1957/1967 – O apogeu do hóquei moçambicano – parte 3 – Bouçós dixi

X ANIVERSÁRIO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DO HÓQUEI EM PATINS DE MOÇAMBIQUE

Amadeu Bouçós

«Apresentação desnecessária

Entre outras, este boletim tem a finalidade de levar aos novos algum conhecimento sobre o prestígio que o hóquei moçambicano alcançou no campo internacional, e fazer recordar aos mais antigos, alguns aspectos que, talvez, o passar do tempo tenha feito esquecer.

Ninguém melhor que os próprios intervenientes nas memoráveis partidas internacionais que tornaram conhecido e respeitado o hóquei em patins de Moçambique, poderia fazê-lo…

As páginas que se seguem constituem um testemunho de muito interesse dos maiores hoquistas que Moçambique já teve».

Sem esquecermos José Vaz Guedes, também em página do mesmo boletim.

(Excertos de edição de Produções Golo, 22 de Maio de 1967)

O primeiro stick que teve foi um chapéu-de-chuva sem varetas. Com ele marcou o seu primeiro golo num desafio contra o futuro, ganhou uma taça chamada “Alegria”, e nessa noite deitou-se campeão, pela primeira vez. Tomou balanço e só parou quando já não podia acrescentar mais nada ao seu “palmarés”. Tinha então os seus dez anos e já se chamava Amadeu Bouçós, mas ninguém sabia o seu nome.

«Todas as histórias têm um princípio. A do Amadeu foi esse: um cabo de um chapéu-de-chuva. O seu primeiro stick. Falemos agora do resto do equipamento, que, bem vistas as coisas, faz tanto parte da sua história como a última Taça da Europa, que ajudou a conquistar. Os seus primeiros patins eram o resto de qualquer coisa que alguns anos antes merecera esse nome. Não tinha esferas, e era preciso atá-los aos sapatos com arames. Também não tinha bola. Só tinha vontade. E a coisa resolveu-se com mais um improviso qualquer, onde mais uma vez se desenhava o estofo dum futuro campeão. Era apenas o princípio.

Entre outras coisas que levaram o Amadeu a escolher o hóquei, conta ele que, quando em 1949 os Campeões do Mundo visitaram a nossa cidade, foi ver os jogos da bancada. Os resultados não pecavam por falta de expressão: 29-0, 30-0, etc… etc. Entretanto o Amadeu sonhava, roía as unhas e gravava para sempre aquela extraordinária emoção que a velocidade do jogo deixa nos espectadores. Provavelmente fez as suas contas e chegou à conclusão que se tivesse um stick a sério, em vez dum cabo de chapéu-de-chuva, talvez fosse capaz de fazer algumas coisas. O futuro disse que sim e parece que de facto, algumas coisas aconteceram.

Após a visita dos Campeões em 1949, Bouçós já com o stick nas mãos, começa a praticar hóquei com regularidade, nunca deixando de comparecer a um treino do SNECI, debaixo da orientação do então treinador Armando Lima de Abreu. Foi aí que se começou a desenhar o futuro campeão, e foi então também que o seu nome passou a ser conhecido. O resto da história, foi escrita por ele nos rinks de todo o mundo. E quantos de vós, leitores desta curta biografia, não deverão ao Amadeu momentos de indizível alegria, quando o relator gritava da Suíça, da Espanha ou do Chile: – gooooooolo, golo de Portugal, golo de Bouçós!…

O primeiro torneio em que participou foi em 1957, em Lourenço Marques, contra a Selecção de Barcelona. Vitória sobre os espanhóis por 5-1. Em 1958 foi convocado para Montreux onde os portugueses conquistaram a “Taça Lusitânia”. Nesse mesmo ano, Bouçós faz no Porto, o seu primeiro Campeonato do Mundo, donde os portugueses saíram vencedores. Nos anos seguintes faz os campeonatos alternados da Europa e Mundo, até 1964. Participa em duas Taças Latinas, um Torneio de Amizade e mais um Torneio de Montreux em 1963. Por fim, participa no último Campeonato do Mundo, realizado no Brasil em 1966. E quando lhe perguntámos quantas tinham sido as suas internacionalizações, respondeu-nos que ao certo, não sabia, mas que deviam andar aí por mais de oitenta. Não nos admirámos. Fizemos a Bouçós esta pergunta:

Quais os factos mais relevantes da sua carreira desportiva?

– Eles são tantos… já não têm conta !!!

«Nestes anos todos, quem não tem algo para lembrar? Mas claro, existem factos, que não poderei esquecer: a nossa primeira vitória no Torneio de Montreux, em que na primeira parte perdíamos com a Selecção de Espanha por 2-0 e fomos ganhar por 4-2; a minha primeira vitória no Campeonato do Mundo, etc., etc. … E quando em 19 de Maio de 1960 o Chefe do Estado me galardoou com a medalha de Mérito Desportivo. Numa vida desportiva como foi a minha, há sempre histórias para contar. E elas foram tantas. Só queria poder escrever esses retalhos da vida que vivi aquando jogava. Infelizmente, além de não o conseguir, pois seria incapaz de pôr em palavras o que foram as passagens por todas as cidades que vi e vivi, não sou pessoa que tenha paciência para tal. Assim, que hei-de contar?…

Quando disputámos o Campeonato do Mundo em Madrid, a meu pedido, fizemos o trajecto de regresso de autocarro (sempre é mais seguro que um avião), e poder descrever a nossa recepção em Lisboa, depois duma vitória na final com a Espanha por 3-1, é totalmente impossível. Desde que entrámos em Portugal, o que foi o nosso trajecto até Lisboa, com todas aquelas passagens onde a gente portuguesa, duma maneira ou doutra, nos exprimia o seu contentamento, será impossível descrever. Em Lisboa chovia miudinho, e todos os desportistas que nos esperavam na Praça do Marquês de Pombal, não arredaram pé, até que o autocarro chegou.

Infelizmente ou felizmente, a Federação não deixou o autocarro ir até à Praça, e ficámos num hotel, na rua Sidónio Pais. Disse infelizmente ou felizmente, porque, por um lado, foi pena para quem lá esteve, debaixo de chuva, para nos mostrar o seu contentamento; infelizmente porque mesmo sem termos ido à Praça do Marquês, a gente era tanta que o autocarro ia a dez quilómetros à hora, pois puseram-se à frente e não podíamos andar. Depois começaram a saltar para cima do autocarro, e não lhe digo nada, o tejadilho começou a ceder, e foi uma sorte nós sairmos logo, pois de contrário, este seu amigo era capaz de sair amachucado daquela situação. Esta recepção, jamais a esquecerei, por muitos anos que viva, pois quase nos fizeram convencer que éramos uns heróis só porque tínhamos ganho mais um Campeonato do Mundo.

Tenho, contudo, a impressão que só o facto de praticar o hóquei em patins, já constitui um facto de interesse. No entanto existe sempre algo que nós lembramos com mais saudade. Lembro-me com saudade do Campeonato do Mundo que disputámos no Chile, onde mais uma vez saímos vencedores. Além de termos sido bem recebidos, vivi ali momentos que jamais esquecerei. Depois de termos ganho o Campeonato, nessa mesma noite, íamos, eu e o Adrião pela rua, já altas horas da noite, quando uma Chilena (Amadeu Bouçós disse que era um Chileno… mas nós fazemos justiça à verdade) nos reconheceu e nos convidou a tomar um café num bar, dizendo que na sua família tinha existido um português e que ela muito se orgulhava desse facto. Tomámos o café, convidou-nos a ir a sua casa, que era no campo, bastante longe dali.

Nessa altura já estávamos nas 2 ou 3 horas da madrugada. E lá fomos! O que foi em passeio, o que foram todas as atenções daquela família, é um pormenor que jamais poderei esquecer. São estes e muitos outros pormenores que nos levam a olhar para esse passado com bastante saudade e mágoa, e dizer baixinho:

Ó tempo! Volta p’ra trás! …»

O tempo não volta para trás! Mas não importa, quando o tempo que passou foi aproveitado em algo de bom e útil.

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