1957/1967 – O apogeu do hóquei moçambicano – parte 1 – Moreira dixi

X ANIVERSÁRIO DA INTERNACIONALIZAÇÃO DO HÓQUEI EM PATINS DE MOÇAMBIQUE

Alberto Moreira

Apresentação desnecessária

Entre outras, este boletim tem a finalidade de levar aos novos algum conhecimento sobre o prestígio que o hóquei moçambicano alcançou no campo internacional, e fazer recordar aos mais antigos, alguns aspectos que, talvez, o passar do tempo tenha feito esquecer.

Ninguém melhor que os próprios intervenientes nas memoráveis partidas internacionais que tornaram conhecido e respeitado o hóquei em patins de Moçambique, poderia fazê-lo…

As páginas que se seguem constituem um testemunho de muito interesse dos maiores hoquistas que Moçambique já teve».

Sem esquecermos José Vaz Guedes, também em página do mesmo boletim.

(Excertos de edição de Produções Golo, 22 de Maio de 1967)

Alberto Moreira foi (e é) um dos muito grandes moçambicanos do hóquei em patins nacional. Todos os conhecem e seria ocupar espaço desnecessariamente, pretender dizer algo sobre um dos maiores guarda-redes que Portugal conheceu, na defesa das balizas da selecção nacional. Deixemos por isso que ele nos conte parte da sua vida desportiva com o sabor que a recordação empresta à narrativa:

«O contacto diário com a rapaziada do parque José Cabral e do SNECI, foi a principal razão do começo da minha paixão pela prática desta modalidade.

«Tudo começou por volta de 1948. Éramos muitos rapazes; uns do Sport Lisboa e Parque, entre eles, eu, o Cabral, o Garradas e o Manuel Souto e outros do SNECI, o Velasco, Bouçós, irmãos Souto e Vicentes, o Zito e o Luciano. Mais tarde, começámos a praticar quase todos, no SNECI e no Desportivo.

E pode dizer-se que o hóquei a sério começou em 1949, quando fomos visitados pelos Campeões do Mundo. Aprendemos muito a ver e… ganhámos ainda mais entusiasmo! Torneios em que tomei parte?…  Foram muitos e muitos também me deixaram gratas recordações. Vou recordá-los e… reviver alguns.

Em 1957, a minha primeira grande prova foi com a presença da selecção da Catalunha. Depois, a digressão pela Metrópole, com participação na Taça Latina e Taça Amizade. No ano seguinte, 1958, portanto, tomei parte na Taça das Nações, Campeonato do Mundo e Taça Latina. Em 1959 foram só duas, as provas internacionais em que participei: taças Latina e Amizade. Até 1965, e em representação nacional, tomei ainda parte nas seguintes provas:

1960: – Taça das Nações, Campeonato do Mundo e Taça Latina;

1961: – Campeonato da Europa e Taça das Nações;

1962: – Campeonato do Mundo;

1963: – Taça das Nações e Campeonato da Europa;

1964: – Campeonato do Mundo;

– 1965: – Campeonato da Europa.

Pela selecção de Lourenço Marques fiz imensos jogos e confesso que me seria difícil citar todos, além de que me tornaria enfadonho. Os factos mais frisantes da minha vida desportiva foram a conquista do Campeonato do Mundo que, como devem calcular, me encheu de alegria e também o ter sido escolhido para a selecção do Mundo que defrontou a Espanha em Madrid. Lembro-me perfeitamente do resultado, como é natural: empatámos a dois golos! Tive 81 internacionalizações e através delas tenho muito gratas recordações. Umas vividas com Maios intensidade do que outras mas, de qualquer forma, todas deixam imensas saudades.

Mas antes de ser “gente”, no hóquei, também tenho episódios, que recordo com saudade. Por exemplo, recordo-me quando em 1949 os campeões do Mundo de então, Correia dos Santos, Emídio Pinto, Velez e outros visitaram o parque José Cabral, eu e os meus companheiros fazíamos “tudo” para dar nas vistas e impressionar os nossos ídolos. Podem calcular como me senti quando o Emídio referindo-se a mim, disse: – “este miúdo tem jeito para esta coisa”Era o Emídio, o melhor guarda-redes do Mundo que estava a falar! Nesse dia quase não consegui dormir, tão grande foi a excitação provocada pelo que senti! Que saudades isso me faz agora! Mais tarde, o Emídio Pi8nto, como seleccionador nacional, escolhia-me para defender as balizas da Selecção Portuguesa, em Bolonha, onde fui considerado o melhor guarda-redes do Mundo! Coincidência feliz que relaciono com um momento muito feliz, quando mal pensava o que viria a ser a minha colaboração no hóquei em patins nacional!

Pediram-me para resumir e, por isso, terei mesmo, pois que, se começasse a desbobinar as minhas recordações não sei onde iria parar. Aliás, o mesmo deve acontecer com os outros. Vou, portanto, fazer um breve apanhado, do que foi a minha actividade desportiva, no hóquei em patins:

– Aprendizagem (SNECI e parque José Cabral) que teve decisiva influência na paixão que criei por esta modalidade;

– A ida à Metrópole, do SNECI e da selecção de Lourenço Marques;

– O começo da internacionalização em 1957 e a felicidade de ver dirigentes que me souberam amparar nos momentos difíceis e muito me ajudaram nas crises de baixo de forma. Foi o seu crédito nas minhas possibilidades e a confiança que constantemente me testemunharam que tiveram larga e poderosa contribuição sobre mim, permitindo-me manter num nível bastante alto, e força moral e de autoconfiança. Não posso deixar passar esta oportunidade sem mencionar dois nomes que ligo aos meus êxitos: Joaquim Saraiva e Tito Moreira Rato. Para eles, aqui vai o meu agradecimento público;

– Por último, o período final, os últimos três anos da minha carreira desportiva como hoquista. Foram três anos de constante trabalho, a procurar manter-me em forma. Para isso quase era obrigado a treinos diários, pois ia para o rink observar este e aquele jogador, com o fim de conhecer como atiravam, quais as suas características e como poderiam ser neutralizados, enfim, um sem-número de pormenores que me obrigavam a muito estudo. Fui muitas vezes para o rink estudar ângulos de golo e as respectivas posições para os evitar e houve uma altura que quase sabia para onde iria a bola quando um jogador entrava na área para rematar.

Mas, mesmo assim, apesar de toda a minha vontade, eu senti que cada vez era mais difícil corresponder à confiança que depositavam em mim. Eu não podia ser desleal, nem tão-pouco enganar-me a mim mesmo. E por isso decidi abandonar na altura que considero a melhor, para um desportista dar lugar a outro. Quando ainda tem prestígio, quando sente que não o julgam a mais, que não está viver à custa de um nome que… não chega para evitar golos, antigamente defensáveis.

Eis aqui um breve resumo da minha carreira de hoquista. Felicito a Associação de Patinagem por esta iniciativa, não pela homenagem que entendeu prestar-nos, mas porque tenho muitas esperanças que através dela, a juventude de Moçambique, afinal igual ao que todos nós fomos, venha a interessar-se, com dedicação e entusiasmo por uma modalidade que tanto nos prestigiou e tão alto levou o nome de Moçambique.

Que surjam muitos novos e que eles possam ir muito mais além do que nos foi dado, a nós – os da hoje já velha guarda – alcançar!»


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3 Responses to 1957/1967 – O apogeu do hóquei moçambicano – parte 1 – Moreira dixi

  1. Albano Silva says:

    Se passar por aqui …

    Que é feito de si ? que saudade das nossas longas conversas… pf contacte !

    um grande abraço

  2. Para o Senhor Moreira – Jamais esqueço em dias da minha vida, as suas participações, no S.N.E.C.I. e na selecçaõ moçambicana e na Portuguesa. Também não esqueço as palavras de um conceituado jornalista luso, hoje desaparecido, mas que me ficaram gravadas com mágoa, pela injustiça, – Quem são estes estrangeiros a jogar por Portugal. De um menino de 76 anos, com os desejo de tudo do melhor, António.

  3. Velasco says:

    Caro António H.A. Monteiro

    Permito-me intervir pois não sei se o Moreira lê este meu site e como não tenho estado com ele não existe maneira de lhe passar o seu comentário.

    A sua admiração pelos hoquistas de Moçambique é notória mas tenho de registar que nos meus recortes de jornais arquivados, todos os conceituados jornalistas que nos acompanharam jamais proferiram a frase que citou. Antes pelo contrário, sempre elogiaram as nossas prestações pela Selecção Nacional (de que fiz parte durante 9 anos) e, curiosamente, tornaram-se todos amigos pessoais que se respeitavam mutuamente. Nunca houve estrangeiros na Selecção, todos éramos Portugueses, uns de cá e outros de lá…

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