Itália 1982/83 – Hockey Club Monza Pompe Vergani – 2

 

Autocolante publicitário

Ao actuar como treinador de clubes, nas partes do mundo em que vivi, poucas diferenças notei nesses pequenos e semi-fechados universos, a não ser a questão da linguagem falada e, noutros casos, da alimentação. As pessoas, dirigentes, técnicos e atletas, são feitas do mesmo barro e as suas virtudes, defeitos, seriedade ou “interêsses pessoais”, são comuns a todos os agrupamentos por eles formados e o treinador terá de enfrentar esses factores, estimulando os positivos e tentando opor-se aos negativos. Acima de tudo, terá de ser bastante flexível na apreciação das famigeradas “agendas de cada um”.

Esta flexibilidade terá de ter em linha de conta a tendência natural do ser humano em sair do anonimato, em busca do prestígio que o elevará no seio da comunidade onde se encontra inserido, com objectivos que só ele poderá vislumbrar, bem guardados que estão no respectivo baú cerebral. Os dirigentes desportivos de cúpula, presidentes e vice-presidentes, seguidos dos agentes intermédios, tais como os apelidados seccionistas dos vários escalões etários, são os que, a meu ver, requerem uma cuidadosa valoração, sem esquecer os próprios atletas e respectivos treinadores.

Como em princípio todos actuam graciosamente, (a coberto de um profissionalismo encapotado, pois não se trata de desporto profissional), empenham-se, pós-trabalho, em incontáveis reuniões de direcção, acompanhamento de jornadas desportivas e outras acções concretas. Afastados das famílias para tratar da “coisa pública”, obviamente que essas tarefas constituem um acrescento severo às suas próprias vidas privadas e profissionais, sendo razoável que se verifique algum retorno.

Assim, para efeitos de uma análise expedita, concentremo-nos num microcosmo típico das sociedades actuais, o Clube. O seu Presidente, está consciente que a comunidade espera dele uma liderança espectacular que projecte as suas cores sabendo, no íntimo, que desse modo se elevará mediaticamente, o que é uma contrapartida aceitável. Mas ele gere a sua acção através do/s seu/s vice-presidente/s, onde um/outro assume o pelouro da Actividades Desportivas, neste caso o/s detentor/es do “saco azul” que por seu turno, nomeiam os Seccionistas, dois para cada escalão etário, invariavelmente encontrados entre os pais de um ou mais filhos que jogam no clube.

Os progenitores aceitam com facilidade essas posições, na mira de poderem acompanhar os seus rebentos de perto, acabando por se transformarem em peças fundamentais sem as quais não haveria hóquei em patins. Isolados uns dos outros, tratam de tudo, equipamentos, transportes e calendários das provas. Sempre presentes nos treinos, correm a apanhar bolas que os meninos atiram para fora da pista e basta um destes apontar o dedo para o boca e lá vão buscar as garrafas de água para lhe mitigar a sede. Contudo, são eles que durante os jogos resolvem a imprescindível burocracia, retirando das suas pastas as fichas ou cartões validados dos seus atletas. Nada consegue pagar os esforços abnegados destes homens.

A campanha anual para a angariação de fundos é de um modo geral sempre a mesma:

Tirar a juventude da rua! … Lutar contra a droga!

Apesar de ser um “slogan” desgastado, é muito efectivo e ao gosto da comunidade. As autarquias e entidades governativas, o comércio e a indústria reagem, enchendo minimamente o “saco azul” da modalidade a fim de se iniciar a época com os seus arregimentados 60 a 80 praticantes de todas as idades. Os Treinadores aparecem por encanto à frente das diferentes categorias e nestas, é o treinador de Seniores, o mais vulnerável. Assim, temos o Clube formado, pronto para competições regionais e nacionais, emocionalmente disputadas, numa anarquia total, onde se perde a noção do plausível, aspirando bater os mais fortes com equipas nitidamente mais fracas. Daí que os Presidentes e Vice-presidentes, sentindo que não estão a corresponder às expectativas criadas e badaladas na imprensa quer local quer nacional, recorram a jogadores do clube vizinho e mais tarde dos mais afastados acabando, eventualmente, por recrutá-los em qualquer parte do planeta, até esgotarem o orçamento. Consequência dramática:os Clubes adulteram a verdadeira missão para que foram constituídos e deixam de proporcionar desporto aos filhos da terra!

O Hockey Club Monza Pompe Vergani não escapou a estes ventos e fui encontrar uma equipa formada por uma mescla de atletas de várias origens, inclusive um jovem português promissor, há um ano contratado, e duas recentes aquisições para a época que se avizinhava todos eles a auferirem remunerações díspares, fonte de vários atritos no futuro. Como é natural, não fui informado dos seus vencimentos mas, por uma questão de sensatez, pedi ao Director Desportivo que me apresentasse num quadro de barras, as percentagens relativas às remunerações de cada atleta. Como conhecia o vencimento de um, foi fácil saber o de todos, pois era sensato ser exigente com os que mais ganhavam, obrigados a rendimento desportivo também mais elevado.

Remunerações percentuais relativas

A vermelho, os atletas mais utilizados, especialmente na volta do Campeonato, com relevo para Casiraghi, Righi, Pardini e Villani, com uma idade média de 32 anos que só baixava para 31 sempre que Alexandre Serra se incorporava. Os dois primeiros caracterizavam-se pela experiência e serenidade que demonstravam em acção, Pardini pela sua incrível velocidade, Villani pelo vigor e tenacidade com que se batia em toda a pista. Serra, de 21 anos, um jogador excepcionalmente bem dotado para a prática deste desporto, era o jovem rebelde, sempre obcecado por marcar golos.

Estes elementos, com Citterio Gian Enrico na balisa, constituíram o esqueleto principal da equipa que se foi revelando e aprimorando colectivamente desde o início do campeonato, como resultado lógico de uma preparação planeada e exigente que cobriu os aspectos físicos, técnicos e tácticos. O quadro, abaixo inserido, comprova essa evolução a que falta adicionar o lugar obtido na classificação do Troféu Disciplina, entre as 14 equipas participantes.

O organigrama que me foi apresentado para a época 1982/83 era o seguinte, reproduzido da publicação bi-mensal “Monza Goal”:

H. C. MONZA – POMPE VERGANI MERATE

Assemblea dei Soci – Consiglio Direttivo – Presidente: Vergani Dott. Claudio – 1º Vice Presidente: Colombo Giovanni – Vice Presidentes: Fossati Adriano e Giusti Rag. Tarcisio – Consiglieri: Monti Paolo, Cattaneo Felice, Milazzo Avv. Salvatore, Semplici Carlo, Mandelli Angelo, Fedeli Luigi – Collegio Revisore dei Conti: Pioltelli e Sala – Segretaria Generale: Giusti – Segretaria Administrativa: Mandelli e Milazzo – Segreetaria Organizzativa: Colombo e Semplici – Servizi Generali: Monti e Cattaneo – Settore Tecnico: Direttore Sportivi: Fedeli e Fossati – Allenatore: Velasco Francisco – Prep. Atlet.: Walter Albertarelli – Medico Sociale: Galli Dr. Andrea – Massaggiatore: Beretta Giuseppe – Magazzinieri/Meccanici: Cesari Gianpiero e Recalcati Roberto.

Atleti TesseratiSeniores: Os que constam do quadro acima – Juniores: Casiraghi Massimo, Armano Mauro, Carzaniga Claudio, Picozzi Massimo, Libanore Paolo, Libanore Marco,  Ulcelli Giordano, Frangini Gino, Weltert Alberto, Schiavone Claudio, Tremolada Mauro, Di Noia Gigi, Libanore Alessandro, Libanore Franco, Canegrati Giovanni, Colombo Gian Luca, Carzaniga Filippo, Cavazzini Alessandro e Frontini Paolo – Veterani: 15 atletas – Quadri Giovanili: Cerca de 36 mencionados.

Não farei um relato detalhado das jornadas do Campeonato de Itália, em que os jogos foram disputados com as emoções da praxe, ressalvando que os treinos ocorreram com uma regularidade aceitável, com os atletas compenetrados, a darem o seu máximo. A Metodologia de Treino fora revelada e argumentada nas primeiras sessões, em sintonia com o Preparador Físico, Walter Albertarelli, com quem afinara o plano de trabalhos já esboçado por mim, visando esclarecer os atletas das diferentes fases da preparação da equipa, em todas as suas vertentes. A logística, a cargo dos responsáveis, foi altamente eficaz e direi que foi com total serenidade que realizei a minha função de Treinador até sermos afastados nas eliminatórias dos “Play-off”, não sem ter pregado grande susto ao adversário que nos coube, o 1º classificado na fase inicial. Apresentarei os seguintes quadros classificativos, que revelam as diferenças entre a época anterior e a transacta e nesta, o salto qualitativo da para a volta, a vermelho. Esta evolução em pouco mais de 5 meses excedeu as minhas expectativas, tendo em mente as fortes equipas participantes no campeonato. A pontuação refere-se a 2-1-0, para vitórias, empates e derrotas, respectivamente. O Coeficiente de Golos (reti) é a divisão dos golos marcados pelos sofridos, e o Coeficiente Força é esse “goal average” multiplicado pelo total de pontos conquistados a dividir pelo número de jogos realizados.

Evolução da equipa de uma época para outra

Um dos fenómenos que enfrentei à frente de equipas medianas na Europa, foi a noção generalizada, a viva voz, quase que numa exigência, que se ganham os jogos em casa e se perdem resignadamente os efectuados fora. Surpreendeu-me o fatalismo bem evidenciado pela equipa do Monza, reveladora dum estado de espírito que a bloqueava totalmente nas partidas fora de casa, com excepção de uns poucos de jogos, nomeadamente, o derby Monzense e a 1ª mão dos “Play-off” contra o 1º classificado da liga, recheada de jogadores argentinos. Não tinha resposta adequada para esta situação, pois em toda a minha vida de praticante, 95% dos jogos que realizei verificaram-se fora de casa, por vezes em ambientes hostis, e nunca me senti afectado. Um psicólogo desportivo seria o mais indicado para ajudar a compreender e resolver este tipo de problema, mas qu’é dele… no quadro de técnicos dos Clubes? Uma miragem… pois alguns responsáveis, apesar dos discursos da praxe, não pretendem fazer desporto mas sim ganhar! Todavia, começam logo com asneiras, mantendo remunerações disparatas e injustas tal como se pode ver no gráfico percentual atrás mencionado. No respeitante à equipa do Monza, ficou provado que esta questão causava manifesta discórdia, afectando de certo modo o rendimento geral.

Tomei boa nota da anomalia, compreendendo as suas raízes, mas reagi sempre com firmeza às formas mais declaradas de alguns, procurando contudo dialogar com os atletas, individualmente. É óbvio que estes, a jogar em casa, não escondem as suas capacidades e empenham-se no jogo, numa demonstração de competência e respeito para com o seu público. Todavia, fora das vistas deste, havendo o que consideram remunerações injustas, caiem numa modorra subtil, numa espécie de deixa-para-lá… os que ganham muito que trabalhem”. Isto não é uma desculpa, é um facto.

O famoso derby Monzense, talvez por não ser tão fora de casa, ficou na história da cidade, pela grande tareia que a nossa equipa deu no Roller Monza, 13-4, para gáudio das nossas hostes. Curiosamente, antes do jogo, o meu Director Desportivo, Luigi (Dodo) Fedeli, sempre a meu lado,  sussurrou-me que era melhor fugirmos se porventura perdêssemos, tal a rivalidade entre os clubes e respectivos presidentes.

Duas das situações em que as intervenções tiveram de ser definitivas, são transcritas de correspondência oficial arquivada, com uma tradução parcial, em itálico.

“Uffici Segretaria – Monza, 20 settembre 1982

Egr. Sig. C.R. – Concerne: AMMONIZIONE

A fine allenamento del 16 c.m. alcuni giocatori avevano espresso il desiderio di ripetere la seduta anche nella serata del giorno sucessivo. Ella, peraltro non interpellata, cosí si esprimeva: – “mancherebbe che mi convocassero visto il misero contratto che mi hanno fatto sottoscrivere…” – (“Só faltava que me convocassem dado o miserável contrato que me fizeram assinar…”).

Ciò è in netto contrasto con le vigenti regole di comportamento… Riteniamo doveroso informarLa che alla prossima mancanza Le sera comminata una multa…

Segretario Generale

“Uffici Segretaria – Monza, 23/11/1982

Egr. Sig. S.A.

La presente per comunicarLe che la Società, visto il comportamento irriguardoso (desrespeitoso) nei confronti dell’allenatore Sig. Velasco durante la partita Bassano-H.C.Monza, ha deciso de comminarLe una multa per un importo di £. 250.000… Ove ciò dovesse ripetersi, saremo costretti, ns/ malgrado, ad a applicarLe la riduzione dello stipendio…

Segretario Generale

A primeira admoestação é sintomática da discórdia relativa às diferenças de remuneração, referida acima e manifestada nem 20 dias depois de eu ter iniciado os treinos.

A segunda, resultou de uma regra por mim exigida a todos componentes da equipa, que quando ao ataque, o jogador mais atrasado não deve atirar à baliza se não tiver a certeza que a bola chega ao guarda-redes. Jogávamos fora e o adversário estava contido até que, ao findar a 1ª parte, o atleta em causa, da posição mais recuada, setica contra as caneleiras do avançado à sua frente que, interceptando, contra-atacou e marcou o primeiro golo.

No balneário, fiz recomendações de carácter geral e, de modo calmo e discreto, alertei o causador do golo, para o que estava estabelecido. Recomeçámos a 2ª parte com a mesma formação, pois a mesma estava a portar-se à altura mas, para meu desagrado, S. A., logo no primeiro minuto viola novamente a regra e atira para cima do oponente que, numa cópia do que se tinha passado, voltou a marcar. Substitui-o imediatamente e quando ele ia sentar-se no banco, fez-se ouvir com este remoque inaceitável: – “Assim não, Mr…”. Claro que ordenei-lhe que recolhesse de vez ao balneário.

Nunca mais tive problemas com este atleta, antes pelo contrário, tornou-se mais compenetrado e atento às indicações por mim emanadas e as nossas relações melhoraram daí em diante, especialmente quando lhe disse que tinha nome e não gostava que me tratassem por “Mr”.

– Segue-se 3ª parte

 

 

This entry was posted in Eu, o treinador. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *