Os hoquistas ma’ Fantasmas

A Casa dos Fantasmas

Vista da moradia desabitada situada na Avenida 24 de Julho.

Vista da moradia desabitada situada na Avenida 24 de Julho.

Ouvi falar da pela primeira vez nesta casa, aí pelos anos 1950/51. Eu e o Tomás da Rocha Silva Santos, (Zito), estávamos sentados na esplanada de uma cantina da Avenida 24 de Julho, do lado esquerdo de quem vem da Polana, a refrescarmo-nos com umas Coca-Colas. Se bem me recordo regressáramos do Liceu, numa das raras tardes em que tínhamos tido aulas.

Para situar-nos, do outro lado da avenida, mesmo defronte de nós, desembocava a Rua dos Velhos Colonos, onde residiam os Soutos e o Bouçós. Quem saísse desta rua e virasse à direita, caminhando na direcção da Rua Princesa Patrício, até lá chegar, daria conta de quatro moradias, sendo a segunda, (casa 2), de estilo colonial antigo, bastante delapidada. A casa estava recuada por um jardim abandonado, cheio de capim, onde só se viam pedaços de tijolos, meio enterrados, que em tempos teriam delineado os canteiros. No terreno seguinte situava-se uma Igreja Protestante, (casa 3), cuja cerca de folhas de zinco onduladas de 2 metros de altura criava um corredor de areia estreito, que permitia o acesso ao anexo dos serviçais.

Quarteirão balizado pelas Avenidas Pinheiro Chagas e 24 de Julho e Ruas Princesa Patrício e Velhos Colonos

Quarteirão balizado pelas Avenidas Pinheiro Chagas e 24 de Julho e Ruas Princesa Patrício e Velhos Colonos

Prosseguindo, o Zito e eu conversávamos calmamente quando fomos surpreendidos por um magote de alunos do liceu, talvez uns quinze, que pararam de fronte da moradia colonial, a apontar para a casa, gesticulando ruidosamente. Foi então que ouvimos a expressão “Casa dos Fantasmas”.

Às tantas, um dos estudantes correu e galgou os degraus, dando um pontapé na porta dupla de entrada, seguido de outro e mais um outro até que eventualmente as portas cederam e se escancararam. Estupefactos, observámos como logo de seguida, entraram todos a monte no seu interior, gritando e saltando sobre o soalho de madeira, a pontapeá-lo como possessos. A cena do batuque durou uns escassos minutos o que deu tempo para que eu e o Zito nos aproximássemos. Era ver o magote, esbaforido e excitado, a sair com a mesma rapidez com que tinha entrado. Quando lhes perguntámos a razão daquela comoção, a resposta foi unânime:

– Então pá… é a Casa dos Fantasmas!

O Zito olhou para mim e entendemos-nos. Ficamos a aguardar que o tumulto serenasse e que os estudantes acabassem por debandar, o que sucedeu pouco tempo depois. Era altura de irmos investigar o interior da casa pois ambos não acreditávamos nessas patetices.

Planta da casa e localização da Igreja Protestante

Planta da casa e localização da Igreja Protestante

Uma vez lá dentro não deparámos com nada fora de vulgar. A moradia estava completamente vazia. Com excepção da sala de jantar e da cozinha nas traseiras, cujo chão comum era de telhas de granito por onde se espalhavam umas caixas de madeira e algum lixo, o soalho de todas outras divisões fora construído com tábuas de madeira de pinho, muito antigas. As paredes desbotadas mostravam bastantes rachas e as janelas pendiam por dentro com alguns vidros já estilhaçados. Algumas venezianas protectoras tinham sido perfuradas por inúmeras pedras atiradas da rua, sabe-se lá por quem. Todas portas que davam para o exterior, (porta 1 e porta 2), abrindo-se para a varanda, possuíam vitrais irregulares, de cores diferentes, semelhantes aos que vemos nas igrejas ou capelas, uns também partidos e outros a deixarem passar résteas de um arco-íris que davam um ar etéreo ao ambiente.

Depois de observar o quintal onde existia um anexo vazio, com cobertura de zinco, construído para acomodar os criados, eu e o Zito chegámos à conclusão que seria um local ideal para estabelecermos um “quartel-geral” da malta mais chegada, que poderia reunir-se para conversar ou jogar umas partidas de cartas. Assim sucedeu e antes de sairmos voltámos a fechar firmemente as portas da entrada que tinham sido escancaradas. Dias depois, pelas quatro horas da tarde, munidos de pacotes de velas, eu, o Zito, o Artur Vicente (Careca) e o seu irmão Arlindo (Alpino), instalámos-nos o mais confortavelmente possível, usando os caixotes como mesa e bancos, e da conversa passámos a uma “partida de sueca”, inconscientes que a nossa algazarra era ouvida lá fora.

Após uns dias nisto, durante as pausas, ao espreitarmos através das venezianas lá para fora, reparámos que as senhoras que vinham da Pastelaria Princesa, faziam um desvio para o passeio do meio a fim de evitar passar junto do portão da casa. Uma delas até se persignou, apressando o passo. Ríamos-nos e eventualmente ocorreu-nos a ideia de pregarmos um susto a vários dos nossos companheiros do SNECI a quem nunca reveláramos o nosso novo ponto de encontro.

Assim, depois dos treinos de hóquei, nós, os quatro pioneiros, sentados como era usual na esplanada junto do rinque, conversávamos de forma subtil sobre a estranha casa de fantasmas visando a atenção do Edmundo Costa (Moribundo), que se juntara a nós. O Costa, cuja alcunha, por si própria, poderia parecer elucidativa, era contudo um rapaz inteligente com o senão de ser muito lento nas suas decisões. Com um corpanzil entroncado, inofensivo que se farta, nunca estava quieto, ficava de pé a girar em torno de nós, sem perder pitada do que dizíamos.

– Fantasmas? Isso não existe! – Exclamou perentoriamente.

– Pois é… – disse um de nós – estivemos lá e não entrámos…

– Aquilo assusta mesmo! Disse outro.

– Onde é a casa? – Perguntou o Edmundo, curioso.

– Deves ter passado por ela quando vens do Liceu… é junto da Igreja Protestante…

– Essa? Sei qual é mas nunca vi nada de estranho… está desabitada!

Prosseguimos a conversa, inventando mais uns detalhes e acabamos por convencer o Edmundo a ir lá acompanhado por nós. Regozijámos quando ele, depois de circular pensativamente à nossa frente, decidiu que ia entrar dentro da casa. Ficou combinado que no dia seguinte, pela tardinha e ao escurecer, iríamos todos vê-lo afrontar os espíritos.

Percursos planeados para acessos à Casa dos Fantasmas.

Percursos planeados para acessos à Casa dos Fantasmas.

Ao chegarmos aos Velhos Colonos, o Zito despegou-se do grupo, (ponto 3), como programado e rumou por outra rua, entrando na casa pelas traseiras, antecipando-se à nossa chegada. Quando parámos no passeio, defronte do portão de ferro todo empenado, (ponto 5), o Edmundo mirou a fachada, entrou no jardim e avançou para os degraus de acesso à porta da frente, estacando subitamente ao ouvir um leve arranhar provocado por um pau que o Zito, lá dentro, fez correr de alto-a-baixo pelas venezianas.

– Ouviram? – Exclamou o Edmundo, recuando e virando-se para nós, alarmado.

– Não… – respondemos em uníssono.

Embora um tanto hesitante, para não perder a face, o Edmundo encheu-se de coragem e deu uns passos em frente mas desta vez, parou novamente e recuou, vindo juntar-se a nós no passeio. Da janela saíam baforadas de fumo que o Zito soprava depois de chupar dois cigarros ao mesmo tempo. Claro que o Costa perdeu toda a confiança nas suas crenças, resmungando que desistia de entrar dentro da casa. Fomos todos embora e o Zito acabou por se juntar ao grupo sem que o Edmundo tivesse notado a sua ausência. Envergonhado, a meditar na triste figura que tinha feito, fez-me companhia até à minha casa e antes de separar-nos, como era um bom amigo meu, tive pena dele e revelei-lhe que tudo tinha sido uma brincadeira da nossa parte.

– Sacanas! Eu bem dizia! – Exclamou, verdadeiramente aliviado – Não existem fantasmas…!

A bem da verdade, a partir de então,  passou a fazer parte do grupo dos gozões.

Entretanto …

Os dias foram passando e certa tarde, estando entretidos a jogar uma partida de cartas, reparámos a certa altura em algo esquisito que entrara pela porta das traseiras e flutuava junto do teto da sala de jantar onde nos encontrávamos. Parecendo que não, estar naquela casa que o povo considerava ser um poiso de fantasmas, era algo que permanecia nos nossos subconscientes. Claro que todos apanhámos um ligeiro susto, logo desfeito pela entrada lenta do António Souto a segurar um espanador de 3 metros, de limpar os tectos, seguido pelos sorridentes José Souto e Amadeu Bouçós que residiam na Rua dos Velhos Colonos.

– Afinal, é aqui que vocês fazem o ninho? – Atirou este último, com uma gargalhada, satisfeito, penso eu, por ter feito essa descoberta. Acho que eles já deviam andar desconfiados uma vez que, ultimamente, não éramos vistos no SNECI, com a frequência habitual.

– Ói! – Cumprimentámos nós, já recuperados do incidente – vieram para uma “suecada”?

Sorriram, mas cheios de curiosidade, foram inspecionar toda a casa, após o que vieram juntar-se a nós. Ficamos a conversar animadamente até anoitecer, pondo-os ao para das nossas diatribes.

Agora susto para valer, foi o que sucedeu pouco tempo depois. Como mencionei atrás, reunir numa moradia onde supostamente vagueavam umas “alminhas” tem as suas consequências. Como mencionei atrás, o subconsciente por vezes prega partidas, independentemente das nossas convicções.

Já tinha anoitecido e estávamos concentrados numa partida de “king”, à luz das velas, quando ouvimos um tilintar ritmado e em crescendo – tling!… tling!… tling!… – que subitamente parou junto da porta (2) que dava para a varanda. Levantei a cabeça e o meu ar aterrado fez com que os outros olhassem também.

Instalou-se o pânico, tínhamos visto uma caratonha preta, com uns olhos enormes, metida no buraco onde o vitral já não existia, por se ter quebrado. Era um criado que, ao encurtar caminho depois das compras que teria feito, regressava pela varanda, fazendo chocalhar uns apliques de suporte ao toldo, existentes ao longo da parede…

O que sucedeu, só visto! Ao darmos com aquela cabeça ali emoldurada, que variava de forma e tom à luz das velas, todos sem excepção, desatámos a correr uns atrás dos outros, pela casa fora, de quarto para quarto, sem eira nem beira, a fechar as portas por detrás de nós (ainda hoje estou para compreender porque fizéramos isso), até que a realidade prevaleceu ao ouvirmos um berro do Tomás da Rocha Silva Santos, (Zito). Tinha acabado de perder a ponta de um dedo, quando o que ia à frente dele lhe fechou a porta nas trombas. Tudo sucedeu num curto espaço de tempo, pois se éramos rápidos a patinar, correr naquelas circunstâncias até parecia que tínhamos asas nos pés.

O acidente teve o condão de acalmar as hostes e fomos rapidamente à procura da cabeça que nos assustara. Ainda demos com o mufana na varanda, que confrontámos. Assustado pelas nossas expressões sérias, justificou-se que espreitara para ver quem estava lá dentro, após o que se afastou rapidamente.

Ainda ficamos um certo tempo a rirmos de todo o incidente, exceptuando o Zito, que ainda não se refizera da dor causada, e que mantinha o dedo embrulhado num lenço. Ao regressarmos a nossas casas, tomei consciência da razão porque era proibido e deveras penalizado, gritar-se “fogo” dentro dum cinema…!

Mas o episódio com mais graça, sucedeu com o Cernadas, (Mussolini), um amigo muito excêntrico que clamou em voz bem alta, na sala de bilhares do SNECI, na presença de alguns adultos, que o ouviram intrigados, que éramos uns mariconços que acreditavam nessas parvoíces e que ele iria demonstrar o que era ser homem.

No dia seguinte marchámos todos, com ele à cabeça, de peito feito. De rir foi quando ouviu um uivar sofisticado que o Arlindo tinha desenvolvido. Ficou parado no passeio uns instantes mas decidiu-se finalmente a avançar e em vez de ir para a porta da frente que estava fechada, foi pelo corredor lateral que dava para as traseiras. Vendo isso, eu que estava também lá dentro, ao calcular que ele passava no sítio certo, corri e dei um pontapé na janela (2) que se abriu com um estrondo enorme. Quando olhei através das venezianas da outra (janela 1), já o Mussolini estava no passeio, de braços no ar, a gritar para quem quisesse ouvir:

– Que é aquilo? Chamem a polícia! – Exclamou, e mais espavorido ficou quando reparou nas pontas incandescentes dos dois cigarros que o Zito sincronizava de modo a parecerem dois olhos a espreitarem por detrás das venezianas – Esta casa precisa de ser bombardeada!

Mas isto não ficou por aqui. Durante um par de meses fomos induzindo vários não crentes a fazerem valer a sua coragem, desafiando-os a entrar naquela casa. Aos poucos e poucos, uma dezena dos nossos companheiros passaram pela experiência e todos eles ficaram a saber do segredo e, desse modo, a história da Casa dos Fantasmas alastrou-se e passou a ser motivo diário de conversa entre a malta do SNECI que visava outros alvos que, como esperávamos, punham em dúvida o que contávamos e estavam predispostos a irem pessoalmente tirar “nabos da púcara”.

Era o que nos interessava, um grupo de uma dezena de vítimas, para apreciarmos de uma assentada, o efeito que causaria. Aliás, já tínhamos concordado que estas brincadeiras teriam de ter um fim, pois estávamos a ficar fartos das repetições. Seria a última vez. Agendámos a ida para o dia seguinte, ao entardecer, e saímos do SNECI, formando uma fila que marchou com um pé na estrada e outro sobre o lancil, (não sei quem teve esta ideia), a assobiar a marcha do River Kwai, ante a curiosidade das pessoas com que nos cruzávamos. Um problema surgiu perto dos Velhos Colonos quando um dos descrentes se colocou na cauda da fila, impedindo que qualquer de nós se esgueirasse (no ponto 3) e corresse para se instalar dentro da casa e preparar os “sustos”. Sem outra alternativa lá fomos todos parar defronte do passeio (5).

Após a esperada análise da casa que era sempre feita por aqueles a quem competia desafiar as “alminhas”, os elementos corajosos da frente da fila avançaram resolutamente pelo corredor que dava para as traseiras, pois fora-lhes sugerido que era por ali que se entrava. Eu e mais quatro deixámo-nos ficar para trás e eis senão que o Arlindo, pegando num meio tijolo, atirou-o num arco por cima de todos e que foi cair no telhado de zinco do anexo dos criados provocando um estrondo ensurdecedor. Apanhada no corredor e não podendo recuar, a fila da frente desapareceu instantaneamente como se tivesse sido volatilizada por uma granada. Tinham saltado a cerca de zinco ondulado de 2 metros de altura, para dentro do quintal da Igreja. A cauda, formada pelo Arlindo, o Artur, o Edmundo e o Moreira, recuou até que eu, que era o último, parei ao sentir uma pressão na coluna. Olhei para trás e dei com um sipai a segurar uma espingarda contra as minhas costas…!

Subitamente, apareceu um polícia branco, à paisana, de pistola na mão, com um ar irado a ordenar-nos que fôssemos para o passeio, enquanto ia dar uma vista de olhos pelas traseiras a ver se apanhava mais algum. Como tinha estado lá dentro a fazer uma espera, deveria saber que éramos muitos e parecia confuso por não ter encontrado mais nenhum. Nem sequer reparou que o Arlindo se escapulira sorrateiramente. Nós quatro ainda combinámos, sussurrando, desatar a correr cada um para o seu lado, não acreditando que o sipai tivesse a coragem de disparar. Mas essa ideia caiu por terra quando o polícia, ainda de pistola na mão, regressou e mandou-nos para o passeio do meio, comandando-nos em direcção à esquadra da Polana, muito para lá do Liceu, um posto policial de que nunca tinha ouvido falar, situado na Avenida António Enes. Fazíamos uma figura triste, com as pessoas a observarem com ar surpreendido a fila encabeçada pelo polícia branco, de bacamarte agora metido no cinto e o sipai que nos seguia de espingarda em riste.

Uma vez na Esquadra, numa sala onde existiam várias secretárias com um par de polícias de plantão, fizeram-nos esvaziar os bolsos e tirar os relógios e os cintos (acho que era para evitar suicídios ou para nos humilhar), após o que nos enfiaram e trancaram num espaço contíguo onde só havia uns bancos de madeira. Sentámos-nos, menos o Edmundo que começou a dar voltas à nossa frente, agarrado às calças. A separar-nos dos policiais, existia uma grade de varões de ferro, tipo jaula do Zoo, que permitia ver a actividade do outro lado. Os agentes de serviço não nos passavam cartão, entretidos a ver e a ler tudo que estava nas nossas carteiras e até tiveram o desplante de fumar dos nossos maços de cigarros, sem pedir autorização. Pareceu-me que escreveram os nossos nomes nos autos da ocorrência.

A emboscada que nos fizeram devia ter ocorrido por volta das 8 horas da noite e seriam talvez umas 9 horas quando demos entrada na cela. Do banco consegui ver no relógio da Recepção que marcava 1 hora da manhã do dia seguinte, Foi nesta altura que regressou o polícia do bacamarte, acompanhado pelo Chefe da Esquadra, que olhando para nós de relance, fez soar a sua voz atemorizadora.

– Então, estes é que são os fantasmas? – Exclamou, debruçando-se de seguida sobre uma secretária, numa troca de impressões com o agente que espiolhava os nossos haveres. Como na altura nenhum de nós possuía bilhetes de identidade, analisaram os documentos escolares e os cartões de jogadores de hóquei em patins, que trazíamos sempre connosco.

O Chefe mandou um guarda destrancar-nos e fazer-nos alinhar defronte dele, numa situação assaz desconfortável pois tínhamos de segurar as calças, não fossem elas escorregar pelas pernas abaixo.

– Com que então são vocês que andam a assustar a população? – Perguntou, olhando para mim com cara de mau, talvez por ser o mais alto de todos.

– Nem por sombras, sr. Chefe… – Respondi com um ar o mais ingénuo possível – disseram-nos que havia uma Casa de Fantasmas e fomos lá ver se era verdade…

– Se não são os fantasmas? Então quem eram os outros… vocês eram muitos mais!

– É verdade, sr. Chefe… – Continuei na mesma tónica, mentindo descaradamente – Vimos uma fila deles que caminhavam pela Avenida Pinheiro Chagas a dizer que iam acabar de vez com os Fantasmas. Curiosos, juntámo-nos à cauda porque até nem sabíamos onde era…

– E quem são eles? – Insistiu o Chefe, já menos agressivo.

– Era malta de outro bairro com quem não convivemos…

– Não viram para onde foram?

– Não… Eles iam à nossa frente, pelo corredor, a caminho das traseiras quando ouvimos um estrondo enorme. – Continuei a dar uma informação que os policiais que nos apreenderam podiam corroborar – Nós assustámos-nos e recuámos para regressar ao passeio mas fomos travados pelos seus agentes.

– E os outros desapareceram assim sem mais nem menos? Não há por lá um esconderijo?

– Enquanto recuávamos, olhámos para corredor e, de repente, não vimos ninguém…

– Voaram não é? – Exclamou o Chefe com um ar irónico.

– Já que menciona isso, sr. Chefe, o estrondo ouvido foi ensurdecedor e o susto e o medo que se apoderam deles devem ter sido do caraças, dando-lhes asas para saltarem por cima da vedação de zinco e escaparem pelos jardins da Igreja… é o que penso!

Finalmente convencido, o Chefe retirou-se e depois de umas palavras trocadas com o tal de bacamarte e entregaram-nos os nossos pertences. Ainda ficamos um par de horas a conversar com os polícias de plantão que nos apontaram um mapa da cidade, pendurado na parede, onde a famosa Casa dos Fantasmas estava assinalada com um círculo vermelho. A verdade é que só tinha fama e nenhum proveito, a não ser aquele que proporcionámos a uns tantos amigos. Ouvimos dos agentes, agora mais descontraídos, a seguinte história que corria há largos anos:

– A casa fora habitada por um casal de idade e quando a mulher faleceu, o marido, inconsolável, não querendo separar-se dela, levantou umas tábuas num dos quartos e enterrou-a com uma mortalha, dentro de alguma receptáculo que improvisou como caixão. Eventualmente o velhote também morreu e os vizinhos estranharam o desaparecimento da mulher. Acho que os soalhos devem ter sido levantados e o corpo encontrado. Daí que ninguém mais comprou ou alugou a moradia que acabou por nunca mais ser habitada, deteriorando-se com o andar dos tempos, até ficar com aquele aspecto fantasmagórico.

Quando saímos pelas 4 horas da manhã, fomos dar com o Arlindo sentado num muro fronteiro à Esquadra. Tinha-nos seguido discretamente, provavelmente para se aquilatar se não ficaríamos por lá encarcerados.

Nota de Rodapé. – Estes meus companheiros, ainda vivos hoje, em 2013, com excepção do saudoso António Souto, matarão saudades destes tempos de grande criatividade por parte dos atletas do SNECI, que encontravam sempre maneira de se divertir de forma inédita e inofensiva. Era essa uma particularidade que ainda hoje perdura e se reflecte nos almoços mensais, em que a matéria de conversa tende sempre para lembranças deste tipo.

E quanto ao Empreendedorismo, palavra muito em voga nestes dias, o artigo que se seguirá aqui no Da Cartola, tem o sugestivo nome de “Hoquistas ma’Bandidos”. Será o relato uma aventura incrível que ainda hoje não percebo como foi possível ter sido congeminada. Reconheço que factores e problemas pessoais tiveram uma grande influência na ideia estapafúrdia que se apoderou de nós.

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2 Responses to Os hoquistas ma’ Fantasmas

  1. Armando Cabral de Almeida says:

    Caro Chico,

    Obrigado por relembrares uma das muitas passagens ocorridas com a malta do SNECI.
    De facto tivemos momentos espectaculares que ainda, tantos anos depois, nos fazem
    sorrir e pensar donde vinha tanta imaginação

    Abraçâo

  2. Velasco says:

    Thanks for the comment, Willie.

    De facto, divirto-me a relembrar estas historietas. De um modo geral elas reflectem o espírito endiabrado que tipificavam a malta. Espera pelo “Os hoquistas ma’Bandidos” para veres até que pontos andávamos um tanto enfadados com a pasmaceira em que vivíamos. Um semana e será publicado como sequência da “Casa dos Fantasmas”, até porque envolve praticamente o mesmo pessoal.

    Abraço

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