Os hoquistas ma’Bandidos – parte 2

Os protagonistas

Como referido na parte 1, o grupo era formado por Mim, o Alberto Carlos Moreira Ribeiro da Cunha (Moreirita), o António Luís Nunes Relvas de Assunção (Chambeta), o Edmundo Rodrigues Dias Costa (Moribundo) e o Edward Warne (Teddy). Não existia uma liderança, aliás era uma característica peculiar da maior parte da malta do Sindicato que bastava um avançar com uma ideia e todos iam a monte, actuando de imediato e sendo raras as desistências. Não se podia perder a face…

Morávamos todos relativamente perto uns dos outros, na parte alta da cidade, nos bairros da Maxaquene, da Carreira de Tiro e da Polana, tendo como centro nevrálgico, as instalações do SNECI onde, desde muito garotos, éramos frequentadores assíduos. Todo o equipamento desportivo existente no clube era considerado nosso, desde o rinque, os courts de ténis, os campos de basquetebol e de voleibol, em saibro, o ginásio ao ar livre, as esplanadas, junto ao bar dirigido pelo inesquecível Torre do Vale.

Diariamente na esplanada.

Diariamente na esplanada.

Outros dias nos espaldares...

Outros dias nos espaldares…

Como baratas infestámos as salas de jogo, as suas mesas de bilhar, ténis de mesa, matraquilhos e cartas, afugentando a geração anterior que não nos deixava usufruir dessas regalias. Bem tentaram impedir o nosso avanço mas éramos muitos e acabaram por desistir. Os saudosos Lima de Abreu e o velhote Beato, foram os que procuraram dar uma certa ordem àquela juventude mais que irrequieta, merecendo sempre o nosso respeito.

Planta da parte alta da cidade.

Planta da parte alta da cidade.

Toda a área para além da Rua de Nevala, era nossa conhecida, bem como o campo de golfe da Sommerschield. Desde crianças que descíamos a rua que ia dar ao Pavilhão Peters, a caminho da praia, fazendo incursões tanto de um lado como do outro, afim de colher alguns frutos, e isso à ida bem como à vinda. Quando no regresso cortávamos caminho para voltar a nossas casas, passávamos pela moradia do Frank Fernandes, onde se situava uma Escola de Equitação que, se bem me lembro, era dirigida tanto por ele como por sua esposa. Recordo-me de ter visto o proprietário aos tiros, tentando acertar nuns corvos que pairavam por aquelas bandas e, “en passant”, observávamos a escola a funcionar com adultos e jovens rapazes e raparigas, vestidos a rigor, de calças brancas de cavaleiro, de jaqueta e botas altas e as típicas protecções da cabeça, em cone, estas últimas todas a negro. Troteavam às voltas pelo cercado, muito empertigados e felizes com a aprendizagem. Os mais experientes saltavam sobre obstáculos.

Quando a ideia do safari surgiu, tendo metido mãos à obra, fomos cumprindo as metas da lista que tinha sido elaborada. Entretanto, apresentei um esboço do percurso, num papel vegetal, onde copiara de um atlas da época, os contornos da Rodésia do Sul e de Moçambique. Impossível hoje recordar-me dos detalhes do mesmo, mas sobram umas lembranças como o facto de o trajecto procurar evitar a reserva de caça do Kruger Park, seguindo o mais possível junto à costa, ultrapassando o Rio Incomáti em Vila Luisa, passando por Bilente Macia. A seguir tínhamos o Rio Limpopo, junto do Xai-Xai, donde seguiríamos para Inharrime, flectindo para Norte guiados pela bússola e passando ao largo de Inhambane em direcção a Vilanculos. Logo a seguir a esta vila, acabaríamos por atingir o Rio Save. Prosseguindo em direcção a Oeste, sempre pela sua margem direita, chegaríamos à fronteira da Rodésia, onde convergiam dois rios. Só tínhamos de continuar pela margem esquerda, que ela nos levaria à vila de Gwelo, a curta distância do destino final, a povoação de Que Que, onde residia a minha irmã Lurdes e o seu marido Douglas. Anos antes, entre a escola Primária e o Liceu, tinha passado umas férias neste local, a meio caminho entre Bulawaio (que visitei com o meu cunhado), e Salisbury, daí a ligeireza com que apontei para este destino.

De férias em Que Que, com o meu sobrinho Anthony (Tony) Roberts.

De férias em Que Que, Rodésia do Sul, com o meu sobrinho Anthony (Tony) Roberts.

Os meus colegas que perseguiam o meu dedo no mapa e ouviam as explicações que lhes dava acerca do percurso, não objectaram, aliás, permaneceram mudos como era de esperar. A confiança era total e nem a estimativa em linha recta de uns 1200 Kms, fez levantar qualquer sobrolho. Estávamos mesmerizados. Marcámos o dia D lá para os primeiros dias de Junho, quando tinham início as férias grandes de 3 meses e se por acaso palmilhássemos uns 10 a 15 Kms por dia, talvez ainda regressássemos a tempo do recomeço do novo ano lectivo… animávamos-nos com ar desprendido!

Tudo o mais passou a ser rotina diária, visitávamos a Escola de Equitação, insinuámos-nos junto do velhote africano que tratava dos cavalos, aprendíamos com ele a colocar as selas e os arreios. Cada um escolheu o seu cavalo aos quais levávamos cubos de açúcar e cenouras que muito apreciavam a pontos de, nos estábulos, se virarem para cada um de nós à espera dos nossos mimos. É incrível, mas ouvindo e observando os cavaleiros que por lá praticavam, ensinou-nos bastante sobre a arte de cavalgar, nós que nem sequer de burro tínhamos andado. Houve tardes em que montávamos os animais que cada um escolhera, dando voltas dentro da estrebaria, sob o olhar benigno do africano, surpreendido talvez pelo nosso empenho em aprender. Ou então adivinhou, pelo nosso aspecto, que não teríamos posses para pagar à Escola.

Por outro lado, reuníamos na casa do Assunção, onde passávamos horas a carregar cartuchos com zagalotes pois ele possuía todas as ferramentas para o efeito, desde balança sensível, pólvora e buchas, etc. O Chambeta, que teria acompanhado o pai nalgumas caçadas, não só era um apaixonado pela caçadeira calibre 12, como desmontava-a com destreza, limpando-a e oleando-a, todas as semanas. Felizmente que a mãe dele não era dada a vir espreitar, satisfeita talvez por ser a primeira vez que o filho passava em casa tantos dias seguidos. Ao final da tarde deixávamos tudo por detrás do grande roupeiro e o quarto ficava cuidadosamente arrumado.

Com o andar dos dias e semanas, fomos riscando os artigos listados, que ensacávamos nas mochilas. A meu ver e dos meus companheiros, tínhamos necessidade dos mesmos para não abortar a missão a meio caminho. O Moribundo afirmara-nos que conseguiria uma espingarda de calibre 30.06, absolutamente fundamental, para nos defender de predadores mais ousados e imprevistos. A arma era propriedade do pai ou de um irmão e que ele traria no dia D.

Espingarda calibre 30.06 do Edmundo

Espingarda calibre 30.06 do Edmundo

Grande surpresa foi-nos dada pelo Teddy Warne que apareceu com uma jaqueta tipo cow boy que confeccionara com pele de cabrito. Na altura ninguém se riu, ficava-lhe bem… além disso, trazia um chapéu bóer, de abas largas retorcidas como as do John Wayne, dizendo-nos que a única arma que possuía em casa era uma pistola colt 45, de guerra, e respectivo coldre.

Colt .45 do Teddy Warne

Colt .45 do Teddy Warne

O dia D aproximava-se e apesar de toda a nossa azáfama ainda nos sobrava tempo para treinar hóquei em patins, pois em fins de Maio realizar-se ia um torneio de Segundas Categorias, em que alguns de nós teríamos de participar.

A maior parte dos equipamentos, materiais e outros apetrechos tinham sido conseguidos, pois tivemos cerca de 2 meses para adquiri-los, quase todos nas nossas próprias casas. Outrossim, tendo feito parte da Milícia da Mocidade Portuguesa, obrigatória a partir de certa idade, estava enquadrado numa Companhia que recebia instrução militar, dada por oficiais do exército, no quartel da Rua Nevala. Foi nesta altura que conheci o Capitão Vasconcelos Porto, um discreto mas caloroso amigo que, cinco anos mais tarde, nos acompanhou como dirigente máximo do desporto de Moçambique, durante o Torneio de Montreux.

Emblema da Mocidade Portuguesa

Emblema da Mocidade Portuguesa

Ora este cenário era mesmo a sério, muito diferente dos “feijões-verdes” que se alinhavam todos os sábados no recinto do Liceu, sob ordens dos Chefes de Quina, comandantes de Castelo e um  comandante de Bandeira, a modos de “General” pomposo, cheio de cordões em arco que lhe caíam depois do ombro. Nunca fiz parte disto pois logo nos primeiros sábados, fazia tudo ao contrário, de propósito, de nada valendo os gritos daqueles “chefões” todos, a quem não passava cartão. O que me valeu, foi ser um aluno com notas muito elevadas e terem condescendido em dispensar-me, com a obrigação de estar presente. Sentava-me à sombra de uma das árvores, a fingir que afinava uns tambores de lata, cuja pele expunha aos raios de sol para esticar, quando deu-me para tocar “jazz” neles… A partir de então não me aborreceram mais!

1953 - Acampamento da Milícia da Mocidade Portuguesa. Por baixo da lona, estou eu de cigarro na boca e o Paraíso Pinto. Fora, à esquerda da foto, reconheço o Amaral Leitão

1952 – Acampamento da Milícia da Mocidade Portuguesa. Por baixo da lona, estou eu, de cigarro na boca e o Paraíso Pinto. Fora, à esquerda da foto, reconheço o Amaral Leitão.

Mas a Milícia foi uma experiência inolvidável, fomos tratados como recrutas, fardados com calças longas e polainas, correias e cintos bélicos adequados. Aprendemos a marchar sincronizados e a manusear a arma de um ombro para o outro. Desmontámos e montámos rapidamente as Lienfields e as Mausers em voga na altura e, inclusivamente, fomos transportados vária vezes para a carreira de tiro do Quartel de Boane onde fizemos fogo com essas armas, à distância de 200 e 400 metros. Recordo-me de termos desfilado até à Praça Mouzinho de Albuquerque, repleta de pessoas, ao som de tambores e cornetas, muito orgulhosos por estarmos a participar numa cerimónia importante, talvez a do Dia de Portugal. Marchámos como jovens guerreiros prontos para o sacrifício supremo…

Toda esta experiência levou-me a pensar que a arma de calibre 30.06 devia ser carregada ao ombro por mim, dado que não acreditava que o Edmundo fosse capaz de dar conta do recado. Contudo, faltavam ainda duas espingardas, as tais que retiraríamos do armeiro do SNECI.

A pré-instrução militar foi também acompanhada por um acampamento montado à beira do Rio Incomáti num parque situado junto ao monumento dedicado a uma batalha ganha por Mouzinho de Albuquerque contra a “cafraria”, numericamente superior, que surgia de todos os lados, quando foi formado o célebre “quadrado de Marracuene” que ficou para a história das nossas proezas coloniais.

Outra experiência espantosa ocorreu durante este acampamento. Depois da rotina diária e numa noite de luar, quatro de nós, entre eles, o Paraíso Pinto, que vive em Algés, onde fui tomar um café com ele há uns tempos, o Amaral Leitão seguramente, e talvez o Orlando Vieira, o Danilo Picolo ou o Da Naia Marques, não me recordo, fomos passear até ao rio. Ao darmos com um bote longo, preso a uma estaca, resolvemos ir até à outra margem, mesmo ali defronte. Com dois remos compridos, rumámos descontraídos para o nosso destino. O diabo surgiu a meio do caminho onde o caudal de água era fortíssimo e a embarcação passou a ser arrastada para a foz, a uma velocidade enorme. Alarmados por as luzes da vila começarem a diminuir e desaparecer, demos umas remadas vigorosas e fomos encalhar num banco de areia na margem oposta, com uma vegetação que do outro lado parecia mais baixa, mas que agora se apresentava como uma parede densa de arbustos, aqui e ali furada por enormes buracos redondos. Tudo isto terá demorado uns bons 15 minutos.

Ainda estávamos a tentar desencalhar o bote com os longos remos que se afundavam no leito do rio, quando nos apercebemos que dois hipopótamos tinham emergido com os olhos à tona da água, aí a uns 50 metros, possivelmente atraídos pela nossa presença, o que explicava as aberturas na vegetação.

Subitamente emergiram dois hipopótamos...

Subitamente emergiram dois hipopótamos, deixando-nos siderados…

Nem queiram saber o pânico que se apoderou de nós, pois encalhados daquele modo, estaríamos feitos ao bife, se porventura os animais se aproximassem. Com um remo espetado no banco de areia, a ser pressionado com firmeza e o outro a ser manuseado na forqueta, era tal a ansiedade, que restou aos demais, sentados nos bancos, remar afanosamente com as palmas das mãos. Felizmente que conseguimos sair daquele aperto inesperado.

Momentos depois iniciávamos o regresso, mais eufóricos e aliviados. Mas a coisa não ficou por aqui. Não sendo marinheiros, descobrimos que subir o rio, remando contra a corrente era um bico-de-obra sério, o bote rodopiava constantemente e, até aprendermos a ter a pá do remo parada na água e a outra a mover-se, foi um exercício complicado. Todavia conseguimos controlar a embarcação e após um esforço titânico e muito suor, em que nos revezávamos no trabalho, aportámos ao mesmo local donde tínhamos largado. A travessia inicial de 15 minutos redundou numa estirada de regresso de quase 2 horas, que nos deixou completamente arrasados. Entrámos no acampamento à socapa, direitinhos para as nossas macas e, sem fôlego para mais conversas, adormecemos de imediato, porque o toque de alvorada soaria às seis da manhã.

– Nota: – Tinha calculado terminar este artigo com esta parte 2, o que não consegui devido ao tempo que levei a desenhar as armas e mapa, bem como descobrir fotos adequadas ao texto. Contudo ela ajuda a explicar os antecedentes e o meu estado de espírito na altura. O final da história seguir-se-há em “Hoquistas ma’Bandidos – parte 3” que de um modo circular, nos conduzirá ao pesadelo descrito na Parte 1.

 

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One Response to Os hoquistas ma’Bandidos – parte 2

  1. Daniel Muralha says:

    Tal como sopa que vai apurando (“the plot thickens”)…
    Agora so faltava que no DIA D (ainda não li a parte final) chovesse em barda e… os cavalos ficassem “engripados”?

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