às 19h30, estava na Messe para ouvir a Emissora Nacional e qual não foi o meu espanto quando ouço a voz esganiçada e emocional do locutor a afirmar que as nossas forças resistiam e combatiam denodadamente o invasor. Os oficiais do Estado-Maior presentes olhavam para mim surpreendidos e eu fui abanando a cabeça, com aquele ar fúnebre de quem perdeu a terra de sua naturalidade, reafirmando: – Como está no meu despacho, a guerra acabou ontem à tarde… E este era o segundo noticiário da Emissora Nacional que pretendia o contrário. Enfim, fechara-se um capítulo da nossa História e a vida tinha de continuar.

Durante este ano a minha actividade profissional iniciou-se em força na Sala de Desenho e em trabalhos de campo, esto é, levantamentos de perfis de 300 metros, a prumo de sonda, guiados por um cabo de aço entrançado e marcado de 10 em 10 metros com cocos vazios para mantê-lo a flutuar, orientado a norte e esticado pela lancha “Pancho” de motor fora de bordo de 40 HP, eficazmente manobrado pelo nosso marinheiro-patrão, Bernardo. Foi um trabalho de rotina monótona, com poucas paragens a fim de aproveitar o mar chão, de maré cheia, que cobria os corais. Completei a faixa da costa desde o Farol até ao marco no extremo oeste, sobre umas águas límpidas que permitiam ver a barreira de corais em toda a sua magnitude e beleza.

Um momento de descanso, sempre necessário para poder prosseguir..

Um momento de descanso, sempre necessário para poder prosseguir..

Nas pausas, deambulava pela praia com um ar de turista, acompanhando a infindável fila de coqueiros, especialmente abundantes no extremo oeste da costa, todavia de turista não tinha nada pois por mais chato que fosse um trabalho, metia mãos à obra, de forma obstinada, naquela lógica de quanto mais empenhado mais depressa me livrava da tarefa.

Chegar a casa e pegar no filho...

Chegar a casa e pegar no filho…

Chegar a casa ao fim da jornada e pegar no filho era uma sensação que calava fundo. Onde quer que estivesse pensava nele com frequência, sabendo contudo que estava em boas mãos, sob os cuidados da mãe e da ama Virgínia. A partir de então eram só brincadeiras, a varanda era um óptimo espaço que ele percorria na sua mesinha de rodas, adequada ao seu desenvolvimento psíquico-motor. O Rui Paulo estava a crescer a olhos vistos, de um modo salutar pois felizmente nada lhe faltava.

Deanna posando para o álbum

Deanna posando para o álbum

A grande novidade na moradia foi o aparecimento, junto ao telhado, de um pequeno “tokê” de 3 cms no máximo, a espécie de bicho de estimação que toda a vizinhança se gabava de possuir. Passou a ser uma fixação detectá-lo todos os fins de tarde e acompanhar o seu crescimento, de mês para mês, a pontos de, já com um palmo de comprimento, atrever-se a descer pelo interior da varanda e aproximar-se lentamente da luz do “petromax” à volta do qual esvoaçavam insectos. Isto fez-me recordar a cena em Lahane, em que liquidei o enorme “tokê” do topógrafo Lemos, que mais parecia um pequeno jacaré a sair de uma brecha da parede. Compreendi então o desespero do meu colega, quando relatei esse episódio nos escritórios.

Uma lindeza este filho...

Uma lindeza este filho…

A varanda enorme era o ponto de reunião familiar, por vezes adicionada por visitas, em especial do Chefe da Brigada, Eng. Barbosa, que aparecia regularmente para bebermos uns whiskeys, conversar sobre o trabalho após o que prosseguia com sua habitual ronda por outras capelinhas, acabando na Messe onde jantava. Fotografias eram tiradas, para enviarmos aos familiares em Moçambique, com quem mantínhamos correspondência.

Mesinha de rodas, primeiras sensações psíquico-motoras...

Mesinha de rodas, primeiras sensações psíquico-motoras…

Para a posteridade fica a carinha angélica do meu filho Rui Paulo…

Quem não ficaria extasiado com esta criatura...!

Quem não ficaria extasiado com esta criatura…!

Neste ano, a nossa amizade com a família Machado, de quem éramos colegas de trabalho, tomou forma e permaneceu intacta até ao fim da nossa estadia em Timor. Organizaram-se piqueniques que foram cimentando a afeição entre as duas famílias.

Zé Quique, Deanna, Machado, filhas e esposa

Zé Quique, Deanna, Machado, filhas e esposa

Foram excursões agradáveis que tiveram o mérito de nos sentirmos em casa, onde as conversas giravam à volta das gentes da terra, mexericos, chamemos-lhe assim, que em boa verdade muito contribuíam para uma percepção da sociedade local.

Eu e família Machado

Eu e família Machado

Salutar era a convivência entre os mais novos, com relevo para as filhas do casal Machado, recatadas mas muito amorosas.

Momento de boa disposição

Momento de boa disposição

E também para os mais miúdos…

Filho do Machado e Zé Quique, onde a cor não conta mas sim a fominha, essa desalmada...

Filho do Machado e o Zé Quique, onde a cor não conta mas sim a fominha, essa desalmada…

E assim terminou este ano que antecedeu um 1962, um ano crucial, de intensa actividade de minha parte e peripécias que nem lembram ao diabo.

Finalmente, para se ver como o tempo voa, termino com uma foto do Rui Paulo e família:

E aqui está o resultado dos anos que voam: A "lindeza" de extasiar, o Rui Paulo, de óculos, a seguir ao irmão Cláudio Cesar, minha esposa Vivienne e minha nora Anja, tendo aos pés o meu neto Rui Nelson e, no carrinho, a adorável netinha Rachel, nas suas primeiras férias em Portugal em 2012, vindos do Dubai onde residem há anos.

E aqui está o resultado dos anos que voam: A “lindeza” de extasiar, o Rui Paulo, de óculos, a seguir ao irmão Cláudio Cesar, minha esposa Vivienne e minha nora Anja, ajoelhado o meu neto Rui Nelson e, no carrinho, a adorável nétinha Rachel, nas suas primeiras férias em Portugal, em 2012, vindos do Dubai onde residem há anos.

E, para actualizar, segue-se foto da família de Rui Paulo, tirada no Dubai, em 2013, meio século depois. Como o tempo passa…!

Rachel Layla, Rui Paulo, Luís Nelson e Anja Schwerin

Rachel Layla, Rui Paulo, Luís Nelson e Anja Schwerin

 

 

 

 

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