Preâmbulo

– Do Dicionário da Língua Portuguesa: mister s. m., ofício; mester. (Fr. ant. mestier ou prov. Menestier, do latim ministeriu).

– Do New Appleton Dictionary: Tomo Inglês/ Português: mister, SenhorTomo: Português/Inglês: mister, m. = Mr., occupation; trade; duty; job; work.

O treinador, Itália

Na minha carreira de treinador de quase trinta anos, a primeira vez que fui tratado por Mister foi aqui na Europa. Como me soava mal, desencorajei imediatamente esse anglicismo, (… o Mister é que sabe! ou… Mister, a que horas é o treino?), pedindo que o substituíssem pelo meu nome, no que fui sempre correspondido.

O mester (ocupação) de treinador tem muito que se lhe diga. O Mr., não passa dum minimalismo fracturante que formaliza e separa os interlocutores. No meu caso, registei que a atmosfera se desanuviava, ao eliminar esse tratamento, provocando uma maior descontracção e aproximação entre todos os elementos do grupo.

Curiosamente, anos atrás, labutando na África do Sul com um grupo de arquitectos, cometi o erro de tratar o meu patrão por Mr., o que todavia me parecia respeitoso e natural, uma vez que a língua falada era o inglês, em que “mister” corresponde ao nosso “senhor”. Quando ele entrava na sala e me abordava, pois trabalhava directamente com ele, com um expressivo e formal Mr. Velasco, provocando sorrisos coniventes dos meus colegas, fez-me desconfiar e descobrir que era o único que usava essa expressão, habituado que estava aos “canudos” dos “sr. doutor”, “sr. engenheiro” ou “sr. arquitecto”, tratamentos profundamente arreigados na nossa sociedade. Claro que se tornou mais agradável e íntimo o relacionamento quando, eventualmente, me adaptei e o tratei por Mark, seu primeiro nome, e ele replicou com o meu Francisco.

Não vou discorrer sobre como ser treinador, seria matéria para um manual extensivo. Como verdadeiro auto-didacta que fui, relatarei simplesmente as minhas experiências neste campo tão complexo. Como atleta / treinador das equipas de clube em que jogava, evitei dar instruções dentro do campo aos meus companheiros, a não ser indicações curtas no início e intervalo dos jogos. No final destes, se ganhássemos, jogando mal, ficava de semblante carregado, já a pensar no próximo treino mas se, pelo contrário, perdêssemos a jogar bem, acho que ninguém entendia a minha exuberância. Este paradoxo acompanhou-me durante toda a minha vida desportiva. A orientação e recomendações que ministrava e que não eram poucas, tinham sempre lugar durante as sessões de treino, visando eliminar, em especial, a exclamação que normalmente se ouve: “vamos ganhar, rapazes!” e substituí-la pela: “vamos jogar bem, malta!”.

Como atleta das Selecções Regionais e Nacionais, no decorrer das partidas ou antes, jamais me passou pela cabeça “mandar vir” com os meus companheiros, apesar da grande intimidade e amizade que nutríamos uns pelos outros. Os meus pontos de vista, em dois ou três casos invulgares, já relatados neste Site, foram sempre solicitados pelos responsáveis e emitidos com os meus colegas presentes.

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