Épocas 1963/65 – Sporting Clube de Lourenço Marques

Retorno à actividade

Prelecção antes do treino.

Uma vez de volta a Moçambique, depois de uma ausência de dois anos e meio em Timor e reintegrado na Brigada de Portos, aceitei o convite do Sporting de Lourenço Marques para treinar a sua equipa. Aceitei essa posição porque o Clube não tinha treinador, estando longe de mim a ideia de voltar a jogar, apesar de ter calçado os patins, numa reminiscência de tempos passados.

O plantel do Sporting seduziu-me, era constituído por atletas de grande qualidade, quase todos originários da escola do Padre Miguel, na Namaacha. O entusiasmo inicial foi grande, como sempre sucede quando um novo treinador aparece e os treinos foram decorrendo normalmente, até que a regra da Assiduidade e Empenhamento começou a ser violada, especialmente a primeira. Como alguns dos atletas, senão todos, já possuíam um estatuto semi-profissional, isso agravou mais a situação.

Por coincidência, antes de esse problema assumir proporções inaceitáveis, o Amadeu Bouçós e o António (Toninho) Rodrigues, deixaram o SNECI e vieram juntar-se aos “leões”, tendo eu feito a advertência que não mexeria na equipa que encontrara, por achar que eram duma geração nova que pretendia manter aglutinada. Tudo bem, tudo mal… pois apesar das boas intenções, os faltosos reincidiram e deixaram de ser convocados, com plena aprovação dos dirigentes da Secção que assistiam às sessões de treino e que passaram então a sugerir e a incitar que jogássemos nós.

Recorte de jornal

Sem outra alternativa, tanto eu, como o Amadeu e o Toninho, intensificámos a nossa preparação com os atletas que compareciam. Num esforço de recuperação mais intenso, participei dos treinos dos futebolistas e a formação resultante começou a dar cartas nas provas locais, para entusiasmo de todos. O trio que estava para não jogar, trouxe consigo aquele factor de entrega apaixonada, próprio dos atletas amadores, arrastando os que não eram e, a partir dessa renovação de última hora, as coisas processaram-se com outra alegria, sem grandes metodologias de treino, nas circunstâncias desnecessárias.

Não me recordo dos jogos realizados, não existem fotos dos acontecimentos, o que foi certo é que a imprensa local focava muito o meu regresso à actividade, facto que se repercutiu na Metrópole. O Seleccionador Nacional, Jesus Correia, veio a Lourenço Marques observar os atletas em competição, com vistas ao Campeonato do Mundo que ia ser disputado em Barcelona.

Jesus Correia, e eu assistindo a uma partida.

Antes de regressar, convocou formalmente o Moreira, o Carrelo, o Adrião, eu próprio e o Bouçós, que infelizmente teve de declinar por razões pessoais. O Abílio Moreira já estava em Portugal.

Nova ausência de um mês para integrar os treinos da Selecção, apontados para as provas Internacionais do calendário da Federação Portuguesa de Patinagem. A concentração teve lugar numa estalagem do Estoril, e os treinos realizavam-se no pavilhão dos Salesianos, sob o olhar sempre atento do Padre Miguel. A camaradagem entre os seleccionados foi como sempre de realçar apesar do estágio ter sido um tanto aligeirado e curto. Todavia, foi para mim um enorme prazer emparceirar pela primeira vez com o Livramento, esse não só extraordinário jogador como também leal companheiro, cheio de uma “raça” inigualável, como ficou demonstrado pela sua posterior carreira desportiva.

Mundial de 1964, em Barcelona - Fase de jogo contra a Itália - Eu e Livramento ao ataque.

Uma vez de regresso,  a nova época que se projectaria até 1965, começou de modo tranquilo, com o senão de me encontrar preocupado com o estado de coisas na minha actividade profissional.

Para quem tinha trabalhado dois anos e meio num ritmo acelerado, desejoso de manter a mesma passada nos Serviços, fui encontrar estes sem programas estimulantes, completamente paralisados, sem meios materiais para atacar problemas sérios ainda por resolver. Era ver o pessoal da Brigada, sediada no Porto, a marcar ponto e deambular pelas instalações, sem nada que fazer e, em face disso, foi-me fácil intuir que o meu futuro profissional seria afectado perante tal imobilidade diária a que estávamos sujeitos. Um ano foi demais!

Como nunca gostei de “levar desaforos para casa”, desloquei-me à Chefia da Divisão de Estudo, onde tive uma conversa franca com o Chefe, Engº Folques, por quem sempre nutri uma enorme simpatia e respeito. Chegámos a uma conclusão, num debate interessante e amigável sobre o estado da “nação”, isto é, dos Serviços, reconhecendo eu que o melhor seria partir para outra. Revelei-lhe então que seguiria para a África do Sul, assim que os Serviços me desvinculassem, a meu pedido, definitivamente.

Umas semanas depois viajava para Johannesburg à procura dum emprego real em empresa de nome, de modo a suportar o pedido de residência requerido. A Gold Fields of South Africa, colocou-me com topógrafo numa das suas minas de ouro, em Carletonville onde, pacientemente, penei um par de meses até o desejado BI de Residência Permanente chegar às minhas mãos. Quando isso sucedeu, regressei a Johannesburg, a “City of Gold”, empregando-me na firma Basil Powell & Architects, o que constituiu um desafio diferente, mas acessível, dados os meus conhecimentos de construção e fiscalização de obras e domínio do desenho, acabando por aprender muito nesta área e acumular boas referências, que me mantiveram na Arquitectura durante cinco anos.

O aparte supra, pretende simplesmente lembrar aos vindouros sejam eles Atletas ou Treinadores, que como agentes desportivos, por mais títulos conquistados, nada podem esperar de quem quer que seja, a não ser situações transitórias. Mesmo os que praticam o desporto, alimentados por subsídios relevantes, deverão cuidar dos seus estudos e da sua formação profissional, ao limite, como escudo para as ilusões que frequentemente caiem por terra.

Alguns companheiros do Sporting, especialmente o meu amigo Toninho, anda hoje me recorda o lamento que proferiu quando parti para o País vizinho:

– Agora que iámos ganhar o Campeonato Distrital… vais-te embora?!!!

Como nota interessante, não podia deixar de registar o seguinte:

No meu primeiro jogo, contra o Ferroviário, antes do apito inicial, o acolhimento prestado pelo Fernando Adrião, na pista, em nome dos demais jogadores, foi uma sensação inesperada que calou fundo.

O acolhimento, antes do início do meu primeiro jogo após o interregno, curiosamente contra o meu ex-clube Ferroviário. No primeiro plano, da esq. Amadeu Bouçós, Alberto Moreira, Manuel Carrelo e o Fernando Adrião, a regalar-me com uma placa comemorativa, sob o olhar sério de António Borges.

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3 Responses to Épocas 1963/65 – Sporting Clube de Lourenço Marques

  1. Vitor Basto says:

    Vi este site hoje, desconhecia a sua existência. Fiquei fascinado pelo facto de haver alguém (leia-se Velasco) que tenha feito isto. O Sporting de Lourenço Marques no seu melhor. No Hóquei, no Básquete e no Futebol. O recordar Velasco, Bouçós, Moreira, Mário Albuquerque, Nelson Serra, (aqui vai outro, Tayobe) e muitos outros, nas diferentes modalidades, é o reviver o passado, deste FAN do Sporting LM, que na altura era um “puto”, mas hoje com 52 anitos, acabou de ter um Grande Prazer em reviver estes anos. Grande Abraço.

  2. Velasco says:

    Caro Vítor Basto
    Obrigado. Saber que um Site mexe com alguém é sempre remunerador para quem lhe deu forma, pois a ideia foi registar e provocar lembranças de um passado que de outro modo se perderia com o rolar dos anos. Uma vez que gostou de reviver esse período da nossa História moçambicana, sugiro que visite os sites The Delagoa Bay Company, Rogertutinegra e Xirico, que com imensa paixão e trabalho, produziram obras ciclópicas sobre Moçambique, abarcando todas as modalidades desportivas.
    Retribuo o abraço, desejando-lhe uma boa viagem ao passado.

  3. Alexandre Fumo says:

    Foi com orgulho e prazer ler esta pagina do grande HOQUISTA Francisco Velasco, me enche de emocao por saber que os grandes nomes do Hoquei andam por estas partes a dar seu testemunho sobre o que foi o maior viveiro do Hoquei do Mundo, estou muito emocionado quando soube do lado do indico residia o maior viveiro desportivo de Portugal e do MUNDO desportivo! Uma lagrima no canto do olho

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