1982 – Angola – Fim da “Operação Portugal 82” – 4

O cerrar das cortinas…

Como triste epílogo de uma saga difícil de esquecer, terminá-la-hei com os seguintes registos, para “memória futura”.

Transcrição na íntegra de carta por mim manuscrita e endereçada a Sua Exa o Secretário de Estado e Educação Física e Desportos, Dr. Rui Mingas, em 17 de Maio de 1982, dois dias após o fim do Mundial de Barcelos, com ênfases a negrito normal e comentários a negrito itálico.

«Exmo Sr.

Tem a presente a finalidade de informar V. Exa do seguinte:

Em Fevereiro do corrente ano, o signatário assinou um contrato com a R. P. de Angola, como Técnico de Hóquei em Patins, a fim de preparar a Selecção Nacional Angolana que iria competir no Mundial de 1982 e de levar a cabo um Curso de Treinadores.

Iniciado o estágio em Huambo, ficou estabelecida a estratégia geral da preparação, o volume e o plano de trabalhos, as diferentes fases que o constituíam, os nossos objectivos e aspirações. Estabeleceu-se um dia tipo, com ginástica matinal das 7.30 às 8.30, duche, pequeno-almoço, aula teórica, treino das 10.00 às 12.00, duche, almoço, descanso absoluto e activo, treino das 16.00 às 18.00, duche, jantar e dormir, integrado numa semana com uma quarta-feira de menos trabalho e descanso total ao domingo.

Conseguiu-se manter este regime de rotina e de disciplina diária, durante cerca de 35 dias. Assim, de 25 de Fevereiro a 31 de Março, apesar das deficiências e dificuldades inerentes às realidades de Angola, foram realizados a quase totalidade dos treinos previstos para completa satisfação do signatário.

Claro que durante este período, houve problemas. Os atletas constituem sempre uma força centrífuga que busca libertar-se da disciplina de trabalho, neste caso até intensivo, pois gostariam de fazer o que bem desejam e o nervosismo provocado pela ida a uma prova desta natureza, provoca reacções das mais extemporâneas, que só uma corrente sólida à volta deles, os poderá conter.

Exemplificando:

1. Na altura em que os responsáveis pela preparação eram alvo de ataque por parte do sr. Arlindo Macedo, da Rádio Nacional, e aproveitando a vinda ao Huambo dos dois vice-presidentes, srs. Teixeira e Reis, os Atletas reuniram-se durante quase cinco horas, queixando-se, não dos técnicos, mas do Director Técnico, sr. Bastos de Abreu, acusando-o de não fazer nada e eventualmente de incompetência.

Na reunião do Colectivo que se seguiu a esta ficou demonstrado o seguinte:

a) – Nada era verdade do que diziam do Director Técnico.

b) – Que o Atleta Fragata era mentiroso tendo sido a causa de certa confusão que se gerara no Centro Desportivo.

c) – Que os Atletas queixavam-se por se queixar, tendo levado o seu próprio delegado, o jogador Teles, a exigir que eles fizessem as suas reclamações por escrito para não ficar mal nas reuniões do Colectivo.

2. Durante uma ou outra sessão, o Atleta Damásio tinha o mau hábito de cuspir dentro do rinque, onde quer que se encontrasse. O signatário, sempre com um intuito positivo, chamou a atenção dele, usando uma fraseologia dura, do tipo “ vais cuspir assim em Lisboa e na Suiça?… Queres que lá digam que os pretos são selvagens?… Já viste que estarão todos a observar-nos, à espera de coisas desse tipo?”

Pois esta fraseologia foi deturpada do seu contexto pelo Atleta Fragata, que à mesa, com pessoas estranhas à Selecção, insinuou que o signatário era um racista, reaccionário… etc. Membros do Partido presentes, indignados, contaram este tipo de comportamento ao signatário, que por ser a pessoa atingida, passou o assunto ao Director Técnico a fim de tomar a decisão que bem entendesse.

Não houve tempo para interpelar o Atleta em causa pois regressámos a Luanda e logo à chegada ao aeroporto, o mesmo Fragata, quebrando a disciplina, meteu-se num carro e quando interpelado pelo Director Técnico, sr. Bastos de Abreu, respondeu que tinha de ir tratar de assuntos pessoais. E foi.

Em face desta atitude de indisciplina, o signatário, convocando o Colectivo ali no Aeroporto, afastou esse Atleta da Selecção e só depois de quase um dia inteiro, exaustivo, de reuniões sobre o assunto é que o signatário condescendeu e decidiu esquecer essas faltas e reintegrar o Atleta em causa.

Mas ficou ali evidenciado uma indicação da minha determinação, firmeza e também flexibilidade, que eventualmente produziram os seus frutos.

a) – O Atleta Damásio ganhou o TroféuPierre Monney

b) – O Atleta Fragata nunca mais causou problemas (quem poderia adivinhar?), sendo em campo, aquele que mais trabalhou e, na opinião do signatário, o mais esforçado e humilde.

Durante o Torneio de Montreux, O Atleta Araújo insultou uma das figuras mais proeminentes daquela cidade e da Organização das Taças das Nações, o sr. Marcel Monney, irmão de falecido Pierre Monney, cujo Troféu foi ganho pelo jogador Damásio. Acusou esse cavalheiro de lhe ter tirado 5 dólares e quase provocando a intervenção da polícia local. (O senhor Marcel Monney não era uma figura de somenos importância, Edil de Montreux, foi um dos grandes jogadores que eu tempos defrontara e de quem era amigo. Vinha ao nosso balneário, antes dos jogos e perguntava-me se precisava de alguma coisa, tudo por consideração pela maneira como fora recebido e tratado em Moçambique, anos atrás. Ao ver o atleta José Araújo meter a sua carteira nas calças que pendurou no cabide, fez-lhe sinal que não fizesse tal, obviamente preocupado que lha roubassem. O atleta compreendeu e ficou com a carteira na mão, sem saber o que fazer. Aí o senhor Marcel Monney foi buscá-la e meteu-a no bolso do seu casaco. No final do jogo, apareceu para devolvê-la e aquele palerma abre a carteira e desata a contar o dinheiro, exclamando depois que lhe faltava 5 dólares o que insistiu várias vezes, de modo acintoso! O senhor Marcel Monney ficou estupefacto e zangado, e tive de afastá-lo do local, abraçando-o e acalmando-o com uma desculpa qualquer, pois ameaçava chamar a polícia).

Foi o signatário que, rapidamente, conseguiu solucionar esse incidente, evitando um escândalo inaceitável nas circunstâncias. Levou a Delegação toda a pedir desculpas a esse grande desportista, (que se encontrava na sala de convívio do Pavilhão e todos, sem excepção e em fila indiana, assim procederam) e o resultado é que, ganhámos o Troféu Fair Play”.

As coisas não sucedem por acaso, sr. Secretário de Estado, uma combinação de disciplina de trabalho e bom senso são suficientes para bons resultados e esses são os elos da corrente que contêm ou devem conter os grupos que formam as Selecções Nacionais, Atletas e Dirigentes, sem distinção.

Findo o Torneio de Montreux, o signatário programou um dia e noite livres para os atletas, com a aprovação do Preparador Físico, mas para o dia seguinte que antecedia o regresso a Lisboa, o programa indicava recolha aos quartos pelas 10.00 ou 11.00 da noite.

Os Atletas, e agora também, o sr. Reis, não concordaram, querendo outra noite livre. O signatário, sentindo esticões na “corrente”, permaneceu inflexível e só estranhou que o sr. Reis, numa reunião de quase 2 horas procurasse que aquele programa fosse alterado, mas o signatário não veio passear à Europa mas sim competir no Mundial.

Verificou-se, lamentavelmente, nos últimos dias de Montreux e posteriormente em todo o período de Carcavelos, que o regime de preparação séria e consciente foi totalmente destabilizado pela falta de apoio logístico por parte da Federação Angolana, isto é, dos seus federativos, que com as suas deficiências, negligências e intromissões insólitas nas tarefas dos técnicos especializados, deram origem à desagregação que se verificou no seio da Selecção Nacional onde, o desrespeito pelas hierarquias, pelas recomendações de carácter geral, indisciplina de horários e de maneiras, foram acontecimentos diários.

Todo o trabalho e cargas previstas para Carcavelos em termos de horas, ficaram reduzidas à terça ou quarta parte com consequências inevitáveis e um abaixamento de nível de força da equipa. O Torneio de Montreux, com excepção de um ou dois jogos, (minha necessidade de rodar e testar todos os jogadores), foi muito positivo e as rectificações e ajustamentos que o signatário detectou como necessários não puderam ser implementados em Carcavelos. Apesar dos alertas do signatário em reuniões do Colectivo ou directamente às pessoas responsáveis, nada se conseguiu fazer ordenadamente.

– O Hotel Praia-Mar, 4 estrelas, foi mal escolhido.

– O autocarro garantido não apareceu e foi substituído por um de nove lugares que obrigou a viagens contínuas.

-Não se implementaram os programas de actividade diária, havendo atrasos injustificáveis.

– Os federativos não trataram do ginásio para o trabalho de musculação planeado. Não trataram dos rinques. Não trataram de nada lamentavelmente.

Em termos reais e concretos, dois Vice-Presidentes, um Director Técnico, um Treinador Adjunto, um Massagista, um Médico, um Mecânico, um Seleccionador Nacional e um Preparador Físico não puderam funcionar, apesar de haver um programa diário de actividades. Todavia, isso conseguiu-se durante 35 dias em Huambo… mas não haviam vice-presidentes que afirmavam em reuniões que o signatário e o Preparador Físico só mandavam nos treinos e que fora disso eram eles quem eram responsáveis!

Um exemplo da detioração de todo o grupo dirigente foi a visita a Torres Vedras, onde o signatário, durante o almoço oferecido, procurando dar aos atletas 3 horas de digestão, (mínimo), antes do jogo marcado para as 9.30, (21.30), pediu no restaurante que se marcasse o jantar para as 18 horas, no que foi acedido.

Posteriormente, o autocarro dos organizadores estava parado defronte do Centro Desportivo do Física a aguardar a Delegação. Perto do autocarro encontrava-se o signatário com o sr. Inácio da Skater, ansioso com o passar do tempo. Como ninguém vinha, entrou no Centro e foi encontrar sentados a uma mesa de cartas, o sr. Costa, o sr. Reis, o Atleta Viegas e outro, sob o olhar complacente do sr. Bastos de Abreu.

O signatário interpelou o sr. Abreu lembrando a refeição marcada para as 18.00 horas. Parecia um Clube Inglês, permanecendo todos fleugmáticamente a jogar e eram passadas das 18.00 quando se levantaram e seguiram para o autocarro e seguiram para o restaurante que todos sabiam distar cerca de 14 Kms do Centro.

Resultado: – os Atletas levantaram-se da mesa pelas 20.00 horas e ¾ de hora depois recebiam a carga de aquecimento que precedeu sempre os nossos jogos. Claro que sucedeu o inevitável: – os jogadores arrotaram muito e jogaram pouco, irreconhecíveis, perdendo por 6-1 com uma actuação que metia dó contra uma equipa acessível.

No dia seguinte, num treino contra a equipa da Parede, mais fraca que a Física de Torres Vedras, entraram também em campo com pouco tempo de digestão e foi um desastre total!

Aí já o signatário chegava à conclusão que a alguém não interessava a ordem. É porque onde há ordem, os desordeiros são detectados e quebrando a disciplina de actividades diárias, ao fim e cabo a coisa mais simples de se implementar, destruíram a “corrente” e permitiram o “confusionismo” e o relaxamento que V. Exa veio encontrar em Carcavelos.

Nesta altura, V. Exa reuniu com os Atletas, exclusivamente, e tomou a decisão que posteriormente foi comunicada ao signatário. Acreditou nos Atletas sem ouvir o signatário, (reconheço que não havia outro passo a dar), e a este nada restou que tirar as ilações necessárias. Era um convite delicado para o signatário se afastar, pois seria o mesmo que o sr. Presidente da República de Angola, visitasse a Secretaria de Estado, falasse com os respectivos trabalhadores e dissesse ao sr. Director Geral de Desportos que assumisse o controlo da Secretaria de Estado e que se informasse o sr. Secretário de Estado, isto claro, sem ouvi-lo, que permanecesse como assessor do sr. Director Geral!

Claro, sr. Secretário de Estado, não creio que V. Exa ficasse insensível a uma situação dessas e entenderá porque aceitei a sua decisão como um convite diplomático para me afastar.

Quanto às críticas dos Atletas acerca do signatário, perdoo-lhes porque ao fim e cabo, e agora parafraseio o próprio delegado deles, que em reunião afirmou que eles queixam-se por queixar, não merecem que eu me justifique. Já no Huambo permitiram-se inventar e atacar alguém sem razão para isso. Só que foi permitida a defesa desse alguém.

Posto isto, sr. Secretário de Estado, lamentando sinceramente o que se passou e afirmando que em todos os momentos e circunstâncias teve o signatário sempre em conta os interesses da R. P. de Angola, o seu Desporto e o Hóquei em Patins em particular, espera que lhe seja dada a rescisão do seu contrato a partir do dia 1 de Maio e que lhe seja pago o salário referente ao mês de Abril que trabalhou por inteiro e respectivos subsídios.

Para finalizar, deseja o signatário registar inequivocamente o seu respeito pela compreensão e atitude de verdadeiro “gentleman” sempre evidenciado pelo Director Geral de Desportos, Sr. Sardinha de Castro, e pelo profissionalismo e competência do médico da Selecção, Dr. (Fernando) Borges, do preparado físico, sr. Arnaldo (Alarcón Gamonal), do mecânico sr. (Domingos) Marinho e do Massagista, sr. Paixão (dos Santos).

Lisboa, 17 de Maio de 1982. Respeitosamente. F. Velasco

Francisco Velasco Lote 36, r/c G – Bairro Joaquim Matias – 2780 Paço d’Arcos – Portugal»

Estava para transcrever trecho de notícia publicada 2 anos depois, acerca da pena pesadíssima aplicada a um dos vários portadores de agendas pessoais dissimuladas que grassaram no seio da Selecção de Angola. Não o farei.

Jorge Feio, num especial de Luanda para o DN, de 3 de Novembro de 1984, esclareceu tudo o que eu não tinha compreendido até então.

Outrossim, termino com uma imagem reproduzida do “GAZETA dos desportos”, de 3 de Maio de 1982, com fotos de Lobo Pimental Jr. e Malacó, onde eu, já liberto do pesadelo em que me metera, apareço sentado na bancada, a assistir tranquilamente ao PortugalAngola, das jornadas de qualificação.

 

PORTUGAL x ANGOLA

Em tempo…

Março 2011

Tendo assistido pela Televisão, à final do Torneio de Montreux realizado durante este mês, procurei analisar o comportamento dos países participantes, via outros blogs na Net, como é ainda meu costume.

Foi surpreendente ter verificado que a prestação da Selecção de Angola redundou num êxito merecedor de ser realçado nesta página, tendo em consideração que os insólitos eventos por mim relatados, ocorreram 29 anos atrás, em tempos diferentes e difíceis de desbravar.

É natural que a nova geração, a viver uma época menos conturbada, espelhasse um espírito mais tranquilo, mais focado para os aspectos desportivos, cujos resultados estão à vista.

Folgo imenso registar que a persistência das entidades Angolanas, em manter viva esta modalidade no seu País e projectá-la nos palcos internacionais, tenha alcançado posição tão honrosa num Torneio tão exigente como foi o de Montreux.

E ser um atleta Angolano o melhor marcador do Torneio, foi de facto grande obra. Os meus parabéns!

Francisco Velasco

 

 

 

 

 

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