1957/1967 – O apogeu do hóquei moçambicano – parte 5 – Carrelo dixi

X ANIVERSÁRIO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DO HÓQUEI EM PATINS DE MOÇAMBIQUE

Manuel Carrelo

«Apresentação desnecessária

Entre outras, este boletim tem a finalidade de levar aos novos algum conhecimento sobre o prestígio que o hóquei moçambicano alcançou no campo internacional, e fazer recordar aos mais antigos, alguns aspectos que, talvez, o passar do tempo tenha feito esquecer.

Ninguém melhor que os próprios intervenientes nas memoráveis partidas internacionais que tornaram conhecido e respeitado o hóquei em patins de Moçambique, poderia fazê-lo…

As páginas que se seguem constituem um testemunho de muito interesse dos maiores hoquistas que Moçambique já teve».

Sem esquecermos José Vaz Guedes, também em página do mesmo boletim.

(Excertos de edição de Produções Golo, 22 de Maio de 1967)

Procurámos o Manuel Carrelo, mas o Manuel era difícil de encontrar.

Para não deixarmos de publicar aqui, a história de um dos maiores nomes do hóquei nacional, deixámos recados, aqui e acolá, e às tantas tivemos a compensação: tínhamos o homem à nossa frente e não o largámos antes de nos ter contado a sua história. Fê-lo de bom grado, e com a simplicidade de quem relata apenas alguns acontecimentos sem importância.

No entanto eles constituem a história dum grande desportista e dum ídolo dos rinques nacionais e até da Europa, que ainda não disse tudo o que tinha para dizer, para glória do desporto português.

Eis o que o Manuel nos disse:

«Nasci em Oeiras. Quem fala em Oeiras, fala em hóquei pois o hóquei em patins pertence tanto à paisagem de Oeiras, quanto o Ski pertence à de Saint Moritz. Não é, pois, para admirar que eu tivesse escolhido o hóquei entre outras práticas desportivas. Não é, pois, para admirar que eu tivesse escolhido o hóquei entre outras práticas desportivas. Tinha os meus nove anos quando dei os primeiros trambolhões em cima dos meus primeiros patins. Meu irmão Acúrcio era então empregado no rinque de patinagem de Oeiras, e eu valia-me desse privilégio, para de vez em quando dar umas voltinhas.

Quanto ao hóquei, só o jogava na rua, os sticks eram paus e as balizas duas pedras que o adversário constantemente deslocava, provocando intermináveis discussões à volta da validade dos golos marcados. No fim, vinha a inevitável zaragata, e o jogo ficava interrompido. Mas no outro dia recomeçávamos e o hóquei nos meus nove anos era isto. Outra das mais fortes razões para o meu entusiasmo pela modalidade, foram os jogos que eu assisti no rinque de Oeiras, onde tive ocasião de apreciar os melhores valores do hóquei nacional de então.

Assim, na rua, quando fazíamos os nossos desafios, com sticks improvisados, no nosso mundo de “faz de conta”, um era o Emídio, outro, o Edgar, outro, o Raio, etc., e posso dizer em verdade, que a minha paixão pelo hóquei começou aí. Mais tarde já não era um sonho, e o grupo que jogava na rua, começou a ensaiar os seus primeiros passos, dentro do rinque de Oeiras. Os treinos eram a nossa maior alegria, e não consta que alguém do nosso grupo de miúdos tivesse faltado alguma vez. Pelo contrário, os treinos começavam às nove da noite, e quando eram seis, já lá estávamos todos.

Quando se formou a primeira equipa, como eu era o mais novo, tive que esperar um ano, para ingressar nos juniores. Foi um ano de cólicas na bancada, a ver os meus amigos jogar. O tempo passou, ingressei na equipa e a nossa primeira presença num torneio oficial trouxe-nos um segundo lugar. Foi o Campeonato de Lisboa. Nada mau para quem começa. Voltámos aos treinos com mais ardor que nunca e nesse mesmo ano ganhámos o Campeonato Nacional.

Veja agora: dessa modesta equipa de garotos, dois deles foram chamados à Selecção Nacional: eu e o Nogueira que ainda hoje joga no Benfica. E olhe que no Campeonato da Europa que ganhámos, foi o melhor marcador da equipa. No ano seguinte a mesma equipa de Oeiras ganhou os campeonatos de Lisboa e Nacional, e ainda nesse mesmo ano, em festivais desportivos, ganhámos treze taças. Ainda hoje, em Oeiras, se fala nesse conjunto com bastantes saudades e não há dúvida que foi uma “pequena-grande” equipa.

No ano seguinte deixei Oeiras e vim até esta encantadora terra para me encontrar com o meu irmão Acúrcio que, entretanto, tinha vindo para aqui. Quando cheguei, em 1955, tinha idade para jogar nos juniores, mas comecei logo nas primeiras categorias.

Em 1957 comecei de novo sentir o gosto pelas grandes vitórias. Primeiro, quando os espanhóis vieram a Moçambique. No primeiro jogo que fizeram com o Ferroviário, pensando que a coisa seria fácil, tiveram que suar para nos ganharem por 4-3. Para nós a coisa teve o gosto duma vitória, senão veja: uma simples equipa dum clube perder por 4 a 3 com os Campeões do Mundo! Foi quase como se tivéssemos ganho.

Nesse tempo, na nossa equipa, já jogava esse extraordinário jogador que se chama Velasco, e que foi, por assim dizer, o obreiro desse sucesso. Ainda em 1957, fui com a Selecção de Lourenço Marques a Lisboa e ao Porto, e de todos os jogos que disputámos, só perdemos um, em Lisboa. Parece-me que fizemos uma bonita figura, não é verdade?

No ano seguinte foi o Torneio de Montreux, no qual a equipa portuguesa era totalmente constituída por jogadores de Moçambique. Ganhámos o Torneio, e posso dizer-lhe que essa foi uma das minhas maiores alegrias.

Em 1959 fui com a Selecção Nacional a Genebra disputar o Campeonato da Europa, que, como se sabe, ganhámos também.

Em 1962, quando o Ferroviário foi disputar o Campeonato Nacional, trouxemos a vitória para Lourenço Marques, e foi esta a primeira vez que o título veio para Moçambique. Para completar o quadro, dir-lhe-ei que ainda ajudei a minha equipa a ganhar três campeonatos de Lourenço Marques e dois Provinciais.

E aqui tem, em meia dúzia de linhas, a minha história no hóquei em patins. No campo internacional, participei nas seguintes provas:

1 Campeonato da Europa em Juniores;

2 Torneios de Montreux;

1 Campeonato da Europa em Séniores;

3 Torneios Internacionais de Lourenço Marques;

1 Campeonato do Mundo.

Ao todo, fui 26 vezes internacional»

Esta é a história da carreira desportiva de Manuel Carrelo, contada em poucas palavras, como ele disse. Mas, sem sombra de dúvidas ela é, também, a história de um verdadeiro campeão.

E verdadeiro campeão foi, além de grande amigo e companheiro de equipa do Clube Ferroviário, durante quatro anos e meio, bem como das selecções de Lourenço Marques, de Moçambique e da Selecção Nacional. Foi com imenso prazer que desloquei-me de Johannesburg a Lourenço Marques a fim de participar na sua mais que merecida Festa de Homenagem e despedida, realizada em 25 de Outubro de 1971, no Pavilhão do Sporting Clube de LM.

A medida da amizade que os seus colegas sempre demonstraram por ele, está reflectida na seguinte foto onde, infelizmente, o homenageado não aparece, e no facto de José Vaz Guedes e António Livramento terem viajado de Portugal para abrilhantarem o evento.

De pé, da esq. - Os então capitães Diniz e João Manuel da F. Nunes e Sena, bons e sérios amigos, Velasco, Adrião, Bouçós e o massagista Trindade. Agachados: - José Vaz Guedes, Francisco (Chico) Gonçalves, José Pereira e António Livramento.

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