Os Guarda-redes e os cegos…

Diogo Vieira, um atleta de 10 anos e o vasto mundo que terá de defender durante mais um ou dois anos!

Basta reparar…

Apanhando a boleia do artigo anterior e uma vez que existe uma polémica sobre este lugar, achei por bem vir a terreiro e expor algo inquietante que passou despercebido mas que todavia tem estado à vista de todos nós. E é inquietante não reparar quando se vê… daí os cegos.

Não é a primeira vez que abordo este tema mas nunca o desenvolvi de uma forma definitiva. Fá-lo-ei neste caso, englobando não só os guarda-redes como os jogadores de campo realçando porém que me refiro aos atletas jovens, abaixo do escalão Sub-15, os pequenotes, com idades inferiores a 12 anos e que praticam hóquei pelo menos há 5 anos.

Cinco anos é uma longa caminhada para corpos em pleno desenvolvimento, muitos deles franzinos. É uma enorme carga que podia muito bem ser eliminada se porventura levássemos verdadeiramente a sério, a formação desportiva destes jovens iniciados. O que é admirável é que existem hoje treinadores qualificados, competentes na maioria dos casos, que deixem passar o que está patente no dia-a-dia das suas funções. Será que pensaram no assunto, será que seminários foram organizados, ou algumas propostas avançadas?

Descreverei o que observo, começando pela posição mais infeliz de todas:

 O que está errado:

 O Guarda Redes

Guarda-redes jovem agachado

Guarda-redes adulto, agachado

 

 

 

 

1. O jovem tem à sua guarda uma baliza sénior, com uma largura de 1,70 m e uma altura de 1,05 m que lhe deixa uma área descoberta exagerada para a sua estatura, como é evidente na fotografia acima. Quem não repara nisto, aconselharia uma visita a um oftalmologista!

O Jogador de Campo

1. Geralmente usa botas e chassis números acima por razões económicas, um peso extra, dispensável.

2. Empunha um setique sénior, com comprimento de 115 cms, e um peso de 500 gramas, definindo um triângulo agudo cuja base projecta o vértice que corresponde ao esférico, muito para além do que seria aconselhável para o seu domínio.

Pequeno atleta e uma bola demasiado afastada

3. Procura manusear uma bola que pesa 155 gramas, com um perímetro de 23 cms.

4. Está obrigado a percorrer uma pista com as dimensões normais de 40 x 20 metros, ladeada por uma tabela e corrimão de 100 cms de altura, à medida dos seniores, atletas já fisicamente bem constituídos.

Como solucionar estas anomalias:

O Guarda Redes

 

Silhueta sénior em baliza normal

Silhueta júnior em baliza reduzida

 

 

 

 

1. Passar a ter à sua guarda uma baliza menor, com uma largura de 1,36 m e uma altura de 0,84 m que lhe deixe uma área descoberta proporcional à dos adultos, como é documentado pelas fotografias.

 O Jogador de Campo

1. Passar a usar botas e chassis com números adequados aos pés, eliminando o peso extra. Manter as botas e patins em bom estado, resguardando-as da água dos balneários, a fim de poderem revendê-los com uma certa desvalorização, assim que necessitem números maiores. Estou seguro que os pais de novos aderentes não desdenhariam adquirir esse material mais barato, se bem conservado.

2. Passar a empunhar um setique proporcional à sua estatura, com comprimento de 92 cm, e um peso aproximado de 400 gramas, que aproxime a bola dos seus patins.

Livramento e o triângulo equilátero ideal

3. Poder manusear uma bola que pese 124 gramas, com um perímetro de 18,4 cms

4. Permitir-lhe percorrer uma pista com as dimensões de 32 x 16 metros, definida por uma tabela com um corrimão de 80 cms de altura, apropriada para as suas idades. Este conjunto de elementos poderá ser amovível e colocado no meio de um rinque normal, quer armado peça a peça, quer inteiro, por meio de um sistema elevatório, mecânico ou eléctrico, acoplado às vigas das asnas. Para esse efeito, um design poderia ser arquitectado, tendo em mente materiais resistentes e leves, pois as modernas tecnologias de construção assim o permitem.

 Conclusões

Não há dúvida que uma carga excessiva tem sido imposta aos escalões etários inferiores a 12 anos, obrigando-os a um esforço desproporcionado durante um longo período de tempo. Claro que este estado de coisas não foi deliberado, resultando unicamente do facto de os equipamentos terem sido construídos tendo em vista gente graúda. Contudo deveríamos reflectir sobre esta questão.

As dimensões que avancei e que achei apropriadas, derivam de uma redução de 80% dos valores referentes aos adultos, aplicada às medidas da pista, altura média dos praticantes, comprimento dos aléus e peso das bolas.

Esta redução generalizada de todos os factores mencionados, teria como consequência o seguinte:

Um manuseamento mais natural do setique e bola.

Seticadas facilitadas pelo menor peso da bola.

Deslocações mais curtas e rápidas sobre a pista.

Em suma, criar-se-ia uma dinâmica de jogo muito mais animada e estimulante, não só para os jovens praticantes, como para os espectadores. Como os esforços foram aligeirados, poder-se-ia aumentar os tempos regulamentados para estes escalões Sub-12, permitindo mais tempo de jogo a cada um dos 10 jogadores que compõem as respectivas equipas.

Em tempo:

Tentando recordar os meus primeiros passos na prática do hóquei em patins, poucas lembranças mantenho dos primeiros anos. Sei que aos 13 de idade já fazia parte das equipas de juniores do SNECI, quando o setique utilizado era o de seniores. Antes disso, vagas imagens ocorrem em que me vejo a empunhar um setique de hóquei em campo, pequeno, cuja face abaulada tinha sido eliminada por uma plaina.

Foi um período curto em que tanto brincávamos ao hóquei calçando patins, como organizávamos jogos na rua, usando as usuais sapatilhas. E os aléos eram aqueles que conseguíamos improvisar, tal como um companheiro (o Bouçós) que se entretinha com o cabo encurvado de uma sombrinha. Se isto foi bom ou mau, tornou-se indiferente na medida em demonstrava um entusiasmo precoce da miudagem de então.

 

 

 

 

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