Época 1984/85 – Sporting Clube de Tomar – parte 3

Da esq., de pé: - Mário Rui, Fernando, Renato, Gomes, ??, Ventura, Prof. Marques, eu. Agachados: - Jaime, Batista, Capitolino, Sérgio, P. da Silva e Vasco Vaz. No regresso, todos a sorrirem de alívio, menos eu.

Uma digressão rocambolesca!

Em 10 de Março de 1985 fui confrontado com a seguinte notícia de o “Despertar”, assinada por M. Gonçalves:

«Sporting de Tomar convidado para jogar em França

«O Sporting de Tomar foi convidado a participar num torneio internacional de hóquei em Patins em França, juntamente com o Famalicense, o Haya da Holanda, o Verégio (acho que se trata do Viareggio) e o Monza de Itália, o Barcelona, actual líder do campeonato de Espanha, o Fresnoy e o Tourcoing, estes dois clubes franceses. O torneio, a realizar nos dias 27 e 28 de Abril próximo, terá duas séries (quatro equipas em cada uma) e decorrerá em Tourcoing, um importante centro de indústria têxtil junto à fronteira com a Bélgica.

Embora a Direcção do Sporting de Tomar ainda não tenha confirmada a presença da sua equipa, tudo indica que irá corresponder ao honroso convite, uma vez que encetou já diligências no sentido de organizar uma excursão para acompanhar a comitiva leonina além Pirinéus, no que será julgamos, o batismo internacional do hóquei em patins tomarense.»

A quarenta dias deste evento, não prestei grande atenção ao mesmo dado que estava concentrado nas jornadas calendarizadas. Apesar de a notícia não estar confirmada, no meu íntimo tinha a certeza que este torneio, contra o melhor que havia em Itália e Espanha, estava em princípio agendado para uma data em que iria afectar a subida progressiva de forma que se verificava na equipa do Tomar, toda ela empenhada numa boa classificação, a mais alta possível no Campeonato Nacional. Aguardei.

Os dias passaram e, a certa altura, durante uma reunião com a Direcção do Clube, em que se abordou a questão do Torneio, a nossa presença foi confirmada, com um parecer técnico negativo de minha parte, aceitando todavia os argumentos apresentados pela mesma no que dizia respeito às necessidades de relações públicas da colectividade. Pedi então que me informassem do programa de jogos, coisa que nunca fizeram até termos chegado ao destino… já dentro do Pavilhão.

Entretanto, com a aproximação da data, distribuíram o seguinte roteiro:

Programação da Viagem a França – de 25 de Abril a 1 de Maio

Dia 25 de Abril:Saída de Tomar prevista para as 4 horas da manhã: – Tomar – Coimbra – Celorico – Guarda – Vilar Formoso (fronteira) às 10 horas da manhã. Ao passar para Espanha adiantamos o relógio 1 hora. Saída de Vilar Formoso às 11 horas com passagem em Ciudad Rodrigo – Salamanca às 13 horas (almoço) – Saída de Salamanca às 14,30 horas com passagem em Valladolid – Burgos – Victoria – San Sebastian – Irun (fronteira) às 22 horas – Jantar e Dormida em Bayonne (no Parque ou Pousada).

Dia 26 de Abril:Saída de Bayonne (França) às 8 horas com passagem em Bordéus – Poitiers – Tours – Fontaine – Chartes (almoço às 14 horas) – Saída às 15 horas – Paris – Arras – Lille – Tourcoing – Chegada prevista a Tourcoing para as 19 horas na qual teremos: – Recepção – Alojamento – Visita ao local do Torneio – Jantar às 20 horas em local a ser designado pela organização – Treino se acharem necessário.

Dia 27 de Abril: – Manhã livre / almoço às 12 horas / Início do Torneio às 15 horas.

Dia 28 de Abril: – Torneio de manhã e à tarde – 20 horas encerramento oficial do Torneio.

Toda esta programação falhou redondamente, pois chegámos a Tourcoing entre a 1 e 2 horas da manhã do dia 27 de Abril, directamente para uma residencial tipo bordel, tendo sido recebidos à porta por um indivíduo que segurava um Lobo de Alsácia por uma corrente, tal a escabrosidade do sítio. O cheiro era nauseabundo, fazia um frio terrível e, estando a horas do primeiro jogo, deveras mal impressionado com este cenário, aconselhei os atletas a espalharem-se imediatamente pelos cantos, com uma janela semi-aberta para poderem respirar o ar frio, mas puro. Fui para o meu quarto tentar dormir, a porta não tinha chave e duas vezes alguém a entre-abriu, metendo a cabeça e espreitando, escapulindo de imediato ao enfrentar o meu olhar supostamente agressivo.

Não consegui dormir, nem com os meus inseparáveis “lorenins”. Era a terceira noite em claro e ao ouvir vozes, saí e fui dar com os dirigentes num quarto, onde um deles, (aquele que se pendura no galho de cima), exclamava para os outros que ia já para um hotel. Olhei para ambos e disse-lhes que eu permaneceria com os atletas e que requeria uma reunião com a Direcção, antes do pequeno-almoço. Felizmente que o Presidente compareceu à mesma, a quem solicitei que mudássemos imediatamente para um hotel. Este assunto foi resolvido na hora e abandonamos a espelunca onde tínhamos ido parar.

Paragem. Jaime, eu, Capitolino e a Exma srª que ofereceu os petiscos

A partir de aqui as coisas enveredaram por um caminho inesperado. Não estava lá o Barcelona, tampouco o Monza, os tais pesos pesados apregoados na notícia do jornal que encabeça este artigo. Nenhum responsável deu qualquer explicação sobre o que se passava, nem porque esconderam que iríamos realizar 5 jogos em pouco mais de 24 horas, após uma viagem longa e extremamente desgastante, de quase 2.000 Kms, a adicionar noites mal dormidas e fraca alimentação!

De qualquer modo o Torneio teve início e não havia outra alternativa que não fosse cumprir o calendário de jogos.

Os da petiscada

Foi grato ter encontrado o amigo de infância, Garradas Domingues, um dos primeiros árbitros internacionais, formado em Moçambique, ex-jogador de hóquei e agora treinador do Grundig, o qual não via há bastantes anos. Não vou entrar em detalhes dos jogos mas transcrevo notícia saída em jornal de Tomar:

«HÓQUEI EM PATINS

«Sporting de Tomar – Boa presença em França.

«De notícias colhidas directamente de França, soubemos que o Sporting Clube de Tomar, no sábado, dia 27, disputou três encontros, vencendo dois, perdendo um. No domingo, dia 28 fez mais dois jogos tendo vencido um e perdido o outro.

Eis os resultados:

Dia 27 – R.C.Tg (3) x S.C.T.(5)  –  Residence (3) x S.C.T. (5)  –  H.C.F.Tg (2) x S. C. T. (1).

Dia 28 – S. C. T. (6) x Grundig Braga (2)  –  U.S.Horta (4) x S.C.T. (1)

«O Sporting de Tomar classificou-se assim em lugar, o que não sendo bom também não é mau atendendo a que o último resultado se deve ao facto de grandes desentendimentos no seio da caravana tomarense. Resta-nos a consolação de ter sido uma equipa portuguesa a triunfadora deste torneio, a Grundig de Braga. No próximo número daremos mais detalhadas informações acerca desta delegação desportiva tomarense a terras da França.»

Nota a esta notícia: O último resultado não se deveu a desentendimentos no seio da caravana uma vez que esses tinham sido resolvidos anteriormente. Os tais do galho de cima tinham-se demitido em pleno Pavilhão, acolhendo a minha proposta, feita em reunião com a Direcção do Clube, com a maior seriedade e decoro, de se afastarem e darem lugar a outros, como se verá mais adiante. No jogo anterior, o encontro em menos de 24 horas, o Tomar da 1ª Divisão bateu o vencedor do Torneio, o Grundig de Braga, campeão da 2ª Divisão, fazendo valer os seus galões. Quanto ao jogo contra o U.S.Horta, ao ver os meus jogadores completamente derreados, dentro do campo, dei-lhes ordens directas para não se esforçarem mais. Esta delegação desportiva tinha sido transformada numa digressão turística para gáudio dos seus organizadores e quase destruição física dos atletas.

A primeira fase desta viagem a França que iniciámos às 4 horas da manhã do dia 25, teve a amenizá-la o espírito jovial e brincalhão de Mário Rui, o primeiro e único hoquista/poeta que tive o prazer de conhecer, capaz de desbobinar o seu cancioneiro e cantar horas sem fim. Foi ouvi-lo, no autocarro, num dueto interminável com a esposa de Vasco Vaz, se não estou em erro, trazendo uma boa disposição a todos, incluindo as pessoas e os casais excursionistas que acompanharam o Sporting de Tomar.

Mário Rui sempre atencioso, a zipar-me o quispo.

As minhas preocupações começaram quando em Irun, na fronteira, ouvi um dirigente inquirir do Mário Rui, o local onde iríamos pernoitar, eventualmente Bayonne, já na França. – “É mais ali!” – respondia ele. Como estava sentado no banco da frente e só via uma estrada infindável e os potentes faróis do autocarro que a iluminavam, aproveitei uma pausa no musical, chamei o Mário Rui e esta teria sido a conversa que encetei com ele, seriam umas 10 ou 11 horas da noite.

Hulk… – sussurrei-lhe – estou a ficar preocupado…

Falta pouco… é mais adiante!

Não vejo nada, pá… – insisti, com o olhar a varrer o horizonte.

Há-de lá estar um gajo, na beira da estrada…

O quê! – Exclamei em surdina – A estas horas e com este frio?

Combinei com um amigo… – respondeu ele casualmente – ele indicar-nos-á o caminho… para o alojamento!

Tens a certeza, Hulk? – Perguntei temeroso, a pensar nas cerca de trinta pessoas que viajavam no autocarro.

Não falha! – Afirmou o Mário Rui, com aquela expressão marota que fazia dele uma criatura adorável.

Não falhou! Senti a viatura abrandar subitamente, após uma curva, e lá estava o moço sentado numa pedra. Ao ver-nos, levantou-se e agitou os braços. “Ufff” – Suspirei aliviado, seguindo as manobras que nos levaram até ao local onde iríamos pernoitar. A primeira desilusão desta aventura teve lugar neste recôndito perdido numa zona onde nem de GPS eu conseguiria lá voltar. Acomodámo-nos 10 ou mais num único quarto, sem espaço entre as camas ou macas e esta foi a segunda noite que não dormi, e nem sequer me lembro onde ficaram os outros… possivelmente no autocarro.

Algures com Vasco Vaz e esposa

Partimos logo de manhã e chegámos a Paris ao anoitecer, estacionando o autocarro no Bairro Alto lá do sítio e, à falta de melhor, andamos por ali a visitar buracos exóticos que me fizeram recordar a Edith Paff e o Charles Aznavour. No que me dizia respeito, já estava estoirado mas como era imperativo proporcionar um “sight by night” aos excursionistas que devem ter pago para isso, fui penando até decidirem partir para Lille. Não admira que chegássemos a Tourcoing com 7 horas de atraso, na madrugada do dia em que faríamos 3 jogos!

– segue-se a 4ª e última parte

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