1960 XIV Campeonato do Mundo – Madrid

Esta competição teve lugar no magnífico Pavilhão de Desportos da capital, cujo rinque era circundado por uma pista em “relevé” para corridas de bicicletas “in-doors”, a partir da qual se dispunham dois andares de bancadas com uma capacidade, dizem, para 14 a 16 mil espectadores.

Sob a liderança de António Raio, o “Dr. Raio” como carinhosamente o tratávamos, coadjuvado por Cipriano Santos, iniciámos a preparação da praxe, com um estágio na Malveira e deslocações diárias ao pavilhão de Lisboa para os treinos da Selecção.

Partimos para a Suíça a fim de participar no Torneio de Montreux, cujos detalhes são omissos nas minhas fontes, com excepção das fotografias que apresento.

Seguidamente, teve lugar a viagem para Madrid, que foi feita em auto-carro. Se bem me lembro, o Vaz Guedes foi autorizado a deslocar-se no seu Mercedes 300SL, cujas portas se abriam como se fosse um pássaro. Fascinado, saltei imediatamente para o lugar do passageiro e lá fomos, com específicas instruções dadas ao meu colega para não se afastar da comitiva.

Instalados no Hotel, fomos aguardando pelo início da prova e, com o decorrer dela, o nervosismo miúdo instalou-se, não só pelo decorrer dos jogos, como pela observação das actuações do nosso adversário directo. A Federação Espanhola organizou pela primeira vez, uma prova deste quilate na capital, com o intuído, acredito eu, de incentivar a mesma à prática da modalidade até então altamente concentrada na região da Catalunha. Prepararam-se com um empenho especial, reportado na Imprensa e que chegava até nós, mesmo quando em Moçambique.

Todavia, acabámos por vencer todos os jogos, com os seguintes resultados: Itália (3×2), Bélgica (5×1), R.A.U. – República Árabe Unida (14×0), Holanda (7×1), Argentina (8×1), França (3×0), Inglaterra (10×0), Alemanha (8×3), Espanha (3×1). De notar que a Argentina nesta sua primeira participação, ficou em 3º lugar.

Este foi o primeiro Mundial ganho por Portugal no país vizinho. Não ficaram dúvidas que o conquistámos merecidamente, tendo havido, inclusivamente, por parte dos espectadores que sobrelotaram o Pavilhão, uma ovação genuína endereçada à nossa Selecção, durante o encerramento da prova, aquando da atribuição dos troféus.

Ouvir o nosso hino ser tocado e cantado por duas centenas de portugueses que se encontravam dispersos pelas bancadas rodeados por milhares de “hermanos” é algo que não se pode explicar. Tem de ser sentido!

Mas o que estava para vir, a recepção absolutamente apoteótica de que fomos alvos no regresso, mal ultrapassámos a fronteira, foi demasiado inesperado deixando-nos completamente surpreendidos. Há dias, num almoço, em conversa com o meu companheiro Bouçós, ele relembrou-me esse acontecimento que foi dos mais marcantes não só da sua vida como de todos nós que a vivemos. E fê-lo duma maneira tão detalhada e emocionante que lhe vou pedir que a repita para memória futura. Não sei se terá tempo para isso, mas vale a pena tentar.

De regresso a Lisboa, assim como estava previamente acordado com a Federação Portuguesa de Patinagem, esta, com uma eficiência incrível, organizou a minha Festa de Despedida no Pavilhão dos Desportos, pequeno demais para a multidão que acorreu, parte da qual não conseguiu entrar. Foi uma manifestação de calor e carinho para com a minha pessoa que, diga-se de passagem, nem por sombras poderia imaginar e que calou bem fundo.

Emocionado, tive ocasião de agradecer a todos presentes, individualidades, federativos, delegações de clubes, patinadoras, e aos meus companheiros destas lides, os mimos que me foram ofertados. O “Fica, Velasco!”, que reverberou no Pavilhão, repetidas vezes, demoliram-me interiormente. Bem desejaria…

Mas os problemas que se põem a um atleta amador que se entrega apaixonadamente à sua modalidade, dando tudo de si, ano após ano, teria de ter um fim, pois a profissão que escolheu não deve ficar refém da prática desportiva e há que cortar o cordão.

Contudo, a homenagem com que me privilegiaram aos 25 anos de idade, naquela noite de 19 de Maio, fizeram-me entender que os esforços, os sacrifícios e a violência de 10 anos ininterruptos de entrega ao Hóquei em Patins, dos quais 5 a nível internacional, tinham sido reconhecidos e por isso direi:

VALEU A PENA!

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21 Responses to 1960 XIV Campeonato do Mundo – Madrid

  1. mjstreet@tropical.co.mz says:

    Muitos Parabéns Tio pelo belo trabalho que cuidadosamente preparaste. Para além de um Grande, Completo, Apaixonado hoquista, tenho a certeza que nunca mais houve outro tao bonito e elegante como tu. Desta sobrinha orgulhosa que já mostrou o site aos seus filhos. Muitos beijinhos para ti.

  2. Velasco says:

    Queria Maria João
    Obrigado pelos teus parabéns. Os excessivos elogios é que me deixam corado! A ideia do preparo deste Site, foi deixar aos vindouros a história duma época empolgante que seria um crime se esfumasse com o andar dos anos.
    Se já o mostraste aos teus filhos terás que lhes comprar patins pois senão ficam a chuchar no dedo e nunca saberão o prazer que é rolar sobre rodas.
    À minha “sobrinha orgulhosa”, umas beijocas e saudades ao resto da família.
    Tio amigo

  3. Boa noite,

    Estou a ultimar um livro sobre a história dos campeonatos do mundo de hóquei em patins, que pretendo lançar em Setembro próximo.

    Estou na fase de ultimar e confirmar dados, para enviar para os designers. Em relação ao Campeonato de 1960, Madrid, segundo o que recolhi, o Francisco Velasco terá marcado 21 golos. O Ferruccio Panagini (Itália) marcou, pelo menos 16. Sabe-me esclarecer quem foi o melhor marcador deste Mundial? A minha dúvida prende-se com jogadores não portugueses nem espanhóis, pois nos jornais as informações disponíveis quanto a esses são escassas.

    Agradecendo antecipadamente a sua colaboração preciosa,

    Com os melhores cumprimentos

    Fernando Castro

  4. Velasco says:

    Caro Fernando Castro

    Boa noite. Gostaria na verdade de poder ajudá-lo no que se refere ao melhor marcador deste Mundial de 1960. Com excepção do Torneio de Montreux de 1958 em que me atribuíram uma taça de melhor marcador, não possuo outros registos dessas marcas.

    Uma coisa posso dizer é que no Mundial de 1960, Portugal marcou 61 golos (eu não sabia que tinha marcado 21), a Espanha 56, distribuída do seguinte modo, de acordo, com um Anuário Espanhol, Puigbó 16, Parellá 11 e por aí abaixo. Ora, como a Argentina, 3ª classificada e a Itália 4ª, marcaram respectivamente 34 e 33 golos e eu não ter nenhuma lembrança de que a taça do melhor marcador tivesse vindo parar às nossas mãos, porque uma taça havia de certeza, há que investigar o 3º, 4º e 5º classificados, tendo em conta que no torneio de Montreux deste ano, o melhor marcador foi um atleta Angolano, cuja selecção ficou em 4º lugar.

    Isto não resolve as suas dúvidas, mas encurta a faixa de procura. Por outro lado, cumprimento-o pela sua bem vinda iniciativa, para a qual desejo o maior sucesso e em Setembro estarei atento ao lançamento da sua obra que seguramente virá preencher uma grande lacuna na biblioteca da modalidade.

    Felicidades. Velasco

  5. Pedro Patraquim says:

    Boa tarde. Não que venha a propósito deste post em particular, mas aqui vai (não consegui usar a secção de “contacto”):

    Encontrei este site por acaso, e devo dizer que é uma maravilha, por ser muito difícil encontrar informação sobre a história do hóquei em patins em Moçambique. O meu pai, nascido tal como eu em Moçambique (ele em Lourenço Marques, eu já em Maputo), presenciou e fala insistentemente do hóquei moçambicano brilhante nos 50-70, e por isso os nomes Velasco, Bouçós, Moreira, Fernando Adrião etc… são quase mitológicos. É portanto uma grande honra poder escrever ao grande Francisco Velasco. No entanto, tenho uma pergunta para lhe fazert: onde encontrar vídeos – se os há – desses tempos? Finais de mundiais, europeus, etc.. Apesar de conhecer os nomes, nunca os vi jogar e gostaria muito ter essa oportunidade. Obrigado pelo tempo despendido; um forte abraço,

    Pedro Patraquim

  6. Velasco says:

    Boa tarde, Pedro Patraquim
    Obrigado pelo comentário. Esta é uma plataforma adequada para esclarecimentos. Se for à categoria, “Da Cartola”, título “Os guarda-redes esses frangueiros”, encontrará uma explicação acerca das filmagens e da razão da falta delas. Mas existem, o Mundial de 1958 foi coberto pela nossa TV, o Europeu de 1959 pela Eurovisão, o Mundial de 1960 pela TV Espanhola e reproduzida pela nossa. Possuo uma recuperação bastante interessante que pretendo introduzir neste Site assim que obtenha autorização para o efeito senão todo, pelo menos vários clips relativos à participação dos jogadores moçambicanos nessas provas.
    Um abraço

  7. Velasco says:

    Caro Pedro Patraquim
    Em tempo.
    Esqueci-me que esta questão das filmagens surgiu na categoria “O Carrossel”, nos comentários feitos ao título “O Guarda-redes”. Porque achei que deveria desmistificar certas ideias, transferi parte deles para a categoria “Da Cartola”.
    Bom fim de semana.

  8. Phill Panagini says:

    Velasco, old boy!

    What are you doing with de videos!!!
    To see them do I need the Hubble Space Telescope’s?

    C´Mon…

    Phill

  9. Velasco says:

    Phill, young boy!

    I reckon you’re related to the great Hockey player Panagini, which I had the previlege of knowing and watching him play at the World Cup held in Italy in 1955. In my post – «1958 – Moçambique in Montreux», there is a photo of the Italian National team. Standing, the 3rd from the left looks like Panagini, I’m not sure.

    On the other hand in the post – «1958 XIII World Cup in Porto-Jogos», there’s a photo “12-ita3” (mouse over), 3 rows up from the bottom, middle column. Click on it to enlarge and between me and Prinz, I seem to recognize Panagini, in the back ground. He was a left handed iconic player, with a powerful shot. Actually he had a stocky and menacing physique.

    As for video clips depicting some matches, I’ll insert them by August, this year, when someone will be here to show me how to do it… so you don’t have to blast off from Cape Canaveral to peep thro the Hubble Telescope.

    As a matter of curiosity please confirm your relashionship with Panagini, I suspect you’re a son, grand-son or a cousin.

    Velasco

  10. Anónimo says:

    Panagini, foi em Portugal e Espanha um caso sério de popularidade?
    Mais do que na sua terra!
    Raparigas de algumas aldeias portuguesas que nunca o viram jogar, citavam-no como o jogador que mais gostavam…
    Platonismo este que nem sequer o Adrião conseguia fazer sombra…

    Excluindo a emotividade, sabe se haveriam reais motivos técnicos e profissionais, que justificassem o fenómeno?
    Caso a resposta seja positiva, quererá exemplificar?
    Ele era esquerdino, suponho eu, ou seria que manobrava o stick, com ambas as mãos, com igual facilidade?
    Antecipadamente reconhecido pela sua resposta.
    Cps.

  11. Anónimo says:

    Corrigenda:
    Onde está popularidade?, leia-se popularidade.

  12. Velasco says:

    Caro anónimo
    Esta sua corrigenda não faz sentido… mas entendo.

  13. Velasco says:

    Caro anónimo
    Não tenha dúvidas que foi um caso sério de popularidade. As moçoilas de algumas aldeias portuguesas se não o viram jogar, de certeza que ouviam o seu nome pela rádio, pois marcava bastantes golos. A única explicação para este fenómeno é simples. Era na altura um fora de série, um pujante “dobberman”, sem ser grande malabarista mas muito prático e eficaz, senhor de uma poderosa e certeira seticada. Era essencialmente esquerdino.
    Seu curriculum: Participou nos Mundiais de 1948, 1949, 1950, 1951, 1952, 1953, 1954, 1955 (quando o vi jogar em Milão), e 1956. Joguei contra ele em 1957, IIª Taça Latina, em 1958 no Mundial do Porto e em 1960 no Mundial de Madrid. A única prova importante em que o Panagini não participou foi a do Europeu de 1959, em Généve.
    Com um historial destes, não admira que ficasse a fazer parte do folclore do povo.

  14. Luís Prates says:

    Se fosse entrevistador desportivo e tivesse a oportunidade, não deixaria de lhe fazer as seguintes perguntas:

    Que jogador nacional o impressionou mais?
    E estrangeiro?
    Como se definiria como jogador?

    Kanimambo

  15. João Ferreira says:

    Se fosse entrevistador desportivo e tivesse a oportunidade, não deixaria de lhe fazer as seguintes perguntas:

    Que jogador nacional o impressionou mais?
    E estrangeiro?
    Como se definiria como jogador?

    Kanimambo

  16. Luís Prates says:

    O meu nome é Luís Prates.
    Se enviei a mesma mensagem com outro nome, foi um subterfúgio que me ocorreu para que a minha mensagem fosse aceitada, dado que sempre que pretendia enviá-la, gerava-se uma notificação impedindo a sua publicação por ser duplicada.
    Penso que deve estar ao corrente disto!

  17. Velasco says:

    Caro Luís Prates
    Já tinha reparado nisso pois o IP era o mesmo e pensei que teria sido um modo de os “dois” se assegurarem que a mensagem entrava. Comecei a responder-lhe, mas pensando melhor, achei que deveria dar maior ênfase à minha resposta, como “entrevistado”, transferindo as suas perguntas deste local Comentários, para a categoria Da Cartola, com mais visibilidade e até porque a minha resposta não é simples.
    Espero publicá-la o mais rápido possível, dentro de um par de dias, no máximo.
    Kanimambo, diz tudo.

  18. Outro anónimo says:

    Sem o intuito de por em causa ou, sequer beliscar, as qualidades e o valor de Panagini, nem tão pouco subestimar a resposta do Velasco, penso que a minha interpretação também tem cabidela.
    Ninguém do povo sabia ou estava minimamente interessado quantas vezes o “Gin” tinha actuado internacionalmente ou se marcava muitos ou pouco golos. Muito menos o sexo feminino!
    Então, qual o motivo de tanta afeição?
    Exactamente pelos mesmos motivos que preferiam o Paul McCarteney aos seus companheiros dos Beatles; por ser o único bonito para as jovens.
    Razão esta extensível ao actor actor Tony Curtis que atraía uma larga afluência do sexo feminino, que se lhe mantinha sempre fiel, independentemente do nível das suas actuações.
    E, por esta mesma razão, “idolatravam” o Panagini, que era o jogador mais bonito de todos, afirmavam elas.
    É caso para relembrar que o coração tem razões que a razão desconhece.
    Isto era o que se passava neste outrora jardim à beira mar plantado.
    No que toca a Espanha desconheço.

    O valor profissional e as provas dadas nem sempre tornam um atleta o mais popular!
    Atente-se no exemplo de um dos maiores ciclistas de todos tempos, o grande campeão Jacques Anquetil, que não era o mais popular na sua época em França; mas sim o Poulidor, carinhosamente apelidado de “Poupou”.
    Correia dos Santos foi maior goleador e talvez mais mexido do que o Jesus Correia. Contudo, o célebre “monsieur je” era mais popular, tanto cá como no estrangeiro do hóquei em patins.
    Enfim, fico-me por aqui.

    Viva o Velasco!

  19. Velasco says:

    Caros Anónimo e Outro Anónimo
    Agradeço as intervenções de ambos que por coincidência, presumo, se interligam num nó à volta de um simples nome: Panagini. Não vejo razão para anonimato neste Site, até porque as questões postas inserem-se no contexto desportivo que é cariz do mesmo. Todavia reconheço a liberdade que lhes assiste de escolherem o modo como desejam participar. Vou responder na categoria Da Cartola, à semelhança do que me comprometi com Luís Prates, anteriormente. As minhas observações requerem espaço e, curiosamente, uma certa busca nos meus arquivos físicos como mentais. Para a semana serão publicadas e espero que ambos? fiquem agradados.
    Cumprimentos

  20. JMendes says:

    Caro Luís Prates:
    Não leve a mal que lhe diga que com a segunda pergunta, sem querer, tenho a certeza, meteu o Grande (não me refiro à altura que também é verdade) Velasco num aperto dos antigos!
    Pois, do meu ponto de vista, nenhum jogador estrangeiro do tempo do Velasco para trás, possuía técnica e habilidade que se comparasse às dos portugueses, Panagini incluído.

    Cumprimentos do
    Mendes

    NB:
    Nem sequer estou a mentir por patriotismo, que é coisa, outrossim, do passado.

  21. Velasco says:

    Caro J. Mendes
    Vou acoplá-lo ao Luís Prates no Da Cartola, a fim de integrar este interessante assunto num único artigo. Não existe nenhum aperto mas haverá sim, uma ponderação de minha parte que suporte as respostas, ou melhor, as minhas lembranças desse passado longínquo.
    Até lá, retribuo os cumprimentos.

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