Épocas 1978-81 – República Popular de Moçambique – parte 1

Maputo

Uma vez em Maputo, a minha acção como treinador do Ferroviário, foi irrisória, havendo contudo aspectos dela que irei assinalar, até porque reflectem o espírito com que encarava estes problemas relacionados com a modalidade. Basear-me-ei em três jornais que sobreviveram ao passar dos tempos e de algumas fotos fornecidas pelos protagonistas. Mas antes

1978, foi o ano da participação da Selecção de Moçambique no Mundial realizado na Argentina. Assisti no Sneci, inclusivamente, a um único treino da Selecção, liderado pelo Fernando Adrião, que me apresentou os jogadores, que eu só conhecia pelos nomes, à excepção dum primo meu.

Da esq. de pé: Tomé dos Santos, Carlos Alberto Pinto, Américo Dias Tavares, Neutel Simões de Abreu, António Augusto Simões, Sel. Fernando Adrião e massagista João de Brito Mangue; Agachados: Alfredo Ananíades, Miguel Azevedo Paulo, Arsénio Cristo Esculudes, José Mauro José Carlos Lopes Pereira e João de Deus Boavida

Estive também presente no Festival de despedida da Selecção que dias depois viajaria para o continente sul-americano a fim de participar no Campeonato do Mundo, a realizar-se em S. Juan. O evento teve lugar no pavilhão do Malhangalene, completamente cheio e com a presença de altas individualidades do Governo. A exibição foi cautelosa, longa e monótona, sem aqueles piques competitivos tão do agrado dos espectadores. De qualquer modo foi tudo muito bonito, apesar de a emoção não ter existido.

Os resultados conseguidos nessa prova, é que foram desanimadores, tendo em conta a qualidade dos jogadores que a compunham. Com as expectativas goradas, senti o desapontamento dos citadinos pelo desenrolar dos resultados. Decidi intervir, por iniciativa própria, para reanimar os espíritos e enviei uma análise ao jornal Notícias que se dignou publicá-la, em 12 de Novembro, ainda o Mundial não tinha terminado e que passo a transcrever, com um ou outro comentário entre parêntesis a negrito e em itálico e omitindo o que achar irrelevante.

Análise de Francisco Velasco

A minha análise…

«O Campeonato do Mundo que hoje se realiza na Argentina, encontra-se a duas jornadas do seu fim, na altura em que decidimos escrever estas linhas. De acordo com a pontuação actual e previsões baseadas no comportamento das equipas cimeiras, podemos facilmente antecipar que o título máximo será conquistado pela Espanha ou então, numa hipótese mais difícil, pela Argentina. (… que foi a vencedora).

«Por outro lado, nas classificações mais baixas, encontrar-se-ão as equipas de Moçambique e do Japão. (Moçambique ficou em penúltimo).

«No que diz respeito à Selecção de Moçambique, tivemos a oportunidade de observá-la, como atrás descrito, no festival de despedida antes de partirem para a Argentina. Além disso, durante estes dois últimos meses, acompanhámos a actividade dos componentes da selecção quando, dispersos pelos respectivos clubes, disputavam o Campeonato do Maputo.

«Será, portanto, sobre estes atletas e a selecção que eles constituíram que procurará incidir a nossa análise, mas antes de mais nada, queremos deixar claro que a única motivação que nos impele a este escrito é, em primeiro lugar, o intuito de dar uma modesta contribuição a uma modalidade desportiva que sempre vivemos e apreciámos e, simultaneamente, procurar desfazer ou combater certas reacções apressadas ou infelizes, que porventura tenhamos ouvido…

– “Nos tempos passados é que se jogava hóquei” – ouvia-se aqui.

– “Não tínhamos experiência…” – justificava-se algures.

– “Foi a primeira vez… Estávamos nervosos!” – lamentava-se, mais além, etc., etc., para não falar dos comentários típicos de uma mentalidade colonial que levam as suas opiniões ao domínio do racismo.

«Todos estes comentários não são senão reacções emocionais, fruto quer do desconhecimento do problema, quer da bílis de cada um ou quer do desconsolo genuíno dos mais sentimentais.

«Mas a nossa experiência permite-nos ver o problema de outra maneira e concluir que a realidade é outra, que a verdadeira causa que levou a Selecção de Moçambique a uma classificação tão pobre é de natureza mais simples e prática, se bem que profunda, cuja detecção convém assinalar se não quisermos ficar parados no tempo ou voltar a cometer erros idênticos no futuro.»

«Nos tempos passados, (estamos a falar de 18 a 20 anos antes desta entrevista), e isso ao contrário do que muita gente poderá supor, o nível de hóquei em patins praticado em Moçambique não era tão elevado como parecia à primeira vista. E para entendermos esta afirmação há que definir o sentido da palavra “nível” dentro do contexto desportivo, que na nossa opinião não é senão a média resultante da qualidade de jogo praticado num país, pela totalidade das equipas filiadas nas respectivas Associações. A existência num dado local de jogadores possuidores de títulos máximos não implica necessariamente que o nível de jogo praticado nesse local seja elevado.

Os 4 Mosqueteiros, Velasco, Adrião, Moreira e Bouçós, com Tito Moreira Rato

«Ora, em Moçambique confundiu-se sempre o nível de hóquei com o nível de alguns jogadores, mas se procurarmos ser honestos para connosco próprios, só nos vem à cabeça nomes de atletas, o Adrião, o Moreira, o Bouçós, o Velasco, o Carrelo e, curiosamente, os nomes dos clubes ficaram relegados para um plano secundário ou mesmo inexistente. Falava-se da equipa da Espanha, replicávamos com o nome do Adrião, mencionava-se o Benfica, atirava-se com o Bouçós para a frente, dizia-se Paço d’Arcos e lá se ia buscar o Moreirita.

«Em resumo, onde se punham equipas, contrapunham-se jogadores. Não será difícil portanto concluir-se, à posteriori, que nesse passado Moçambique só possuía atletas individuais capazes, quatro de entre os quais atingiram um nível individual técnico fora-de-série, do tipo “estrela”, que não interessará agora explicar a razão da sua existência, mas que podemos atribuir desde já a um acidente fortuito na história desta modalidade.

«Como qualquer outro desporto, o hóquei em patins, na nossa maneira de ver, só poderá ser praticado de duas maneiras básicas:

– A improvisar individualmente

– Ou a jogar tacticamente.

(Esta afirmação feita em 1978, ainda é válida hoje, 32 anos passados e tem sido a bandeira que incansavelmente agito e que poucos se atrevem a carregar. Perdem-se todos na periferia do problema a copiar regras de outros desportos o que só tem descaracterizado uma modalidade que devia ser protegida na sua originalidade!)

«Foi a improvisar que o hóquei em patins de Moçambique cresceu e só a improvisar é que foi vivendo. E se sobreviveu, isso só se verificou na medida em possuía no seu seio, esses quatro ou cinco jogadores fora-de-série, de alta capacidade individual que tal qual condutores de autocarros, tudo e todos arrastaram à sua frente ou na sua esteira.

«Gerou-se um tipo de hóquei específico, de características assinaláveis, pois quando as “estrelas” improvisavam – e de que maneira! – obrigavam os demais jogadores à sua volta a improvisar também. Na bancada, os treinadores ou melhor os carolas que ocupavam esse lugar, arrastados pelos seus”águias”, improvisavam por seu turno, nada percebendo do que no campo se passava e lá iam fazendo gestos para uma assistência sempre presente, ou atirando “clichés” para uns jornalistas mais sequiosos.

«Foi nesse ciclo vicioso imenso que a imprensa, o público, os responsáveis, etc., se deixaram levar, excitados, pois o que viam era bonito, era espectacular. Viram Moçambique no passado ganhar à Espanha, mas esqueceram-se que a sua SelecçãoB”, os que não eram “estrelas” ficavam sistematicamente em último lugar.

«Esta foi a realidade das coisas. Moçambique não tem de ir buscar desculpas ou justificações… Moçambique possui hoje no Maputo um lote de jogadores de grande qualidade técnica, bem preparados fisicamente e bem capacitados, para em circunstâncias diferentes ir bater-se por um lugar cimeiro

Mundial "A" Corunha: - vê-se José Carlos Lopes Pereira, por sinal meu primo, um poço de força, a defender-se dum ataque da Espanha

«Esses atletas que lutaram em vão por uma boa classificação não precisam de desanimar ou ficar confusos, pois a explicação é clara. Basta lembrar que a antiga Selecção de Moçambique, constituída com três Campeões do Mundo, perdeu todos os Torneios Internacionais realizados nesta capital, pois não conseguiu bater a Selecção de Lisboa que era formada por jogadores que em competições no estrangeiro não passavam de seus suplentes. E quando perderam esses torneios, perderam-nos pela mesma razão que levou a actual Selecção de Moçambique a ficar num dos últimos lugares: falta de mentalidade táctica. (Hoje, eu diria falta de conteúdos).

Carlos Alberto Pinto

«Quando olhámos para esses nossos atletas ali perfilados, no rinque do Malhangalene, dias antes de partirem para a prova máxima, e observando-os um a um, o Boavida, calmo e seguro, o Alfredo, espectacular nas suas intervenções, o Miguel, com a sua elegância e delicadeza no jogo, o Pinto, com a sua sobriedade eficiente, o Arsénio, com a sua constituição dura, o Simões, com a sua inteligência, o Américo, com a sua velocidade, o José Carlos, com a sua garra incansável, e todos os outros, ficamos esperançados.

«Por outro lado, ao vê-los jogar na exibição que realizaram, não pudemos travar um sentimento de apreensão, pois o que registámos não era senão uma repetição da história. À nossa memória ocorreram dezenas de nomes de atletas do passado e, excluindo os “quatro fora-de-série”, (e incluindo eu o Manuel Carrelo), não conseguimos descortinar nenhum que fosse melhor ou mais capaz que os jogadores actuais.

«Eles estavam (na exibição), no entanto, a evidenciar uma mentalidade de Improvisação que hoje não se justifica. Atletas individualmente bem capacitados, a executarem um tipo de jogo infantil, “não pensante”, a transbordar de ingenuidade…

«Resumindo, temos de deixar para trás esse tipo de mentalidade… e caminharmos apressadamente para a fase Táctica»

Alberto Costa, empenhado na formação

Por essa altura, travei conhecimento com Alberto Costa, outro apaixonado pela modalidade, o qual, juntamente com Armando Loja, criaríam em 1979, a Escola de Patinagem do Moçambique Críquete, virada para a formação de futuros hoquistas. Cerca de 80 garotos, dos 6 aos 12 anos, acorreram aos 2 recintos descobertos do Clube de Desportos da Maxaquene, levados pelo entusiasmo resultante da participação internacional de Moçambique. Mais tarde, o Costa foi treinar os juniores do Estrela Vermelha, recém nascido e patrocinado pela instâncias políticas vigentes, a quem não faltava equipamento desportivo, e aquelas camisas típicas, dum vermelho resplandecente.

Sucede que o meu filho Cláudio César treinava na Escola do Ferroviário, já patinava bem, ia sempre à cabeça da fila e jovem como era, saía por vezes da linha e eu dei conta que estava sempre a criticar os seus devaneios, até porque não queria dar a ideia que por ser meu filho poderia fazer o quisesse. Incomodava-me por estar sempre em cima dele e não sabia bem como resolver este problema. A situação felizmente solucionou-se no dia em levei o Cláudio a assistir a um treino no Estrela Vermelha, nas instalações do Malhangalene, onde ele, de olhos a brilhar, se extasiou com o que via.

O Costa apercebeu-se da expressão e numa brincadeira provocatória, disse-lhe – Tens de vir jogar para aqui! e o meu filho olhou para mim imediatamente e eu, vendo a excitação dele, disse-lhe: – Estás livre para decidir, tenho confiança no Costa. Uuf! O meu Cláudio aceitou, eu fiquei aliviado e as sessões que passei a levar a cabo, passaram a desenvolver-se sem eu ter de o repreender. Aquele vermelho todo, deve tê-lo marcado pois, apesar de saber que eu era treinador do Ferroviário, mas fã do Sporting, côr verde, acabou por se tornar um Benfiquista, até hoje.

Titulo de Jornal Notícias

E era assim, boa vontade, empenhamento e muita paciência e trabalho.

O ENTUSIASMO EM AVALANCHE

Mas foi ainda em finais de 1978, que o Fernando Adrião, eu e o Alberto Costa, fomos convidados para constituir a Comissão Nacional de Hóquei em Patins de Moçambique, tendo tomado posse na Secretaria de Estado para o Desporto, o primeiro como Presidente, eu e o Alberto Costa como secretário e vogal, respectivamente. A ordem de trabalhos nunca chegou a ser esboçada por este triunvirato, pois o Adrião, uma vez regressado da Argentina, viajou definitivamente para Portugal.

Na altura em que aparecia o clube Estrela Vermelha, obviamente apoiado pelas forças dominantes, onde se concentraram os melhores jogadores locais, com a cor brilhante da praxe e bem equipados, sediado no rinque do Malhangalene, iniciava eu uma Escola nas instalações do Clube Ferroviário, por sugestão do seu Presidente, simultaneamente Director dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Tudo isto parecia uma repetição da Época 1956/1961, só que os tempos eram diferentes e os objectivos mais virados para o ressurgimento da modalidade, a partir praticamente do zero.

Como não podia deixar de ser a “batata quente” ficou na minha mão, pois dos dois que restaram, eu tinha não só mais disponibilidade, como também maior capacidade dada a experiência adquirida na África do Sul. Como se tratava duma Comissão Nacional cujo âmbito de acção abarcava o Pais, não perdi tempo e produzi formulários minuciosos, num formato adequado, a serem enviados para todos os distritos e cujos quesitos teriam de ser preenchidos pelas entidades locais, Associações e Clubes, quer existentes, quer em actividade, quer parados ou em vias de arrancar, e que possuíssem instalações adequadas para a prática da modalidade.

Os formulários, uma vez encadernados, foram entregues na Secretaria de Estado do Desporto, para remessa a quem de direito, esperando eu que resultasse num Inventário Geral da modalidade, a partir do qual pudéssemos esboçar o seu futuro. Não sei se foi enviado aos destinatários mais longínquos, mas entreguei-os pessoalmente aos clubes da cidade do Maputo.

As circunstâncias especiais que afectavam Moçambique, a braços com falta de divisas que naturalmente eram reservadas para prioridades muito mais sérias e importantes, relegavam forçosamente a importação de equipamento desportivos para a patinagem, para um plano secundaríssimo.

O  levantamento visava essencialmente o seguinte:

Equipamentos – Quantos recintos cobertos e ao ar livre, o estado actual dos seus pisos, se eram de parquet ou cimento, se possuíam iluminação, corrimões e balizas em bom estado, balneários em funcionamento, com ou sem termoacumuladores para água dos chuveiros. Iluminação do recinto e o número de lâmpadas e respectivas especificações. Requeria, além disse, uma previsão das inevitáveis despesas para as reparações porventura necessárias.

Estrutura humana – Quantos Dirigentes, Treinadores, Preparadores Físicos, Médicos, Enfermeiros e Massagistas. Quantos Atletas em acção existem e qual o potencial local de aderência de novos atletas à modalidade. Pois para cada clube, a previsão leva-nos no mínimo a 12 dirigentes, 6 treinadores, e cerca de 48 atletas de campo e 12 guarda-redes, distribuídos pelos vários escalões etários.

Material – Quantos pares de patins com botas e sem botas, setiques, bolas, vestuário desportivo, fatos de treino, meias longas e outras de enchimento, joelheiras, luvas, caneleiras, outras protecções essenciais e equipamento completo de guarda-redes. Por último, um stock de rolos de 8 rodas cada para as necessidades duma época.

Transportes – Número, estado da viatura e capacidade de passageiros, incluindo o condutor e um dirigente, ou enfermeiro.

Alimentação – Viabilidade de suprir esta lacuna, quer em deslocações, quer mesmo depois dos treinos, discriminando-se o seu custo.

As respostas levariam a um apuramento da situação a nível nacional, como base de partida para qualquer futura planificação. Entretanto, a modalidade era discutida na imprensa, como se poderá ler dos extractos de entrevista por mim dada em 28 de Janeiro de 1979, a Ângelo Oliveira, do jornal Notícias, numa altura em que já actuava como membro da Comissão Nacional e responsável pela Escola de Patinagem do Ferroviário. (em itálico as minhas observações e resumos)

Jornal "Notícias", 28 de Janeiro de 1979

Eis pois, o que nos adiantou Velasco!

«O DESACORDO COM UM PROGRAMA

– “Notícias” – Sabêmo-lo um tanto em desacordo com o programa de provas que a Federação Moçambicana de Patinagem deu a conhecer…

– “F. Velasco” – De acordo com o comunicado que saiu há dias… onde ficou estabelecido o programa de provas para a temporada de 1979, verifica-se, a meu ver, um facto estranho, que é iniciar-se o programa de competições relativas às categorias de iniciados e juniores, quase no fim do ano, isto é, em Outubro.

«Julgo que é tarde de mais (esta entrevista é de Janeiro), pois tive ocasião de verificar, não só no ano passado como também agora no Clube Ferroviário, que 80 por cento dos atletas que comparecem aos treinos são exactamente os iniciados e os juniores.

«… o último Campeonato do Mundo… gerou bastante entusiasmo pela modalidade, e isso está a reflectir-se nas camadas jovens que acorrem aos rinques, ou pelo menos às sessões que o Clube Ferroviário tem levado a efeito. Ora, o futuro da modalidade depende hoje essencialmente dos jovens… e o relegar-se para Outubro o início das provas que lhes dizem respeito constitui, a meu ver, uma decisão de consequências negativas…

«O que vai ser difícil é manter essa “rapaziada” toda a treinar, sem o estímulo de competições oficiais…

«Isso para não mencionar a correlação que deverá existir entre os seniores e os juniores. Que com épocas paralelas, se apoiam e se estimulam ao disputarem simultaneamente os títulos das várias provas, fortalecendo os laços que os ligam uns aos outros.

ACTIVIDADE GERAL NOUTROS MOLDES

N” – … que faria se tivesse de ser você próprio a programar a actividade…

FV” – … Não havendo objecções quanto ao programa dos seniores, bastaria talvez enquadrar-se as provas inferiores nos mesmos dias em que jogam os seniores, mas começando esses jogos duas horas mais cedo.

ONDE SE FALA DA AQUISIÇÃO DE MATERIAL

N” – … outras dificuldades, outros condicionalismos, cerceiam a modalidade. Fale-nos delas.

FV” – Sabemos que os clubes enfrentam hoje sérias dificuldades na aquisição de equipamento especializado para a prática da modalidade… Com excepção dos patins e dos setiques, tudo o resto poderia talvez ser fabricado localmente, tal como rodas, bolas, materiais à base de cabedais, feltros e certos acessórios como travões, anilhas e porcas e mesmo até o próprio chassis. Haveria que investigar esta possibilidade.

«Por outro lado, a falta deste material pode originar uma grave crise neste desporto, com consequências incalculáveis para o seu futuro… Há quem avente a hipótese que a modalidade acabará por extinguir-se… e eu penso que isso poderá suceder se restarem só três clubes em actividade… E eles só são quatro!

Justino Miguel, Armindo Fernando e Rogério Nhavele, bons patinadores

«Seria uma ocasião para congratularmos-nos se o Desportivo e o ex-Sporting… que possuem magníficas instalações, regressassem. Sabemos perfeitamente das inúmeras dificuldades e doutros factores irritantes que poderão ter levado esses clubes a interromperem a sua actividade… mas se virmos bem as coisas, poderão partir agora do zero.

N” – Partir do zero…?

FV” – Claro, dirão os responsáveis desses clubes: Não há equipamento, como é que vamos principiar? Diria eu: Comecemos por descobrir um tal caixote, já várias vezes mencionado, (um dirigente da Federação andava há meses com os papéis da Alfândega, que me mostrou num encontro fortuito), oferta graciosa de país amigo, que contém cerca de oitenta pares de patins e que ninguém sabe onde se encontra.

UMA MENTALIDADE NOVA

N” – Na sua qualidade de treinador… qual o aspecto que mais tem desenvolvido, em função, precisamente, da quantidade dos jogadores que sabemos possuir e que, diariamente, invadem as instalações hoquistas do clube?

FV” – A nível de clube, há várias frentes a atacar e a minha colaboração… busca essencialmente a formação duma mentalidade nova por parte dos praticantes, que os leve a aceitar que não basta jogar hóquei mas há que sabê-lo fazer e bem.

«Claro que estas coisas levam o seu tempo, mas julgo que deve trabalhar-se com os olhos postos num futuro próximo e, se começarmos hoje pela miudagem, amanhã teremos os problemas resolvidos.

PREPARAÇÃO DE TREINADORES

N” – No capítulo de técnicos… julga que seria necessário… qualquer iniciativa?…

FV” – Sim! Um aspecto também importante será a preparação dum grupo de treinadores, que num período relativamente curto, mas em moldes organizados, poderia ser posto a par da técnica e metodologia relacionadas com a orientação das equipas de hóquei em patins.

«A lacuna nesta área de acção é fatal, mas julgo que poderá resolver-se, se a isso dedicarmos a nossa atenção.

«Por outro lado, os clubes terão de preparar-se para apoiar a resolução de outros problemas não menos importantes, de entre os quais menciono o mais sério de todos, que é o da alimentação de alguns praticantes, que possam ser afectados pela sua situação económica. Entre os trinta e tal atletas que preparo (entre eles muitas crianças), existem forçosamente alguns com essa dificuldade e já alertei os responsáveis para esse aspecto e sei que as soluções estão a ser encontradas.

Armindo Fernando, exímio patinador

«Tudo isto, desporto, atletas, sua alimentação, preparação e orientação, treinadores, clube, dirigentes e público, existem em estreita correlação. Os fios que os ligam é que se encontram emaranhados. Têm de ser separados e definidos, com espírito analítico e decidido de quem sabe onde se encontra e para onde quer ir…»

Afirmei no início que a minha acção como treinador do Ferroviário, tinha sido irrisória, tendo em consideração que no ano seguinte, em Maio de 1980, ao efectuar o levantamento do Porto de Inhambane, sofri um acidente de trabalho, em que um very-light defeituoso, explodiu e destruiu minha mão direita, alterando dramaticamente o curso da minha vida. No ano seguinte partia para Portugal.

Todavia, em relação ao descrito em toda esta peça, devo registar que a Secção de Hóquei em Patins do Ferroviário estava a ser organizada com o mesmo empenhamento que é minha natureza impor nestas circunstâncias. Se na África do Sul me tinha extravasado em funções, com muito maior carinho me envolveria em Moçambique. Assim…

Pus em prática os meus impressos de organização e, pessoalmente, entrevistei em privado, cada um dos cerca de quarenta jovens que acorreram ao Clube, tirando todos os detalhes que identificariam as suas limitações e necessidades. A certa altura, tive de limitar as inscrições e travar a fila que se formava na entrada das instalações. Essas fichas individuais revelaram o posicionamento social e económico dos candidatos a hoquistas.

Em reunião com o Presidente do Clube, em face dos elementos colhidos, consegui que fosse criada uma verba mensal para, no final dos treinos, poder reforçar a alimentação das crianças que revelaram carências domésticas e todos os outros que comparecessem às sessões. Esse reforço era constituído por sandes de queijo ou de ovos, bifanas e leite, e os custos foram minuciosamente calculados, e a quantia não era modesta!

Tendo levado o Presidente a uma vistoria do rinque, apontei-lhe as tabelas danificadas e, em especial, o corrimão rachado e cheio de farpas, autênticas navalhas à altura dos pulmões duma criança que resvalasse por ele. Simpático como sempre e também preocupado, o Presidente deu-me carta-branca para resolver esses problemas.

Como o Presidente era simultaneamente Director dos Caminhos de Ferro, não pensei duas vezes e dei um salto aos Armazéns Gerais, onde o meu saudoso pai fora funcionário durante décadas, descobrindo barrotes de madeira com as dimensões necessárias para se afagar e produzir o corrimão. Com ar solene disse ao encarregado que separasse as peças que estava a medir e as pusesse de lado. Objectou que destinavam-se a outra coisa qualquer, mas insisti que as viria buscar no dia seguinte, com o devido papel. E assim foi. Com um transporte da Hidrografia e a autorização necessária, removeram-se os barrotes que foram alinhados ao longo do rinque à espera de montagem.

A certa altura lembrei-me da UFA, empresa de borracha e conhecendo uns dos seus directores, sugeri-lhe que se produzissem rodas para os patins. Não posso, dizia ele, isto é matéria-prima contabilizada. Resíduos, sugeria eu, ao que ele respondeu que havia um problema, o do molde para injecção, cuja produção era caríssima. Avancei que se era esse o problema eu resolvê-lo-ia.

Nos dias que se seguiram, como tinha jogos de rodas da Valcor, que sempre usei, retirei uma e media-a com o rigor dum topógrafo e preparei os desenhos necessários para a execução de um molde macho e outro, fêmea, com as especificações necessárias e visitei a Serralharia Mecânica dos Caminhos de Ferro.

Posteriormente voltei à UFA com os moldes e a empresa produziu dezenas largas de rodas que foram muito úteis para os patins que necessitavam de substituição. Claro que rachavam com facilidade, mas não custavam meticais e muito menos divisas. Esperava um dia convencer a UFA a fazer alguns testes, agora com intenção de aperfeiçoamento da produção dessas rodas.

Parei um dia na Carpintaria dos Caminhos de Ferro e vejam só o que consegui. Setiques para os miúdos! Não há madeira, dizia o Encarregado. Muito bem, como conhecia o Porto e os seus armazéns, descobri umas placas de madeira prensada, de 2 por 2 metros, utilizadas na descarga de volumes dos navios, amontoadas a um canto junto a um armazém.

No dia seguinte lá estava eu com o Unimog da Hidrografia, a carregá-las para a Carpintaria. Com o desenho dum setique júnior, criámos um modelo que utilizámos para encher as placas com silhuetas de setiques que a serra depois recortava. Os carpinteiros, velhotes que me conheciam de tempos antigos, surpreenderam-me sobremaneira.

Quando mais tarde fui ver o progresso, espantei-me com o mimo que eles trataram esta tarefa. À distância parecia uma resma de setiques igual às que via na Casa Lido, do meu tempo. Obviamente, partiam-se com facilidade, mas enquanto duravam, eram uma alegria nas mãos dos miúdos.

Como membro da Comissão Nacional, obtive da Secretaria do Desporto, uma credencial para entrar num edifício onde tinham sido armazenados toneladas de vestuário desportivo, oferta de países. Quando lá cheguei, acho que na companhia de Alberto Costa, já o mesmo tinha sido saqueado. Os fatos de treino foram-se mas consegui arrecadar, depois de muito vasculhar, calções, camisas, sapatilhas, meias longas e curtas que, na hora, transportei para a arrecadação do Clube.

Coroa de glórias! Também como membro da Comissão, visitei todos os armazéns do porto até encontrar o célebre caixote com 80 pares de patins que havia meses a Federação gabava-se de possuir sem saber onde. Levaram o mesmo caminho do vestuário e foram arrecadados na mesma arrecadação. Era minha ideia só distribui-los equitativamente pelos Clubes, se estes se comprometessem a manter o mesmo nível de organização que estava a introduzir no Clube Ferroviário.

– Trabalho irrisório, repito, mas foi o possível.

Segue parte 2



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7 Responses to Épocas 1978-81 – República Popular de Moçambique – parte 1

  1. Zé Carlos says:

    Estimado Xico:

    Em primeiro lugar agradecer-te por este excelente excerto publicado neste teu Portal; para mim, trata-se de documentacao historica com caracter investigativo, para alem de uma reflexao profunda sobre uma epoca, acontecimentos e situacoes que ainda hoje sao relevantes e significativas;

    Nao podemos avancar sem conhecer a historia e esta parte do teu trabalho aqui publicado, sera mais uma vez material p/analise, discussao, celebracao e comemoracao de factos passados, aqui prefeitamente descritos e registados;

    Nesta altura em que o hoquei em Mocambique esta a travessar uma fase dificil, numa altura em que hoje mesmo tomou posse uma nova Direccao da Federacao, encabecada por um dos membros que fez parte desta primeira Federacao a que te referes por ocasiao do Campeonato Mundial em S.Juan/1978, este teu trabalho constitui mais um incentivo e guiao para os actuais dirigentes;

    Relativamente a nossa participacao no Mundial em S.Juan/1978, estou inteiramente de acordo com a tua analise, confirmando a falta de uma tactica colectiva que nos pudesse ter ajudado a alcancar melhores resultados; para alem disso, o piso com que deparamos logo a nossa chegada e primeiro treino de adaptacao, seria uma outra contrariedade nao prevista, o que levou-nos a utilizacao de umas rodas improprias para um piso extremamente rapido e escorregadio a que nao estavamos habituados;

    Sem duvida que em todos os restantes aspectos de preparacao da equipa, houve um cuidado, muita atencao e planeamento ate ao pormenor em varias vertentes, incluindo ate aulas de Historia e Geografia sobre Mocambique, a partilha de experiencias por parte de anteriores participantes em Mundiais como foi a Palestra do entao Ministro dos Transportes Eng. Alcantra Santos, para alem de Palestras Politicas proferidas pela entao Ministra da Educacao, Graca Simbine (Machel e Mandela posteriormente);

    Nao ficamos em ultimo lugar como te referes a certa altura da tua analise, mas sim em penultimo, pois ainda vencemos o Japao por 10-1, unica vitoria registada ao longo dos 11 jogos disputados contra todas as equipas participantes em apenas 7 dias, uma verdadeira maratona a qual felizmente fisicamente estavamos preparados e fomos melhorando, ao longo da participacao, mas faltou-nos sempre um fio de jogo, uma equipa base, pois apesar de termos um Campeao do Mundo como nosso Treinador e Seleccionador, tal recurso nao foi suficiene; pena que nao tivesses tido a oportunidade de teres participado igualmente na preparacao directa da equipa, pois tivemos uma preparacao fisica cuidada atraves do Tome dos Santos, uma preparacao tecnico individual melhorada com o Fernando Adriao, mas nao tivemos tactica ou um simples modelo de jogo;

    A nossa despedida no Pavilhao do Malhangalene, onde tive a oportunidade de escrever e declarar o discurso da despedida, perante a presenca do Vice-Presidente da Frelimo Marcelino dos Santos, ficara para sempre na minha memoria e daqueles que presenciaram aquele espectaculo, pobre no jogo, mas rico e cheio de esperancas numa equipa que representava as aspiracoes de todos aqueles que acompanhavam o desporto e nao so, uma afirmacao nacionalista de um novo Pais e Nacao;

    O primeiro jogo do Mundial seria precisamente contra a antiga potencia colonial, Portugal e antes do jogo todos diziam que seria uma grande surpresa a equipa Mocambicana, sendo o nosso jogo o ultimo da jornada de abertura, perante mais de 12.000 espectadores que enchiam por completo o Estadio; acabou por ser mesmo uma surpresa e como ja perdiamos por 12-0 ao intervalo,o jogo terminou com pouco mais de 500 espectadores, tal a desilusao causada; no seio da nossa equipa, foi a confirmacao de que a nossa prepracao tinha sido sobre uma determinada optica, talvez mais politizada do que propriamente competitiva; no regresso o Presidente Samora Machel disse-me que tal resultado tinha sido a vinganca dos Portugueses,por termos mudao o nome de Lourenco Marques para Maputo,sua forma “sui generis” para minimizar efeitos negativos;

    Ja em relacao a todas as accoes que realizaste pela modalidade nesse periodo em que estiveste pela ultima vez em Mocambique, na altura eu estava mais focado na execucao e pratica da modalidade, pelo o que os aspectos organizativos e de formacao nao tiveram a minha atencao; nessa altura preocupava-me mais com os jogos e competicao em que participava, mas ainda me lembro de varioas aspectos que indicas no teu trabalho; algumas dessas accoes perduraram ate mais tarde, tal como a fabricacao de rodas e depois travoes, de caneleiras e joelheiras na Fabricampismo (em frente a Casa do Porto), assim como reabilitacao de campos e expansao da modalidadeem locais nao habituais (Matola, Xai-Xai, por exemplo);

    Penso que este trabalho que aqui apresentas pode muito dele ser ainda um guiao para o relancamento da modalidade e se me permites irei fazer uso desta informacao para a sua difusao no seio dos actuais actores no cenario Mocambicano e faco votos para que saibam aprender desta liccao hoquista, que mais uma vez como execelente Prelector que sempre foste, nos ofereces para que o hoquei em Mocambique, e nao so, possa progredir;

    Por tudo isto, o meu muito obrigado e votos de uma longa vida, pois reliquias vivas como tu, sao raras e merecem ser cuidadas e bem tratadas!

    Bem hajas Primo!

    (desculpa-me a falta de acentuacao,meu teclado e british!!)

  2. Velasco says:

    Caro Zé Carlos
    Isto é um poema a uma contribuição “irrisória”, que só poderia partir dum primo. Contudo agradeço-te, lembrando-te que estas recordações são parte de um processo de empenhamento e aprendizagem de minha parte, que não conseguiria em Universidade alguma. O sucesso dum treinador, repito, não se mede pelos títulos alcançados, mas sim pela capacidade que possui em causar, num determinado espaço temporal, mudanças qualitativas de vulto, não só na equipa de que é responsável como também em seu redor.
    Os próximos capítulos desta série, talvez abram as cortinas para a realidade dos obstáculos que os Treinadores enfrentam ao longo da sua carreira e que possam servir de alerta para as suas ilusões.
    Um abraço do primo.

  3. ricardo says:

    Geracao da Utopia e da Carolice…

    Conheci muito bem o Fernando Adriao e o seu filho Bruno que ainda joga na seleccao.

    Sobre essa ida a Argentina, penso que o articulista esta coberto de razao no que diz. Alem disso, em 1978, a unica coisa interessante que Mocambique fez com destaque na media argentina foi ameacar nao entrar em campo caso o Hino Nacional nao foi tocado. So nao percebi o que esteve por detras desse famoso episodio.

    Mas a malta do hoquei e assim. Passional e familiar. E quando se diz familiar e isso mesmo. O hoquei em Mocambique ainda tem expressao por causa de 3 ou 4 familias de resolutos praticantes. Ate parece malta do predio. Nada mais.

    Quanto aos campos para ensinar a patinar, bem…sao belos templos da IURD!!! E quanto aos patins…

  4. Velasco says:

    Caro Ricardo
    Desculpe-me o atraso na resposta. Por vezes perco-me mas seguramente que é minha intenção responder sempre aos comentários no meu Site. Neste seu caso, nada especial a referir. É como diz, Geração da Utopia e da Carolice. Mas tem sido sempre assim e continua a ser por todos os lados. As agremiações vivem de Carolas e Familiares, umas com mais recursos financeiros e materiais e outros com menos. O problema é que esses protagonistas transformam-se em pequenos feudos, cuja liderança inexperiente arroga-se ao direito de saber tudo e eventualmente só contribuem com problemas, resultado das suas agendas e interesses pessoais. Mas são eles que através da sua dedicação e persistência, mantêm a modalidade a funcionar e bem hajam por isso. A Utopia é visão que não devemos menos prezar, é algo no horizonte passível de ser alcançada, mas isso exige uma mudança de mentalidades, sempre possível, mas cuja superação é complicada pelo estado actual das sociedades.
    Quanto à ameaça de Moçambique não entrar em campo caso não fosse tocado o seu hino, o que acho bem, não faço a mínima ideia do que sucedeu. Terão os responsáveis de Moçambique levado uma gravação e entregue à Organização e esta não a encontrava? Tenho meios fidedignos de saber o que esteve por detrás desse incidente e voltarei a comentar sobre isso. Quanto à IURDE, não lhes falta dinheiro dos dízimos, para antecipar-se e comprar as superfícies que entendem.

  5. Victor de Sousa says:

    Gostaria de ver algumas fotos dos anos 83/84 quando nos jogavamos para o Mocambique Cricket. Agradecido envio os meus melhores cumprimentos.

  6. Velasco says:

    Caro Victor de Sousa
    Como o título do meu artigo mostra, refiro-me às Épocas 1978/81. Em finais de 1981 já estava na Europa, apesar de ter acompanhado o início da actividade do Moçambique Cricket. Contudo, se devassar o Blog de José Carlos Lopes Pereira, acho que encontrará fotos desses tempos. Basta fazer uma busca na Net, introduzindo o endereço abaixo mencionado.
    Boa sorte.
    «omeubairroferroviário.blogspot.com»

  7. Victor de Sousa says:

    Agradeco muito a sua resposta. Cumprimentos a todos aqui de Timor-Leste.

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