Itália 1982/83 – Hockey Club Monza Pompe Vergani – 3

Autocolante publicitário

De correspondência e recortes arquivados

– Transcrição de “Il Cittadino”, de 16 de Setembro de 1982:

« … Velasco un antimago (anti-vedeta).

«Dal 31 agosto al 5 settembre è stato a Roma, como docente ad un corso di allenatori, scelto (escolhido) dalla Federazione portoghese. Un pedigree da purosangue autentico, dunque, ma anche un sorriso aperto, un carattere sereno e gioviale, una più che apprezzabile conoscenza (um mais que apreciável conhecimentodella nostra língua sono il biglietto da visita dal nuovo venuto. Monza gli piace (agrada), è una città tranquila dove si è súbito ambientato, la squadra (già conosciuta nella fase finale della Coppa CERS) lo soddisfa (lhe satisfaz) qualitativamente anche se, sono parole sue, há bisogno (necessidade) di lavorare molto.

«Velasco si occuperà anche del settore giovanile (ce n’è davvero bisogno) e sara quindi (portanto) allenatore a tempo pieno (inteiro), autentico professionista (profissional). Sono bastati i primi due allenamenti per farlo conoscere, nei metodi (bastaram os dois primeiros treinos para dar a conhecer os seus métodos), a tutti i nostri giocatori, schiene rotte (costas doridas), o quasi, ma anche ammirazione sincera e fiducia (confiança)  nell’huomo. Di questo pure c’era bisogno nel clan biancorosso.

«Un anti-mago, per concludere, sprovvisto (desprovido) di filtri o di parole miracolose, ma ricco di esperienza, di conoscenza técnica e di vera serietà: questo il personaggio Velasco»

Neste capítulo, não vou relatar os acontecimentos de uma época inteira mas fazer um registo de algumas das acções concretas, por mim levadas a cabo, como o primeiro técnico estrangeiro a ser contratado para actuar em Itália, a tempo inteiro.

Ora, a revelação dessas acções, transcritas de documentos ou recortes arquivados na língua original, se bem que compreensíveis, serão em parte traduzidos (em itálico) para uma melhor clarificação e pretendem simplesmente dar uma ideia das minhas intervenções e do envolvimento sério com que encarava a missão de treinador que sempre acreditei ser algo mais do que a simples preparação de equipas. Um impulso natural irresistível levava-me a ser pró-activo na contribuição para o desenvolvimento da modalidade, actuando por alta recreação nos seus variados vectores, mas sempre dentro dos limites das funções que esperavam de mim.

Como mencionado na parte 1, ao chegar a Itália no dia 26 de Agosto, entregaram-me um cartão de “Dirigente” para efeitos da burocracia necessária à minha inserção como treinador contratado a fim de actuar no país. Informaram-me também, que só poderia exercer essas funções depois de frequentar um curso em Roma, já agendado pela Federação Italiana para o dia 31 de Agosto. Assim, 4 dias depois de ter desembarcado em terra italiana, apresentava-me famosa Scuola dello Sport em Acqua Acetosa, do Comité Olímpico Nacional Italiano.

Brochura do Curso

Tudo muito apertado, mas mesmo assim reuni com o Director Desportivo Luigi Fedeli e Walter Albertarelli, o preparador físico, especialista em atletismo, que se estreava nestas andanças do hóquei em patins. A empatia foi imediata e este terceto manteve-se leal e ligado por forte amizade muito para além da minha estadia em Itália. Num par de dias, programámos todas as sessões de preparação que teriam início no dia 4 de Setembro, as duas primeiras comigo ausente, uma vez que só regressei de Roma no dia 6.

Ao contrário do que veio na imprensa mais tarde, que se referiu a dois meses de preparação, como se pode ler abaixo, uma espécie de justificação em face dos fracos resultados iniciais da 1ª volta, o facto é que só tive quatro semanas de pré-época e somente 12 treinos, até ao primeiro jogo que se realizou no dia 2 de Outubro.

– Transcrição de “Il Giornale”, de 6 de Novembro de 1982:

«Il Pompe Vergani si è affidato alla guida (confiou na liderança) de Velasco, tecnico de indiscussa (indiscutível) capacità, che si è messo (meteu) al lavoro con impegno e serietà, ma solo due mesi de preparazione non sono bastati (não bastaram)  per impostare (formar) una squadra.»

Parti para Roma sem saber como se processaria o curso. À chegada, fui surpreendido com o respectivo programa já impresso pela Federação Italiana, intitulado Corso Didattico di Specializzazione, categorias Allenatori (Treinadores) Allievi Allenatori (Alunos Treinadores)ficando de fora a categoria Aspiranti Allievi Allenatori (Aspirantes a Alunos Treinadores), onde estava claro que seria eu a ministrá-lo no respeitante à prática específica da modalidade. Um tanto atordoado com a novidade, não me desmanchei perante o funcionário destacado pela FIHP para me acompanhar, cujo nome infelizmente não consigo descobrir nas minhas notas e que esteve sempre ao meu lado durante a minha permanência no Centro. Pelo contrário, correndo contra o tempo, sentámo-nos nessa mesma tarde e planeei os meus conteúdos de forma progressiva, de acordo com os horários estabelecidos. As 17 horas que me couberam, correspondente a metade do total do curso, requeria uma metodologia de apresentação, não fosse acabar por me perder a meio caminho.

Programa do Curso

Foi fácil racionalizar a matéria que iria expor, pois ainda mantinha vívida a lembrança do pequeno e modesto livro que manuscrevera em Paço de Arcos, mais tarde publicado e lançado durante o Campeonato do Mundo em Barcelos.

Todavia, inesperado foi ter de enfrentar um auditório com 29 treinadores e alguns candidatos a essas funções, inscritos no curso, obrigados a tirá-lo ou a reciclarem-se pelos regulamentos da Federação Italiana, nestes aspectos mais avançada que a nossa em Portugal. Mais enervante se tornou por estarem sempre presentes, na primeira fila do anfiteatro, os docentes da Scuola dello Sport, especialistas das várias disciplinas. Só quem passou por isto é que poderá avaliar o nervosismo que se apodera de uma pessoa, estar ali de pé, publicamente, a ter de mostrar o que valia.

Para memória futura, registo os nomes dos participantes:

– Cursistas: Gamba Giorgio – Lazzarini Maurizio – Marozin Imerio – Altavilla Mariano – Frasca Francesco – Garzia Roberto – Salmaso Martino – Consolaro Alessandro –  Simonetti Mario – Casagrande Bruno – De Gerone Luigi – Luccetti Franco – Innocenti Giovanni – Bertani Olimpo – Cerato Aronne – Francesconi Gherardo – Bandieri Paolo – Baffelli Giacomo – Della Latta Marcello – Semnatore Luigi – Bigiarini Mario – Delfino Bruno – Bernardini Roberto – Masala Giovanni – Dini Fortunato – Porcino Gaetano – Sternieri Elio – Vigolo Bruno – Cavalcanmti Mario.

– Corpo Docente: P. Giunta (Preatletismo) – S. Lupo (Anatomia funzionale– B. Rossi (Psicologia) – F. Merni (Metodologia allenamento sportivo) e Tiezzi Bruno (FIHP), presidente do Gruppo Allenatori.

Não descreverei os conteúdos das minhas intervenções, a não ser o seguinte à parte:

Depois de cumprimentar os presentes e pedir desculpas pelo que passei a chamar de meu “portuliano”, virei-me para o quadro de parede, escondendo o nervosismo, e desenhei um círculo onde fui assinalando os processos bioquímicos que se verificam no interior da célula, a unidade básica da vida. Mostrei o seu citoplasma contendo o núcleo, os organelos e outros componentes, com realce para as mitocondrias, as fornalhas onde se verificam combustões fornecedoras de energia, via absorção de oxigénio e libertação do anidrido carbónico e da água que em parte é expulsa e em parte se fixa no organismo.

Divaguei sobre a Fonte Directa de energia, a reserva limitada de Ácido Adenosino Trifosfórico (A.T.P.) existente nas fibras musculares, o qual, ao cindir-se em Difosórico (A.D.P.) e Fósforo, liberta energia para a contracção muscular.

Sobre as Fontes Indirectas, descrevi a Fonte Aeróbia, necessária para a ressíntese do A.T.P., utilizando a energia que se liberta da combustão de Glicose e Ácidos Gordos provenientes dos Hidratos de Carbono (açucares) e dos Lípidos (gorduras) contidos nos alimentos e que requerem Oxigénio para provocar uma combustão. A Glicose contida nos alimentos é assimilada e transportada pelo sangue para o fígado e para as fibras musculares, depositando-se sob a forma de uma reserva de Glicogénio Hepático que pode ser usado por qualquer músculo e uma de Glicogénio Muscular que só pode ser utilizado localmente.

Mencionei a Fonte Anaeróbia Láctica ou Glicolítica, quando o Oxigénio é insuficiente para “queimar” todo o Ácido Pirúvico que se acumula o que rapidamente levaria à paragem da reacção que lhe deu origem. Esse excesso de Ácido Pirúvico formado é escoado pelo aparecimento de Ácido Láctico, um produto resultado da reacção do Ácido Pirúvico com o Hidrogénio resultante também da reacção anterior. Quanto maior for a quantidade de Ácido Láctico acumulado no sangue, maior foi o trabalho fornecido por este processo, denominado Capacidade ou Rendimento Glicolítico. Como é notório, respiramos profundamente depois de um grande esforço até que a Dívida de Oxigénio debitada seja paga e o Ácido Láctico desapareça. O excesso de Oxigénio absorvido depois do esforço reagirá com o Ácido Láctico, regenerando o Pirúvico.

Terminei com a Fonte Anaeróbia Aláctica. Em casos de esforços intensos e curtos, os músculos possuem pequenas reservas de Criatina Fosfato, denominada Fosfogénio ou Fosfocriatina, uma substância capaz de fornecer energia para a ressíntese do A.T.P. Estas reservas são escassas só assegurando trabalhos de curta duração. A dívida de Oxigénio acumulada neste processo designa-se por Dívida Aláctica para a diferenciar da Láctica.

Após esta dissertação, já liberto do meu nervosismo, dirigi-me aos cursistas, lembrando-lhes que estes fenómenos bioquímicos que ocorrem nos organismos dos atletas, requerem amplo entendimento por parte dos treinadores. Estes devem levá-los em linha de conta, baseando a preparação dos mesmos, em sessões de treino em que as cargas de trabalho devem ser planeadas com minúcia e devidamente registadas e controladas, utilizando-se todos os métodos possíveis.

Olhando para todos os presentes, agora mais descontraído, informei-os que não falaria mais desta matéria, realçando contudo que o conhecimento dela deveria constituir a bagagem de todos os treinadores, via cursos ou aquisição de manuais dedicados às várias disciplinas. Por fim, dirigindo-me aos sentados na primeira fila, prossegui, notando que estavam ali os especialistas que saberiam expor com mais sabedoria e experiência, tudo quanto tinha acabado de descrever de modo sucinto. (Esta foi uma maneira airosa de demonstrar que os meus conhecimentos não se resumiam ao “setique e bola”).

Seguidamente, enfrentei os treinadores com esta afirmação: – «Penso que vocês estão mais interessados na prática concreta do hóquei em patins, suas técnicas e tácticas!»

Ouvindo um murmúrio de aprovação, entrei finalmente no campo em que me sentia como peixe em água e, durante horas a fio, sem quaisquer reservas, desbobinei toda a minha experiência desportiva, mantendo os ouvintes interessados e atentos, incluindo o corpo docente que não faltou às prelecções. Á posteriori, soube que os federativos lastimaram não terem gravado as minhas intervenções, manifestando-se surpreendidos pela forma como me expressava na língua da casa. Obviamente, tive de “rebuscar” mentalmente frases e adjectivos escolhidos da língua Portuguesa, com provável aplicação na Italiana, dadas as similaridades resultantes da raiz comum: o Latim. Devo dizer que, além do curso de Linguafone comprado que estudei e pratiquei, li inumeráveis bandas desenhadas do Pato Donaldo, legendadas em italiano e que na sua forma vernacular, servem para entendimento dos leitores mais jovens, e não só, pois ajudou-me bastante.

Quando o curso chegou ao fim, no dia 5 de Setembro, suspirei aliviado, dirigindo-me ao funcionário que me acompanhava: – “Até que enfim, vou poder descansar!”, ao que ele respondeu que só podia fazê-lo durante uma hora, pois teríamos de voltar ao Centro, não me esclarecendo para que fim.

De regresso fui recebido na sala pelos elementos da Federação Italiana e seu presidente Dr. Mariggi Gianni, pelo corpo docente da Escola, numa manifestação de apreço e elogios, que caiu fundo, tendo o presidente da FIHP feito a entrega de um medalhão, que agradeci, recolhi e mirei, pensando tratar-se de uma placa comemorativa do evento.

De regresso ao meu habitáculo, acompanhado pelo inseparável funcionário, dirigi-me ao mesmo, exclamando: – “Finalmente!”, ao que ele replicou com um sorriso brincalhão: – “Tem uma hora para se relaxar… que depois virei buscá-lo!” e mais não disse.

Ao lembrar-me do que se passou, tenho de registar que jamais imaginara que seria levado para uma Praça em cuja esplanada se encontravam os cursistas que me tinham aturado. Com excepção dos que tiveram de regressar aos seus sítios de origem, estavam ali em grande número, com o intuito de me proporcionar uma noitada pelos “buracos” de Roma. Não consigo descrever as voltas que demos, e só posso realçar o sentimento de companheirismo evidenciado neste convívio de despedida que decorreu até o dia raiar de novo, e onde a alegria e piadas tão típicas dos italianos, se manifestava ruidosamente. Foi uma noite inesquecível e comovente, que me deixou um tanto orgulhoso, até porque foi a partir de então que passei a estar seguro dos meus conteúdos e da capacidade de os transmitir em quaisquer circunstâncias.

B.I. de Allenatore, nível máximo

Mais orgulhoso foi o meu sentimento, quando o inseparável jovem que me acompanhava, tendo reparado que eu olhara fugazmente para o medalhão, deu-me a novidade que aquele seria, se não estou a abusar da memória, o primeiro com que agraciaram um treinador de hóquei em patins, já que até então, um tinha ido para a Patinagem Artística e outro para as Corridas de Patinagem.

Este medalhão tornou-se uma espécie de “coroa de glórias”, de justificação da minha tese, que podemos chegar onde quisermos, se trabalharmos com tenacidade e estudarmos continuamente. Não precisei de um treinador para chegar onde cheguei como atleta, não pude tirar um curso no nosso Instituto do Desporto mas, curiosamente, fui prelector de um, levado a cabo numa Instituição estrangeira de renome.

Medalhão da Federazione Italiana Hockey e Pattinaggio

Não guardo mágoas, mas devo mencionar a minha estranheza pelo facto de a Federação Portuguesa de Patinagem nunca ter-me convidado sequer para uma modesta palestra, não obstante estar ao par do que se passava em Itália.

De frisar, também, o aspecto intrigante, de que só tive conhecimento mais tarde, precisamente no dia 16 de Setembro, conforme transcrição do jornal que encabeça esta página, que tinha sido a Federação Portuguesa a indicar o meu nome, como docente, sem ter-me consultado previamente, daí a minha surpresa com o programa do curso. Ou não tinham mais ninguém ou estavam todos muito ocupados, mas acho que foi uma daquelas cartadas habituais, em que os nossos dirigentes da altura eram pródigos.

– Segue-se parte 4

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